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Porque A Arte Somos Nós

A estreia em longas-metragens dos cineastas Gerard BushChristopher Renz começa com um plano-sequência de oito minutos que pinta um retrato da experiência hedionda que foi a escravidão da população negra no sul dos Estados Unidos da América, em plena Guerra Civil. Depois dessa marca temporal, a brutalidade do thriller “Antebellum” não cessa tão cedo, sendo que na base do seu drama está um conjunto de ideais promotores de um racismo sistémico que tem tanto de antiquado como contemporâneo. Num estilo narrativo desenhado para surpreender, muito do aproveitamento do filme define-se por o quão dispostos estamos em ser envolvidos nas suas reviravoltas.

Muito bem definido num princípio, meio e fim, a história cabecilha a atriz Janelle Monáe, que interpreta inicialmente Eden, uma escrava sujeita a trabalhos forçados e maus tratos constantes. A certo ponto, a mesma atriz parece encarnar outra personalidade – num espaço temporal moderno – de seu nome Veronica, uma académica doutorada que vive numa casa abastada com o seu marido e a sua filha. Parte do fascínio da jornada é descobrir de que forma é que as personagens estão conectadas, sendo que algumas respostas aos mistérios do terceiro ato podem levantar mais sobrancelhas do que respostas claras.

Janelle Monáe (Eden)

Com filmes como “Foge” (2017) e “Nós” (2019), Jordan Peele deu origem a um movimento denunciante do racismo dissimulado que serve de inspiração ao terror em “Antebellum”. Além de alguns elementos de suspense, a extensão do horror no filme não vai para lá de atos de brutalidade cometidos por semelhantes, o que poderá desapontar quem estiver expectante por algo menos subtil, mais formulaico ou de domínio sobrenatural.

A bem dizer, a intenção principal da narrativa está em alertar as pessoas para uma problemática social que é por vezes comentada como se de pó varrido pelos anais da História se tratasse. Uma série de episódios lamentáveis que marcam com um selo pecaminoso o passado. Nada podia estar mais longe da verdade. De formas mais ou menos evidentes, as atitudes supremacistas têm feito mossa e cada vez mais é necessário estar atento ao facto de, como refere a epígrafe do filme – “O passado nunca está morto. Nem sequer é passado.” (citação do autor William Faulkner).

Não é, portanto, cinema de terror integral, como o marketing pode fazer soar. Consegue inclusive incluir na sua escrita algumas sequências cómicas que têm como principal alicerce a atriz Gabourey Sidibe, que no papel de Dawn encarna uma amiga atrevida de Veronica. Em contraste com as tentativas de semear momentos mais tenebrosos no segundo ato, as cenas de humor conseguem um claro destaque. Muito porque o terror, além de inconclusivo, é em certas cenas inconsequente. O que faz com que “Antebellum” não seja uma proeza em execução, mas sim um exercício interessante no que toca à gestão de expetativas que alia uma direção de fotografia evocativa com um argumento que torce e contorce para bons e maus efeitos.

Janelle Monáe (Eden)

O drama pode não estar tão bem cozido na fábrica da narrativa como o extraordinário “12 Anos Escravo” (2013), nem biografar sobre uma personalidade histórica do abolicionismo como “Harriet” (2019), mas permanece uma peça provocadora de entretenimento que sustém a atenção e dá que pensar durante e depois da visualização. Pois por muito que os séculos anteriores sejam encarados com alguma desafeição e desapego, é o mesmo ADN que nos corre nas veias hoje que cometeu as atrocidades que estudamos nos livros de História. E não é preciso uma sessão de estudo intensiva para afirmar que, enquanto espécie, muitos de nós não somos melhores do que éramos outrora.

Bernardo Freire

Rating: 3 out of 4.

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