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A Árvore da Vida” é um filme que respira natureza: é uma lufada de tempo, espaço, passado, presente e futuro. Lento, muito lento, eis uma narrativa que vai caminhando sem lógica, com sentimento, mas que inicia de forma prolífica o desenrolar com monólogos e invocações a um Deus. Critica-se fundamentalmente o propósito do filme. A narrativa, em argumento puro, é capaz, ciente de si, cuidadosa, mas peca por não prender o espectador à problemática. Não há problemática. Há sim um sentimento de dor. Há uma dor irreparável da perda.

O filme em si não é mais do que metafísica. Brad Pitt (Mr. O’Brien) faz de pai severo, arrogante e irracional. Os filhos, vítimas da sua violência, chegam a desejar a sua morte. A sua esposa (Jessica Chastain) resigna-se. Esta obra não é mais que um documentário da vida como um todo. O amor é também, claro está, uma das vertentes. Mas pouco tem a dizer enquanto epifania. Sentimentalmente falando, temos um filme coeso. Criticamente, um filme pertinente. Como um todo, algo que não é excepcional. Fica na memória a forma. Em conteúdo, sabe a pouco. É claro que preenche pois consegue ser um filme conotado vivamente por Terrence Malick — o realizador e argumentista —, nomeadamente o carácter sui generis com que nos eleva — humanamente, digamos — e nos faz pensar. A questão é: enquanto obra de reflexão crítica tem muito a dizer, mas como narrativa com princípio, meio e fim é deficitária.

O filme tem uma mensagem muito forte no que toca à forma como lidamos com os nossos próprios sentimentos, e como nas relações humanas por vezes nos subjugamos ao outro e nos auto-limitamos, ao ponto de sermos escravos daqueles a quem dizemos amar. Uma das frases que aparece nas pertinentes prolepses que vão acontecendo ao longo da narrativa, dizia: “O mundo está entregue à bicharada. As pessoas são gananciosas e só pioram. Tentam controlar-nos“. Uma das evidências que, acima de tudo, este filme é uma crítica à sociedade e, num prisma mais amplo, à humanidade adjacente a todos. Mas as morais enaltecidas ao longo do filme são imensas. Essa é a fortaleza da película, na falta de um guião mais adaptado à realidade do espectador.

Há que ser claro quanto ao aspecto, e pertinência, dos finais. Há bons finais abertos, mas argumentos vazios em clímax não exigem desenlace… É como se o filme fosse infinito e o que vimos é apenas parte dele, de um todo inacabado. Para muitos isso pode ser bom; para outros, como é o meu caso, não é o suficiente para o classificar como obra-prima. “É preciso ter tenacidade para triunfar neste mundo. Se fores bom, as pessoas abusam de ti (…) Tu é que constróis aquilo que és. Tens o controlo do teu destino“. É um filme com um bom propósito, que sobrevive, portanto, das mensagens/reflexões subliminares – e talvez não tanto –, mas que se perde na superficialidade de um filme que, hoje em dia, é exigido mais pelos espectadores: uma narrativa com altos e baixos, que desafie o espectador, que não o aborreça e que o transporte para uma nova dimensão. Nesse aspecto, “A Árvore da Vida” é um filme muito interessante, mas fica-se só por aí: uma árvore sem frutos.

Tiago Ferreira

Rating: 2.5 out of 4.

IMDB

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