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O meio académico filosófico mais tradicional chia quando se depara com escritores que escrevem acerca da vida de um determinado filósofo (neste caso, Arthur Schopenhauer). Particularmente, não acredito haver problemas se levarmos em conta a caracterização de romance e não de biografia. Isso não chega a comprometer nada do legado desses grandes pensadores. Faz até com que muitos leigos possam tomar conhecimento primeiramente da vida de um pensador e, quem sabe?, até embrenharem pelas vias de pensamento dele.

É por isso que, ressalvas à parte, entendo o valor de obras como “A Cura de Schopenhauer”. A exemplo do que fez em “Quando Nietzsche Chorou“, o autor busca um elo entre a vida de um filósofo e a caracterização de muitos problemas que têm a ver com fatos do quotidiano, esclarecendo sempre que Irvin D.Yalom é psicanalista.

Mas há uma diferença fundamental entre os dois livros do mesmo autor: em “Quando Nietzsche Chorou”, ele retrata o fictício encontro do filósofo alemão com o Dr. Breuer, que tem como discípulo um certo Sigmund Freud, ele mesmo, o “Pai da Psicanálise”. Ao contrário, em “A Cura…”, a referência a Schopenhauer, nascido em 1787 e falecido em 1860, é indireta. Uma personagem, Philip Slate, encontra redenção para uma compulsão sexual a partir do momento em que começa a estudar Schopenhauer.

Sigmund Freud
Arhur Schopenhauer

O romance se passa em nossa época atual. Entremeando o romance, uma boa biografia do pensador que legou ao mundo o excepcional livro “O mundo como Vontade e Representação (costumo dizer que é um belo acompanhante, já o leio há sete anos e realmente é uma obra de cabeceira). A interseção de Philip Slate se dá primeiramente com o terapeuta Julius Hertzfeld e a seguir com um grupo de psicoterapia. Problemas do dia-a-dia vão sendo levantados e a impressão que passa ao leitor(a) é a de que ele, por via indireta, pode perfeitamente se “curar” através de exemplos apresentados. Mas que fique claro: não é um livro de auto-ajuda.

Mas quer dizer que estudar Schopenhauer combate a compulsão sexual? Não é tão reducionista assim. Schopenhauer foi considerado por muitos estudiosos uma grande fonte de estudos para Freud e muitos afirmam que os pensamentos deste último e os de Friedrich Nietzsche ficariam comprometidos sem a sua leitura. Schopenhauer foi um dos primeiros filósofos ocidentais a ter como guia um livro oriental famoso, “Upanishads“, e aproximou-se do budismo, ao relacionar os conceitos de vida e sofrimento.

Irvin D. Yalom

Costumeiramente definido como “pessimista”, Schopenhauer foi, na verdade, realista, pois entendeu a vida como uma roda imensa de desejos, satisfação desses desejos, tédio, outros desejos, etc… Daí o sentido inútil para a humanidade que se compara àquele cachorro que vive correndo atrás do próprio rabo. A solução encontrada por Schopenhauer merece ser estudada. Para os filósofos e amantes na arte da problematização, o cálido, mas saboroso “O mundo como Vontade e Representação”. Para um primeiro contato com os seus ensinamentos, os enxertos da obra “Parerga e Paraliponema” e mesmo essa dádiva que é o livro de Irvin D. Yalom.

Marcelo Pereira Rodrigues

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