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Porque A Arte Somos Nós

Gonçalo M. Tavares nasceu no ano de 1970, em Luanda, Angola, mas com apenas dois anos foi morar para Portugal. É formado em Filosofia e em 2001 lançou o seu primeiro livro: “O Livro de Dança“. Entre os galardões já recebidos, destaca-se o Prémio Portugal Telecom, de 2007, o Prémio José Saramago, de 2005, com o livro “Jerusalém” e o Prémio Branquinho da Fonseca da Fundação Calouste Gulbenkian e do Jornal Expresso. Publicou 21 livros em apenas nove anos.

A leitura é a primeira fase da escrita, e a literatura tem um peso feroz na nossa maneira de construir pensamento: “ler é uma sensação de estar, é uma actividade e não uma passividade“. Para incitar ao processo criativo, criou e mantém uma espécie de «esconderijo» temporal, um que está escondido de todos os outros: “um fugir ao mundo, um tempo fora do mundo“. Sente um enorme prazer em voltar à escrita, ao seu mundo, após um afastamento – que, na verdade, o exponencia.

Quanto a definir géneros literários, diz que pode ser uma ideia muito limitadora, “há divisões clássicas com as quais não me identifico nada“. Aquela ideia, (para o próprio) cada vez mais ultrapassada, mas que na sua opinião infelizmente subsiste, de que “o ensaio é para pensar, o romance é para contar, que o poema é para sentir“, é uma ideia perigosa e muito pré-concebida.  A observação é o prefácio do seu trabalho.

Clarice Lispector é uma das suas maiores influências, que lhe permite uma leitura lentíssima e prazerosa, negando o que para ele é outra ideia do quotidiano que o prazer está inteiramente ligado à velocidade, “como se isso fosse um sinal de extraordinária qualidade: há livros fantásticos que nos obrigam a parar“. Costuma comparar os livros a espécies animais, no sentido em que, para ele, não se pode dizer entre os animais quem é o melhor, podemos sim gostar mais de um, diferenciar por características “e não por uma hierarquia absoluta“.

“Jerusalém”, Gonçalo M. Tavares (2005)
“Aprender a Rezar na Era da Técnica”, Gonçalo M. Tavares (2007)

Aconselha a todos os jovens escritores ler muito, ver muito bom cinema, ter uma capacidade selectiva muito boa nos bastidores da escrita. No acto criativo, aconselha a “escrever, escrever, escrever“, revendo, corrigindo e não se entusiasmando em demasia, dissociando a ideia da escrita à publicação, “não são sinónimos; por vezes a publicação impede, por diversos motivos, que a pessoa continue a escrever, pode paralisar“. A escrita para ele é quase uma necessidade orgânica, de proximidade ao desconforto, o que, por outro lado, nas suas palavras: “não é um acto que obriga a sair do normal; não escrever, sim, obrigar-me-ia a sair do normal“.

Ganhou o hábito de guardar “a matéria bruta” dos seus escritos pelo menos dois anos, para depois voltar ao livro para deitar fora, cortar, eliminar, voltando, segundo ele, como um leitor que se distanciou emocionalmente do livro, podendo, assim, vê-lo de uma forma crítica. Começou a publicar os seus livros aos 31 anos, mas as obras que foi publicando sequencialmente, quase todas estavam já escritas, tendo tido uma espécie de “regime estóico, disciplinado“, onde leu e escreveu bastante. A sua disciplina visa buscar a ataraxia, a tranquilidade, a ausência de dor, uma espécie de controlo das paixões, para o que fosse criando tenha uma veia mais racional.

Numa das maiores epígrafes perante a vida há um ditado chinês que diz: “não te atrevas a escrever um livro antes de leres mil“, uma espécie de maldição que leva muito a sério o processo da escrita e, claro, a importância de ter uma bagagem de leitura muito grande. Sempre teve muita paciência para deixar que o tempo melhore o seu olhar para aquilo que vê, “moldando o olhar imediato“.

Um dos escritores portugueses com maiores provas dadas da actualidade e dos ainda bastante promissores, que tanto tem enriquecido a nossa cultura literária.

Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater

José Saramago

Tiago Ferreira

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