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Porque A Arte Somos Nós

Nuno Lopes nasceu a 6 de Maio de 1978, em Lisboa. É um dos actores mais reconhecidos em Portugal, e que começa a ganhar o seu destaque internacionalmente. Formou-se na Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa e, a complementar a sua carreira como actor, no decorrer do seu percurso formativo, adquiriu competências a nível de dança, canto e música.

Relativamente ao seu mais recente trabalho, “White Lines” (estreia a 15 de Maio, na Netflix), diz que se trata, naturalmente, de uma grande produção, cuja diferença monetária relativa a produções nacionais é, obviamente, considerável, sobretudo pela maior duração das gravações (seis meses de filmagem), pelo maior investimento e pelas melhores condições de trabalho.

Trata-se, segundo o próprio, de um thriller policial, negro, com estilo de comédia/drama e, relativamente a esta nova oportunidade, o actor diz que se aprende muito com a diversidade linguística e cultural. Além disso, realça o apoio constante do produtor, com o argumentista a levar a série por um caminho e o realizador a permitir muita liberdade aos actores.

O actor esclarece: “nunca desisto, sou muito chato“, isto relativamente a ideias de melhorar o caminho que a série ou o filme está a levar. Neste sentido, afirma: “acho que no trabalho, na vida e na política, a discussão é sempre produtiva e traz-nos sempre para um caminho que, na verdade, é muito melhor do que nós imaginámos“.

Por outro lado, “quando as pessoas me perguntam o que é que é ser actor, eu digo: de certeza que tu já brincaste quando eras novo… é a mesma coisa, um bocadinho mais a sério“. Desta forma, para ele, a química entre actores é fundamental, isto é, defende que tem de haver magia.

Contudo, realça a escassez de dinheiro para produções nacionais e, mesmo sem nunca ter desejado uma carreira internacional, sentiu que, após ter ganho o Prémio de Melhor Actor em Veneza (em 2016, com o filme “São Jorge“), era o momento de tentar alguma coisa lá fora, “de continuar a trabalhar com realizadores que me desafiassem“.

Nuno Lopes distinguido com o Prémio de Melhor Ator, em Veneza

Relativamente à pandemia do Covid-19 e aos problemas que as produções nacionais sofreram e sofrem com esta situação, Nuno Lopes diz que “um dos problemas da cultura é que nós somos trabalhadores precários e a cultura é muito precária em Portugal, o que faz com que, quando acontece um acontecimento como este, é muito difícil pôr uma produção de volta, porque de repente já gastaste o pouco dinheiro que tens (em cenários, actores, viagens), que agora ter que repetir isso tudo, o estarmos sempre a criar omeletes com um só ovo, faz com que, quando já só temos meio ovo, já não dá para fazer bem uma omelete“, algo que, infeliz e inevitavelmente, se nota no resultado final.

Além disso, detesta a palavra “competição” na Arte e diz que é assombroso, tendo em conta a situação e disponibilidade financeira de Portugal para investir na Cultura, a quantidade de prémios que arrecadamos “lá fora”.

O actor costuma, até, dizer que, na comédia e no drama, há dois tipos paixões: “no drama tu apaixonas-te pela qualidade de um personagem, os defeitos dele não interessam, por muito má que seja a pessoa, tu tens que estar apaixonado pelas suas qualidades, tens que estar do lado dele, tens que o defender; na comédia, é o oposto: tu apaixonas-te pelo preconceito, pelos defeitos, ou seja, por exemplo, se fazes um tipo que é muito bonzinho, é alguém que, se lhe roubam o telemóvel, vai atrás do ladrão para lhe dar o código… É amar as personagens pelo defeito“.

Nuno Lopes no Cinema Trindade, no Porto

Por outro lado, diz ficar chocado quando vê algum colega de profissão ter uma atitude de preconceito, precisamente porque essa é a essência inversa à sua profissão, uma vez que a natureza do actor é pôr-se na pele de outra pessoa e olhares com ela e por ela, “seja um olhar intimista, como é no drama, seja pores-te do lado dela, seja um olhar crítico, como é na comédia, que estás, de certa maneira, a olhar de fora“. A coisa que mais o orgulha na sua profissão é, portanto, o facto de haver sempre uma empatia pelo outro.

Sobre esta nova crise que atravessamos, o actor diz que a Cultura é um dever do Estado e que neste momento é primordial que o Governo mostre a sua face, que se chegue à frente, e que, se realmente está do lado dos artistas, “tem que pôr isso em prática“. Diz, também que, apesar de ter tido sempre uma ideia muito clara e interiorizada sobre o que queria fazer como actor, não deixando que as coisas acontecessem ao acaso, ou indo por aquilo que fosse mais fácil ou evidente, admite que teve uma grande sorte, aliada ao talento e ao trabalho, de conhecer muitas pessoas certas no início do seu percurso.

Na sua opinião, o seu trabalho é político, no sentido em que pode mudar as coisas e uma vez que as nossas escolhas mais pessoais são políticas, quer seja a optar por trabalhos, mas também porque acredita que a Arte é, ao mesmo tempo, política e anti-política, precisamente porque tem essa função de “mudar o mundo”. Mas, ao mesmo tempo, está no oposto da Política, com uma vertente profunda de anti-poder, no plano da crítica, direccionada para a sociedade, levantando questões, isto é, “um espelho da sociedade, uma maneira de mostrar, aos políticos, o que vai mal“.

O “chato”
Série “Os Comteporâneos”

Nuno Lopes, que pode ser considerado o melhor actor português da actualidade, afirma que, quanto aos convites para projectos, tem “mais orgulho nas coisas a que disse que não, do que das coisas a que disse que sim“, precisamente porque lhe permite personificar e imortalizar a sua liberdade enquanto artista “do mundo”. Na sua vida procura pessoas com quem não precisa de dizer nada, em quem pode confiar, com quem sabe que tem a mesma linguagem, com cumplicidade, “com quem não precisas de ter palavras para chegar a um fim.”

Estamos a falar de um actor muito versátil, audaz, que trabalha muito, que nunca deixa de parte possibilidades na sua vida, sempre muito aberto à incerteza no seu futuro. É, indubitavelmente, uma esperança para o cinema português.

“O actor tem de criar a sua própria identidade: trabalhares para aquilo que queres ser”

Nuno lopes

Tiago Ferreira

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