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Porque A Arte Somos Nós

A primeira parte deste artigo está disponível aqui, e a segunda aqui.

Capítulo III

“Bowling For Columbine”

Bowling for Columbine“, de Michael Moore, é um documentário doloroso, como uma versão de duas horas dessa história. Vivemos num mundo de milhões de revólveres, mas isso não é realmente o que incomoda o realizador. O que o incomoda é que nós frequentemente “atingimo-nos” desnecessariamente.

O Canadá tem uma proporção similar de armas por cidadão, mas um décimo das mortes por tiros. O que faz os americanos matar tantas vezes mais cidadãos do que em outras nações desenvolvidas? Moore, o agitado populista, diz ser um ex-instrutor de tiro ao alvo e um membro vitalício da Associação Nacional de Rifles. Isso é verdade, contudo este afastou-se da sua “predilecção” por armas de fogo.

Em “Bowling for Columbine”, no entanto, Moore não está tão certo das respostas quanto em “Roger & Me“, um filme no qual ele sabia quem eram os “bandidos” e porquê. Aqui faz perguntas que o próprio não consegue responder, tais como o porquê, como nação, os americanos parecem tão amedrontados, e tão necessitados de armas.

Tendo em conta que valorizamos as lendas urbanas destinadas a deixar-nos com medo de estranhos, Moore percebe como as reportagens na televisão se concentram na violência local, acrescentando que enquanto a taxa de homicídios cai 20% nos Estados Unidos, o crime violento aumentou cerca de 600%.

Na parte inicial do filme, o documentarista visita um banco, o North Country Bank, que está a oferecer armas às pessoas que abram novas contas. Moore pergunta a um banqueiro se não é perigoso ter todas essas armas no banco, não revelando a resposta do mesmo. O banco, veio o cineasta a descobrir, é uma concessionária licenciada de armas.

Moore a abrir uma conta no North Country Bank, a fim de ganhar uma arma

A ponderação de Moore não inibe os cenários sensacionais que cria para ilustrar a sua preocupação. O cineasta retorna várias vezes à Columbine High School, numa das vezes mostrando cenas do arquivo de segurança alusivas ao massacre. Columbine inspira um dos grandes confrontos numa carreira dedicada à arrogância radical. O documentarista apresenta-nos dois estudantes feridos em Columbine, ambos ainda com balas no corpo, explicando que todas as balas envolvidas no massacre de foram vendidas “gratuitamente” aos adolescentes assassinos, a 17 centavos cada.

De seguida este leva as duas vítimas para a sede da Kmart, local onde foram compradas as balas, para as devolver e pedir reembolso. Dentro da linha de comunicação de Moore, esta provocação tenta desmascarar a entidade responsável pela venda das balas, expondo de forma crua o sistema, e os valores morais que o cineasta ataca desde o início do documentário.

Momento em que Moore chega com as duas vítimas ao Kmart

A cena é brilhante do ponto de vista em que parece ser incontestável para os porta-vozes de relações públicas da Kmart, que se remexem e fogem em frente à câmara impiedosa de Moore. Mas então, na terceira visita à sede, este é informado de que a Kmart concordará em proibir a venda de munições.

Comunicado oficial a anunciar o fim da venda de munições

O filme é um mosaico de confrontos de Moore e imagens suplementares. A certa altura do filme, é exibido um programa de stand-up com o comediante Chris Rock. Aqui, este sugere que o problema poderia ser resolvido de forma bastante fácil, aumentando o preço das balas – taxando-as como cigarros. Em vez de 17 centavos cada, por que não 5.000$?! “A esse preço“, especula o apresentador, “você teria muito menos espectadores inocentes a ser baleados“.

Chris Rock

De forma a obter mais informação sobre alguém influente no mundo das armas, Michael Moore visita Charlton Heston, presidente da National Rifle Association (NRA), e entrevista o ex-actor. Contudo, Heston parece claramente não saber nada sobre o histórico de Moore, resultando em respostas patéticas às perguntas do cineasta. Este simplesmente não consegue explicar a razão de um homem que vive atrás de um portão num bairro protegido, com patrulhas de segurança, que nunca se sentiu ameaçado, precise de uma arma carregada em casa.

Charlton Heston (esquerda) e Michael Moore (direita)

A inclusão de Moore como narrador-personagem afasta-o do senso de que a função do documentarista limita-se a olhar para o outro, o que não é uma verdade absoluta, pois nada impede este de ser também uma personagem. O cineasta não trabalha apenas com a visão do outro, pois este também se inclui na narrativa quando intervém na fala da personagem, ou quando usa as suas experiências pessoais para compor o filme.

Um exemplo são as imagens de Moore adquirindo uma rifle após ter aberto uma conta bancária, algo que poderia ser feito por qualquer cidadão. A escolha de se mostrar a si próprio no mesmo patamar das outras personagens mostra que o documentarista não tem uma visão distanciada do acontecimento, pois trata o assunto com familiaridade (Pimenta, 2004).

