Através do excelente livro de Gustav Schwab (1792-1850), “As Mais Belas Histórias da Antiguidade Clássica”, somos convidados a adentrarmos os meandros das vidas dos deuses no Monte Olimpo, as suas vicissitudes e conflitos, os seus contatos próximos com mortais e o nascimento de semideuses que ora são protegidos, ora amaldiçoados. Ponto em comum, a eles o destino (fado) está traçado desde tempos imemoriais e, por mais que driblem as profecias da vidente, mudando inclusive de cidade-Estado, não tem como: o acaso fará com que se cumpra a profecia.
O alemão Schwab foi feliz na sua missão educacional de apresentar às novas gerações de leitores estes mitos de forma simplificada. Os ventos do Romantismo pairavam na Prússia e nada melhor que a retoma destes mitos, os primeiros dos quais temos notícia para nos ensinar valores, destinos, etc.
Num mundo de fábulas e que me remeteu à época de miúdo, quando a minha mãe pacientemente contava histórias, como a de uma mãe esfomeada que chorosa rogou aos céus para que aquele esterco de vaca embrulhado fosse entendido pelo filhinho como uma apetitosa rosca e milagre… desembrulhando o pacote, não é que a iguaria estava presente?! No mundo dos miúdos milagres são possíveis e devo a este lado lúdico muito da minha formação.
Eu, que me encantei com o clássico filme “Choque de Titãs“, de 1981, com a heroica vida de Perseu, que decapitou a Medusa e com a ajuda do cavalo alado Pégaso derrotou o monstro que estava prestes a comer Andrómeda, tornando-se assim esposo dela e final feliz, ao longo dos tempos fui colhendo uma história aqui, outra acolá, como a do Rei que ao tocar em tudo transformava em ouro, a princípio isso foi uma grande alegria, o desastre foi quando o alimento que ia ingerir também se transformava em ouro, e até ao tocar nos seus filhos os viu transformados numas reluzentes estátuas.
Arrependido da sua ganância, rogou aos Deuses voltar ao que era, e o pedido foi atendido, mas viu crescer em si orelhas de burro. Recorreu ao turbante para disfarçar esta anomalia, mas um barbeiro teve que ficar a saber desta maldição.

E Prometeu que roubou o fogo dos Deuses? Condenado a ser bicado eternamente por uma águia que lhe comeria o fígado, que regeneraria e veria assim o alimento da ave oferecido no dia seguinte, multiplique-se isso pelo eterno e, no momento em que leem este texto, entendam que o semideus está agonizando no monte, da mesma forma que Zeus, metamorfoseado em touro, em chuva de prata, em qualquer forma a qual pudesse seduzir uma bela mulher, sendo o protótipo do marido infiel, coitada da Hera! E no livro supracitado conhecemos a história de Io, Íon, Europa, Níobe e entendemos as origens dos nomes dados a planetas e satélites no Universo.
É preciso muita abstração e sensibilidade, sentimentos que afloram como piedade, estupefação, resignação e o entendimento de que tanto destaque por parte de um humano pode fazer inveja aos Deuses, pecado maior quando os primeiros teimam em rivalizar com os últimos, provocando-lhes a ira. Nada do bondoso Deus cristão do Novo Testamento aqui, antropomorfizados eles possuem as mesmas características humanas, assomados aos seus poderes de arrebentarem com tudo, que o diga Poseidon, o rei dos mares.
Qual foi o crime cometido por Sísifo que o levou a ser condenado a empurrar um maciço bloco de pedra morro acima? Também eternamente, aliás, tudo é eterno, será que no momento desta leitura o bloco estará a descer a montanha novamente? Este Sísifo ressaltado brilhantemente pelo filósofo e escritor franco argelino Albert Camus (1913-1960), que lhe rendeu um honroso título acerca da existência humana.
Quem foi o semideus que desceu ao mundo subterrâneo (o mundo dos mortos) para fazer ver que deveria ter uma segunda chance com o seu grande amor, que foi orientado a não olhar para trás durante a sua travessia, mas que não conseguiu e deitou tudo a perder? Orfeu e Eurídice, a brava e bela caçadora Atalanta (nome de um clube de futebol em Itália) e se fosse aqui enumerar, encantar-me-ia a retina e memória com tão belas histórias.
Livro para ser lido com parcimónia, prometo análises mais aprofundadas futuramente sobre Jasão e os Argonautas, Héracles, Teseu, Édipo e o seu malfadado destino, Tebas e muito mais. Este mundo dos deuses que foi combatido pelo Pai da Filosofia, Sócrates (470 a.C.-399 a.C.), acusado justamente de impiedade, corrupção de menores e de não acreditar nos deuses, contraponto enaltecido pelo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) que recuperou muito do mundo clássico, nomeadamente da tragédia e tudo o que observamos é um caldo cultural bastante apetitoso.
Gustav Schwab teve a generosidade de nos oferecer uma iguaria fina. Catalogou mais do que criou, a originalidade deu-se na forma simplificada de nos apresentar questões e histórias complexas. E, podem acreditar, isso não é pouca coisa.
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