Nota: Os filmes selecionados têm como parâmetro a estreia nas salas de cinema portuguesas ou plataformas de streaming durante o ano de 2025, e não a sua estreia a nível internacional.
Daqui a uns anos, quando abrirmos os livros de cinema, não encontraremos 2025 entre os destaques da década e muito menos da história, como esbarramos, por exemplo, com 1939 e 1975. Quererei com isto dizer que foi um ano desastroso? Nem por isso. Dificilmente seria, com a explosão de produções e o crescente acesso a influências sem fim. Haverá sempre quem consiga inventar, captar essência e ornamentar através desta tecnologia que acaba de celebrar 130 anos. No entanto, se foi esta a arte que conquistou o imaginário do século XX, não é menos verdade que hoje continua a tentar encontrar rumo num chão escorregadio.
Houve bom cinema, claro, mas foram raras as vezes que me deslumbrei, desmanchei a rir ou saí inquietado da sala escura. A amenização sentimental e visual contaminou boa parte das estreias que nos chegaram. Será isto produto de passividade conceptual? Ou terão os filmes cedido à caracterização corriqueira das produções para streaming? À medida que as salas de cinema fecham pelo mundo e a renovação de espetadores coxeia, a domesticação do cinema e das suas narrativas adensa. Em 1968, Kubrick sonhou 2001 de forma indomável. Hoje, parecemos pouco capazes de imaginar o futuro com elasticidade.
O Contratempo dos Autores
À semelhança de uma espécie invasora, a nostalgia acetinada continuou a apoderar-se da película – da catadupa de sequelas e reimaginações, passando pelos filmes de época romantizados. Mas parte essencial do que fez de 2025 um ano menos aprazível foi a coincidência de obras menores de vários autores contemporâneos, tais como Bong Joon-ho, Julia Ducournau e Ari Aster.
Este último esticou a corda em 2023 com “Beau Tem Medo“, uma bomba-relógio de ansiedade que me empolgou com a sua irreverência. Já em “Eddington“, a corda rompeu-se, enquanto descrevia a crise de comunicação dos norte-americanos no despontar da COVID-19. É um filme caótico e que mastiga mais do que consegue digerir, mas revelou um cineasta a brincar com novas ideias. Ao contrário de Bong Joon-ho, que com “Mickey 17” dá-nos mais do que já nos acostumou, só que na mó de baixo – preocupações socioeconómicas, luta de classes e mecanismos de opressão. Para ser franco, não seria fácil dar seguimento a “Parasitas” (2019), nem tão pouco a “Titane” (2021).
Por isso, “Alpha“, de Ducournau, trazia consigo uma dose de expetativas que, regra geral, tento afastar o mais possível na atividade crítica. O cinema nunca deixa de ser algo extremamente pessoal, e, portanto, nem sempre sou bem-sucedido. É uma questão afetiva! “Raw” (2016) e “Titane” (2021) foram convulsões da carne e, de certa maneira, do espírito. Esta última investida recupera os seus temas de eleição – a mutação do corpo, o amadurecimento conturbado – sem o foco que poderia fazer deles, mais do que uma coleção de ideias. E onde escondeu o seu sentido de humor? Ainda assim… é difícil resistir às needle drops pop-rock, que desta vez vão de Nick Cave a Portishead.

Curiosamente, e talvez este fator seja revelador das insuficiências do cinema de terror este ano, a própria trave-mestra de Julia Ducournau, David Cronenberg, estreou um dos seus filmes mais frouxos: “The Shrouds – As Mortalhas“. A idade, como acontece com a maioria dos mortais, perfuma com razoabilidade o maior dos transgressores. O realizador de “Crash” (1996) continua a correr na direção oposta, empenhado em quebrar a próxima fronteira. O que perdeu foi o fulgor e a excitação! Sem isso, resta a inerte filosofia pos mortem.
A Heterogeneidade do Cinema Português
Quantos filmes portugueses são precisos para levar um espetador à sala? Muitos, aparentemente, pois não bastaram 58 produções – mais do que um filme por semana! – para mobilizar minimamente o público. Sem pretensões de voltar a tecer considerações sobre este velho problema, sublinho: apesar do cenário global, este foi um ano de grande vitalidade para o cinema português. Entre os títulos mais apetecíveis estão “On Falling“, “Sob a Chama da Candeia“, “Banzo“, “Hotel Amor“, “Hanami“, “Sonhar com Leões” e “A Savana e a Montanha“. Se prestou atenção, é capaz de acrescentar mais um ou dois títulos, porque houve de facto uma pluralidade de géneros e registos que agradaria qualquer um – houvesse disponibilidade para nos maravilharmos.
Pelo meio também houve desgosto. Acontece em todas as cinematografias. Nenhuma é pintada a ouro (nem há que ter receio de o dizer!). Há quem esteja a dar os primeiros passos, há quem esteja a seguir o sonho e há quem tenha tropeçado depois de sentir o gosto dos aplausos. Saber discutir o nosso cinema com gana devia de ser uma arte popular. Sem medo de ofender, sem receios de pisar o risco. São as nossas histórias. Sabemos produzi-las. Queremos ser melhores! Voltemo-nos para o cinema português com este espírito. Iremos a tempo?

