“— Exato. É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar – replicou o rei. — A autoridade se baseia na razão. Se ordenares a teu povo que ele se lance ao mar, todos se rebelarão. Eu tenho o direito de exigir obediência porque minhas ordens são razoáveis.“
Trecho de “O Principezinho”
Publicado em 1943, “O Principezinho” (Editora Agir, 2009, 96 páginas) de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) é um dos livros mais traduzidos e vendidos do mundo, considerado por muitos o 3.º da lista (certamente perdendo apenas para a “Bíblia” e William Shakespeare). Mas, o que faz um livro aparentemente simples, com um título que pode remeter imediatamente a um livro infantil, ser tão considerado? Vencido o preconceito de que a narrativa é para miúdos e de fácil assimilação, ao lermos a obra deparamo-nos com um receituário filosófico de inestimável valor. Um livro para todos nós adultos, na esperança de recuperarmos o miúdo que existe em nós.
A premissa é a seguinte: um aviador está perdido num deserto após a queda do seu avião. Miragem ou lucidez? Vê um rapazinho miúdo com cabelos louros, com porte de príncipe, que lhe pede para desenhar um carneiro. Imaginem o susto do aviador! Passado algum tempo, este revela-se ser de outro planeta. O seu planeta é pequenininho, contém três vulcões e uma rosa. No que toca à flor, um questionamento entre qualidade e quantidade. Como o planeta possui apenas uma rosa, o cuidado é esmerado e na página 79 o Príncipe observa:
“— Os homens do teu planeta – disse o pequeno príncipe – cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim… e não encontram o que procuram…“
O Príncipe é um questionador nato, como apraz a todo miúdo. Mas não gosta de responder a questões, apenas devolve a pergunta com outra pergunta. Revelando-se um aventureiro viajante espacial, afirma ter viajado a outros planetas, tão minúsculos quanto o seu. Visita um rei vaidoso que gosta de ser reverenciado. A lástima é que neste planeta vive apenas ele e quando o nosso contumaz inquiridor faz ver isso ao soberano, ele sugere-lhe que o reverencie. Estranho! Que função tem um rei que reina sozinho? Uma crítica contundente ao capital é acerca do planeta habitado apenas por um homem das contas, isso numa outra viagem.
Sempre a somar, o infeliz não tem tempo para levantar as vistas e cumprimentar o visitante, afirmando ser um homem sério e que não tinha tempo a perder com conversas. Mas fica a pergunta: ele soma o montante para desfrutá-lo como? Numa outra viagem, a crítica à rigidez das leis e ao regulamento, pois um acendedor de lampiões trabalha ininterruptamente exercendo o seu ofício. Como o planeta se situa próximo ao Sol e a diferença entre dia e noite não passam de alguns minutos, ora o nosso trabalhador está acendendo, ora apagando os lampiões. Tudo para cumprir o regulamento.

O encontro do Príncipe com uma raposa é um dos mais ternos da história. A raposa conversa com ele sobre quantidade e a excecionalidade do ser. Afirma ela no que toca à rosa, que a que o nosso visitante deixara no seu planeta era única e bela, pois ele a havia cativado. A raposa filosofa sobre a sua sina de caçar galinhas e ser caçada pelos caçadores.
Agenda um encontro no outro dia com o Príncipe e explica a necessidade de se ter um ritual, pois, a partir do momento do horário agendado, uma hora antes o seu coração já estaria feliz na expectativa do encontro. Bonita passagem, que nos faz recordar as expectativas nos primeiros namoros. Sobre amizade, vale a pena ouvir os pensamentos da nossa raposa:
“Assim, o pequeno príncipe cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
— Ah! Eu vou chorar.
— A culpa é tua – disse o principezinho. — Eu não queria fazer-te mal; mas tu quiseste que eu te cativasse…
— Quis – disse a raposa.
— Mas tu vais chorar! – disse ele.
— Vou – disse a raposa.
— Então, não terás ganhado nada!
— Terei, sim – disse a raposa – , por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou:
— Vai rever as rosas. Assim compreenderás que a tua é única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te presentearei com um segredo.“
E, mais à frente, a raposa revela o segredo ao nosso ET:
“Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.“
Embora encantado com o encontro, o aviador aterra-se com questões mais prementes de sobrevivência: a água está por uma gota e quando o Príncipe lhe indica a seguir um poço, o som da corda na roldana e o balde transbordando de água parecem música aos ouvidos de ambos. É já uma forma de o nosso visitante se despedir, afirmando ao aviador amigo que terá que partir em breve. Irá voltar ao seu planeta, pois é responsável pelos cuidados de uma rosa.
Orienta o amigo a não estar presente no momento da partida, pois aos olhos de humanos poderia ser estranho a desintegração de um corpo para habitar outros espaços. Contudo, tranquiliza o aviador afirmando que bastaria ele olhar para o céu estrelado e que num ponto distante o amigo o estaria saudando. Lindo e poético!
Estranhas coincidências. Antoine de Saint-Exupéry foi um desenhista frustrado, por falta de incentivo dos pais, mas as aquarelas produzidas na edição que tenho da Agir são da sua autoria. Dizem que a Rosa aventada na história era na verdade o seu grande amor, que seria temperamental e, nas fugas do autor para escapar desta relação, compreendia com o coração que deveria cuidar dela e o que parece história de cinema, a verdade é que o piloto militar desapareceu no meio do deserto do Saara enquanto fazia algumas manobras. Desapareceu sem deixar pistas, deixando como legado um livro que ao ser publicado arrebatou corações. E mérito dos méritos, continua a arrebatar até os dias de hoje.
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