Moore e o artista Marilyn Manson
Moore comprova a teoria das portas destrancadas no Canadá

Logo, o facto de Micheal Moore, ou a sua equipa de filmagem aparecer no documentário, não é uma obrigatoriedade da produção documental, sendo que o objectivo principal do realizador é expressar sua visão.

“Fahrenheit 9/11”

Dos dois documentários analisados, este é o mais direccionado, pois o olhar está sobre um único alvo: George W. Bush, ex-presidente dos Estados Unidos da América. O documentarista é direto e incisivo quanto ao seu ponto de vista a respeito do assunto tratado, e aponta a seta sempre para o centro do alvo.

Os desenhos animados do filme não vão prestar atenção à política, mas Moore ilustra-os com imagens dramáticas e um comentário implacável, que essencialmente conclui que Bush é incompetente, desonesto, e fracassado na guerra contra o terrorismo.

Embora a narração de Moore vá do ultraje ao sarcasmo, a passagem mais devastadora do filme fala por si. Acontece quando Bush, que estava a ler o conto infantil “My Pet Goat” para uma sala de aula de crianças da Flórida, é notificado do segundo ataque ao World Trade Center, sendo que o presidente permanece com as crianças cerca de sete minutos, antes de finalmente abandonar a sala. A sua paralisia inexplicável não foi sublinhada nas notícias da época, e apenas Moore pensou em contactar o professor daquela sala de aula que, como se viu, fizera seu próprio vídeo da visita.

Momento em que Bush sabe do segundo ataque

George W. Bush, em várias alturas do filme, é caracterizado como um homem que deve muito aos seus amigos. Moore enfatiza particularmente o que vê como uma amizade de longo prazo entre a família Bush (incluindo os dois presidentes) e as figuras poderosas da Arábia Saudita. Mais de 1,4 bilhão de dólares em dinheiro saudita vazou para os cofres das empresas da família Bush, diz o documentarista. Depois do 11 de Setembro, a Casa Branca ajudou a acelerar o processo de vôos para fora do país levando, entre outros, membros da família do terrorista Bin Laden.

Lista dos voos que partiram do aeroporto JFK após o ataque terrorista

Michael Moore examina os registros militares divulgados por Bush para explicar o seu desaparecimento da Guarda Aérea Nacional do Texas, descobrindo assim que o nome de outro piloto foi apagado. Esse piloto, James R. Bath, era amigo próximo do então presidente norte-americano, vindo a tornar-se gerente de contas do Texas para os bilionários Bin Ladens.

Documento divulgado por Bush

Outra indicação que demonstra a proximidade entre os Bush e os sauditas é o escritório de advocacia de James Baker, secretário de Estado do pai de George W. Bush, que foi contratado pelos sauditas para os defender contra uma acção por parte das vítimas, e sobreviventes, do atentado de 11 de Setembro.

Para Moore, isso é mais uma evidência de que Bush tem um relacionamento obsessivo com os sauditas, o que pode ter influenciado sua decisão de invadir o Iraque. O documentarista considera a guerra injustificada, pois este fala com soldados americanos, incluindo amputados, que reclamam amargamente os cortes de salários militares, impostos por pelo presidente, ao mesmo tempo que os envia para uma guerra que eles (pelo menos, os que Moore falou) odiavam.

Soldados que combateram no Iraque

Moore traz um novo impacto ao material pela forma como organiza suas imagens. Estamos todos familiarizados com a controvérsia sobre a eleição de 2000, que foi resolvida pelo Supremo Tribunal dos EUA. Era inédita a muitos olhos, a filmagem da ratificação da eleição de Bush pelo Congresso dos Estados Unidos da América.

A infame sessão que dita o futuro presidente

Uma eleição pode ser debatida a pedido de um senador e um representante. Acontece que dez representantes levantam-se para o desafiar, mas não um único senador. Como Moore mostra os desafiantes, um após o outro, não podemos deixar de notar que eles são oito mulheres negras, uma mulher asiática e um homem negro. Eles são todos silenciados pelo presidente da sessão conjunta do congresso – o vice-presidente Al Gore. A urgência e futilidade da cena desperta sentimentos antigos, principalmente para aqueles que acreditam que o presidente americano seria um presidente ilegítimo.

“Fahrenheit 9/11” abre num registo não muito diferente dos filmes anteriores de Moore, como “Roger & Me” e “Bowling For Columbine”. Moore, como narrador, traz humor e sarcasmo nos seus comentários, e ocasionalmente aparece na imagem como que uma mosca. Este faz bom uso de imagens transparentes, incluindo um vídeo misterioso mostrando Bush a praticar expressões faciais, antes de entrar em directo para prestar declarações à nação sobre o ataque do 11 de Setembro.

George W. Bush

Fahrenheit 9/11” é um filme convincente e persuasivo, em desacordo com o esforço da Casa Branca de apresentar Bush como um líder forte. Este apresenta-se como um homem superficial e inarticulado, de fala simplista e de maneira não autêntica.

