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Porque A Arte Somos Nós

Assim que “Foge” estreou nos cinemas em 2017, o realizador e argumentista de “Us”, Jordan Peele, foi citado como um dos autores modernos do cinema de terror. A sua escrita aborda o género de forma inteligente, original, mas acima de tudo provocadora. Se ainda restavam dúvidas, “Nós” é o filme que confirma não só o seu talento como a sua paixão pelo macabro.

A história começa no passado. Estamos em 1986 na cidade de Santa Cruz e Adelaide Wilson (aqui interpretada por Madison Curry) está a passear com os seus pais num parque de diversões. A jovem vagueia para longe dos progenitores, acabando por vislumbrar algo inexplicável numa sala repleta de espelhos. Somos levados para o presente, onde Adelaide (Lupita Nyong’o) é uma mãe destemida de duas crianças, Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex).

Esta viaja com o seu marido, Gabe (Winston Duke), e com as crianças para a casa de férias da família, perto de Santa Cruz. Lá esperam passar um tempo relaxado, assim como reencontrar-se com um casal amigo. Uma noite, Jason apercebe-se que “está uma família na estrada”. Gabe tenta afugentar as quatros figuras sombrias, mas os seus esforços são em vão. Os intrusos instalam-se violentamente no seu lar e revelam ser sósias sinistras da família Wilson.

Ao contrário de “Foge”, que foi concebido com uma metáfora muito específica em mente, “Nós” é muito mais ambíguo e expansivo na sua temática. Pode ser lido como uma demonstração angustiante da dualidade moral do ser humano, a la O Médico e o Monstro” (1931), ou até mesmo as inevitabilidades do efeito borboleta. No entanto, o comentário de Peele vai mais além. Em última instância, o filme explora as consequências que a ação de uma pessoa tem na vida de terceiros e as suas repercussões na estratificação social.

Winston Duke, Shahadi Wright Joseph, Evan Alex e Lupita Nyong’o (da esquerda para a direita)

É muito para absorver de uma narrativa que leva o seu tempo a estabelecer as relações entre os protagonistas antes de começar o pandemónio. Inevitavelmente, segue o molde dos vários filmes de invasão domiciliária, com momentos verdadeiramente tensos. Mas é quando entra no território de “The Invitation” (2015) que a sua escala e mistério adquirem outra dimensão.

Outro testemunho da soberba realização de Peele é a qualidade das atuações. Lupita Nyong’o já tinha impressionado em “12 Anos Escravo” (2013) e em “Queen of Katwe” (2016), mas em “Nós” as suas capacidades são levadas ao limite, numa performance múltipla que não pode passa em branco. Winston Duke consegue uma interpretação difícil, onde tem de balançar humor com pavor e Elisabeth Moss, no papel de amiga do casal, faz uma excelente impressão com pouco tempo em cena.

Ainda assim, num par de cenas, o argumento tem dificuldade em equilibrar o que deve ser dito e o que podia ser deixado à imaginação. São decisões artísticas que têm sempre um grau de risco associado. As arestas da estrutura podiam ter sido limadas, mas a experiência singular nunca é comprometida.

Seria insensato terminar sem referenciar a composição musical assombrosa de Michael Abels, que além de memorável, é impossível dissociar de algumas das melhores cenas filme. O uso inventivo de vozes, instrumentos de cordas e ritmos inconstantes só vem ampliar o sucesso de “Nós”.

Entretém, instiga a reflexão e utiliza linguagem visual inquietante para produzir uma história que não vai cair no esquecimento. São tempos entusiasmantes para o cinema de terror. São tempos entusiasmantes para o cinema.

(Este filme está inserido na lista dos “Melhores Filmes de 2019“)

Bernardo Freire

⭐⭐⭐⭐

IMDB

Rotten Tomatoes

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