Os Melhores Filmes de 2025
Outrora o cinema, enquanto arte das massas, tinha uma grande capacidade de permear nos discursos públicos. Fazia frenesim regular entre famílias e amigos. Era tema à mesa do café. Em pleno 2025, as séries tomam cada vez mais esse lugar no epicentro das conversas. No entanto, volta e meia surge um filme que convoca esses tempos idos.
“Pecadores“, de Ryan Coogler, trouxe consigo uma vontade renovada de debater cinema. Gostaste do filme? Que tal o Michael B. Jordan a dobrar? O que significa aquela cena de euforia musical? Bem… dava pano para mangas. Tudo isto porque funciona em dois planos: no plano do entretenimento puro e duro, os estímulos do cinema de género, e no plano temático, onde o vampirismo surge como metáfora para uma apropriação cultural.
É cinema digno do grande ecrã, coisa que nos foi privada em “Sonhos e Comboios“. E que belo teria sido ver as florestas americanas do início do século XX, em plena Grande Transformação, no local apropriado. O filme de Clint Bentley conta-nos a história de Robert Grainier (Joel Edgerton) com uma depuração tal que me atingiu como uma flecha. É o essencial da vida. O que foi e o que tragicamente se sucedeu. Num gesto invulgar de emoção que remonta às profundezas do cinema de Terrence Malick.
É de poucos humores, ao contrário de “Foi Só um Acidente“, que em plena situação de vida ou de morte encena grandes peripécias. Ao contrário do que afirma o seu realizador, é cinema político. Jafar Panahi permanece irreverente contra o regime iraniano – e só temos a agradecer por isso.
Segue-se “Cão Preto“, do chinês Guan Hu. Estupendo filme de um realizador cuja cinematografia ainda estou para descobrir. A relação homem-cão numa paisagem em transformação. Ou seja, o que fica e o que passa. Um western de solos negros onde a redenção ainda é possível. Uma questão de esperança? O que fará “Ainda Estou Aqui” com ela? Filme fundamental da primeira metade do ano, que animou o interesse nas salas como poucos (é o número 3 da bilheteira nacional, atrás de “Lilo e Stitch” e “Um Filme Minecraft“). A alegria e a desgraça no contexto da ditadura brasileira, onde nem os mais bem conectados estavam a salvo. Fernanda Torres fica para a eternidade, com um olhar de extraordinária complexidade.
Entrando no Top 5, chega-nos mais um veterano, desta vez do Reino Unido. Mike Leigh e o seu “Verdades Difíceis“. Nova reunião entre o realizador e a atriz Marianne Jean-Baptiste, depois da nomeação aos Óscares pela interpretação no filme “Segredos e Mentiras” (1996). Mantendo o registo dramático, o confronto desta vez soa ilimitado. Como interpretar a pessoa mais desagradável do mundo sem alienar a audiência? Aqui encontramos as pistas certas para responder à questão. É um desarranjo familiar do princípio ao fim, mas há sempre intimidade na verdadeira tragédia.
Eis que surge “A Rapariga da Agulha“. Cinema expressionista fotografado num preto e branco cristalino, onde o realizador dinamarquês Magnus von Horn enreda o desespero e o macabro na Copenhaga de 1919. Vic Carmen Sonne interpreta como se se tratasse de uma atriz de cinema mudo, repleta de tensão no rosto. É um feito notável, que também chegou aos Óscares na categoria internacional.

Com o filme de época anterior, percebemos que o cinema continua a prestar atenção às classes mais desfavorecidas. E no presente? Haverá um fatal desinteresse pelo presente? Globalmente, creio que sim, mas as exceções persistem. É o caso de “Na Linha da Frente“, de Petra Biondina Volpe. Cineasta que faz parelha com a atriz Leonie Benesch para construir um drama enérgico de corredores de hospital. Presta-se ao realismo, mas termina com um toque desolador de lirismo. E que bom é ver personagens retratadas com tamanha sensibilidade.
And now for something completely different… “Batalha Atrás de Batalha“. Devaneio sociopolítico de Paul Thomas Anderson que é, na realidade, a história de um pai à procura da filha. Estará destinado a ganhar o Óscar de Melhor Filme? À data a que escrevo, meto as mãos no fogo. A maturidade da escrita e realização de Anderson permitem-lhe exercer uma faceta mais lúdica. E com o caos controlado dos instrumentos de Jonny Greenwood do seu lado, não há que enganar.
No cume deste monte damos de caras com um monumento, “O Brutalista“. São várias as razões para este lugar. Sucintamente: exclama cinema, tem escala em desuso, personagens elaborados e conceitos eternos que estão dramatizados com densidade. O retrato da vida de um emigrante e a dialética entre a arte e o dinheiro são pontos de partida para a discussão de um épico capaz de inebriar. Seja em 1947 ou em 2025, que símbolo será mais apropriadamente representativo da decadente encantatória do sonho americano do que a Estátua da Liberdade voltada do avesso? Romantismos à parte, no fim, é tudo uma questão de poder. Brady Corbet sabia o que estava a fazer.
1.º – “O Brutalista“, de Brady Corbet
2.º – “Batalha Atrás de Batalha“, de Paul Thomas Anderson
3.º – “Na Linha da Frente“, de Petra Biondina Volpe
4.º – “A Rapariga da Agulha“, de Magnus von Horn
5.º – “Verdades Difíceis“, de Mike Leigh
6.º – “Ainda Estou Aqui“, de Walter Salles
7.º – “Cão Preto“, de Guan Hu
8.º – “Foi Só um Acidente“, de Jafar Panahi
9.º – “Sonhos e Comboios“, de Clint Bentley
10.º – “Pecadores“, de Ryan Coogler
M.H. 1 – “Bird“, de Andrea Arnold
M.H. 2 – “Misericórdia“, de Alain Guiraudie
M.H. 3 – “Sorry, Baby“, de Eva Victor

É bonito perceber como alguns títulos conseguem furar a bolha e nos chamar de volta à sala escura. Ainda Estou Aqui é um filme que mobiliza o público, reabre conversas, ativa memória, provoca desconforto e afeto ao mesmo tempo. Ele prova que o cinema ainda pode falar do presente (e do passado que insiste em não passar) com densidade e profundidade.