A banda sonora deste documentário é fundamental para sustentar e destacar a ironia estabelecida quando a voz em off de Moore não está em acção. As imagens das férias presidenciais, ao som de Vacation, dos The Go-Go’s, representam a censura contra o longo período de férias tirados pelo presidente americano.

Shiny Happy People, da banda norte-americana R.E.M., é tocada durante a passagem dos vários encontros entre a família Bush e os árabes, ironizando assim as relações comerciais entre os Estados Unidos da América e os Sauditas. Fire Water Burn, dos Bloodhound Gang, é a música ouvida pelas tropas norte-americanas durante os ataques ao Iraque e, ao terminar o filme, Rockin’ in the Free World, do canadiano Neil Young, critica a ideia de haver liberdade no mundo (Pimenta, 2004).

Shiny Happy People

Conclusões

Em primeiro lugar, o papel do documentário para com a população é de um valor irrepreensível. O olhar da câmara é como um espelho do mundo para o espectador, ou seja, é a visão do mundo para este. A câmara permite-nos captar acções e acontecimentos que seria quase impossível alguém, que não seja profissional na área, o fazer. Não só a forma como capta as imagens, mas como depois as vai trabalhar, de forma a conseguir contar uma história.

Essa começou por ser a base de tudo, até do próprio jornalismo: retratar a realidade. Esse é outro ponto muito importante, a relação com o jornalismo. Obviamente, o documentário pode partir para caminhos mais de propaganda, ou parciais, mas ao mesmo tempo, pode ser utilizado como uma ferramenta para expor factos, contar uma história de forma imparcial, e ter um dever para com o espectador.

É nesta necessidade de expor os factos, como o seu ponto de vista, que Michael Moore decidiu ser documentarista, de forma a poder contar as suas histórias aos outros. Este é um provocador, uma desafiador da realidade, que tenta sempre desmascarar os temas em que se envolve, tal como um jornalista faria.

Com o visionamento dos dois documentários, vemos que a técnica utilizada pelo cineasta norte-americano é a de dar a cara, de forma a câmara poder captar o confronto, as dúvidas, as surpresas e as certezas. Este tenta sempre ir buscar todo tipo de argumentos, de forma a poder questionar a realidade e os seus agentes. Moore recorre bastante vezes aos arquivos como termo de comparação e confronto, pondo em causa a reputação de vários personagens, e entidades governamentais, com o intuito de conseguir as respostas às suas questões.

Michael Moore pode muitas vezes parecer tendencioso na forma como aborda os seus documentários, contudo deve-se realçar a sua capacidade, e coragem, para conseguir abordar temas sensíveis e polémicos, transformando-os numa história com uma realidade diferente do que a que conhecemos.

Esse outro lado da questão é necessário, e é o que na maioria das vezes as pessoas procuram com este tipo de obras. A busca por mais conhecimento é constante, ainda para mais quando temos à nossa disposição ferramentas tecnológicas que nos permitem não só criar, mas consumir também, informação e cultura. Torna-se assim mais fácil a busca pelo conteúdo, como documentários, o que incentiva a criação de cada vez mais obras por parte dos artistas.

Documentar algo, quer seja escrito, fotografado, ou filmado, é uma necessidade do Homem para evoluir, para expandir o seu conhecimento, mas mais importante ainda, para se lembrar

O documentário abrange todas as áreas possíveis, podendo ser ficcional ou não, sendo que mais importante, tal como em outros estilos cinematográficos, nos possa fornecer um outro olhar. É essencial a obra suscitar dúvida ao espectador, mas também uma conclusão.

Com o crescente número de filmes documentais, que nos dão a conhecer episódios da história ofuscados pelo tempo, podemos juntar cada vez mais peças no que é a nossa visão do passado. O mesmo acontece com temas actuais, onde podemos ter uma visão diferente dos acontecimentos, olhares que só a câmara consegue captar.

Bibliografia

Fagundes, Maria Cristina de Jesus e Zandonade, Vanessa. O vídeo documentário como instrumento de mobilização social.2003. Disponível em “http://www.bocc.ubi.pt/pag/zandonade-vanessa-video-documentario.pdf

Nova, Cristiane. O cinema e o conhecimento da História.1996.

Penafria, Manuela. O ponto de vista no filme documentário.2001. Disponível em “http://www.bocc.ubi.pt/pag/penafria-manuela-ponto-vista-doc.pdf

Penafria, Manuela. O Documentarismo do Cinema.2004. Disponível em “http://www.bocc.ubi.pt/pag/penafria_manuela_documentarismo_cinema.pdf

Penafria, Manuela. O filme documentário em suporte digital.1999. Disponível em “http://bocc.ubi.pt/pag/madail-penafria-digital.html

Pimenta, Marilu Ribeiro. Moore than this! Um estudo sobre o filme documentário de Michael Moore.2004. Disponível em “http://www.bocc.ubi.pt/pag/pimenta-marilu-filme-documentario-michael-moore.html#SECTION00410000000000000000

Diogo Passos

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