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Porque A Arte Somos Nós

Como filósofo e escritor, desconfio desse ativismo político e cultural todo dos ditos artistas e intelectuais brasileiros. No seu livro “A civilização do espetáculo: Uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura“, o Prémio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa já nos alerta para os sinais dos tempos. Dizer que este livro foi lançado há uma década, desconfio que a espetacularização ficou pior e mais notada. O peruano alerta-nos que antes o intelectual tinha uma contribuição a oferecer aos grandes jornais, que os seus textos eram lidos e a sua voz era ouvida.

Quando o histrionismo ditou a regra, quando a aferição de valores passou a ser medida pelos índices de audiência, adeus longas e balizadas observações. A moda agora é oferecer um cardápio rasteiro, de polémicas vazias e, quando o dito intelectual se transforma num bufão, tanto melhor, casará bem com o público que o prestigia.

Refletindo acerca disso, cito a cegueira intelectual e, até mais, desonestidade intelectual, de artistas e ditos intelectuais brasileiros (nem todos, claro) que levantam bandeiras em defesas de candidatos A ou B, fazendo vistas grossas para históricos de corrupção e desmandos. Na cegueira ideológica e partidária (lembremos o óbvio, partido vem de parte e não perfaz o todo) observo escaramuças e slogans vazios de alguns colegas que me fazem sentir a dita “vergonha alheia”.

O escritor, político, jornalista, ensaísta e professor universitário peruano Jorge Mario Pedro Vargas Llosa

Lembremos que a história não perdoou o filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), a despeito de toda a sua produção cultural, quando demorou a reconhecer os crimes e desmandos de Josef Stalin na antiga União Soviética; Com Martin Heidegger (1889-1976) não foi diferente. Considerado por muitos o maior filósofo do século XX, com a fundamental obra “Ser e Tempo“, não teve descolado de si a falha de nazista, devido ao facto de ter pertencido à Juventude Hitleriana. Se voltarmos mais no tempo, observaremos muitas dessas contradições entre cabedal intelectual inegável e algumas personalidades pusilânimes.

Quando observo um dito intelectual a defender bandeiras ideológicas e partidárias, alguns fazendo mal o seu trabalho e tentando viver apenas de benesses do Estado, com interesses vis, fico impressionado com a vassalagem demonstrada. Em contrapartida, na semana em que o “Jornal Nacional” da TV Globo exibiu a sabatina com os quatro candidatos à Presidência da República mais bem ranqueados, nem uma só palavra a favor da cultura foi proferida na entrevista de quarenta minutos concedida a cada um.

O filósofo, escritor, professor e reitor universitário alemão Martin Heidegger

O desinteresse é latente, digo mais, não quero puxar a brasa para a minha sardinha e, a exemplo de Platão (428 a.C.-347 a.C.) escrever a sua “República” e desejar enfiá-la goela abaixo da sociedade. Entre a teoria e a prática existe um longo caminho e mesmo o aluno brilhante do “Pai da Filosofia”, Sócrates, foi posto a correr quando se indispôs a um governante tirano. Assim sendo, elenco a saúde, educação, segurança pública, habitação, emprego como prioridades, mas nem uma simples citação no aspeto cultural diz muito sobre um país.

Entendida como um apêndice da educação, a cultura agoniza no nosso país. Se a educação vai de mal a pior, com décadas e décadas de atrasos e incompetências, com o aluno saindo do Ensino Médio sem conseguir interpretar corretamente um mero artigo de jornal (como este) e muitos alunos defasados no que toca às operações matemáticas, o certo é que pedir para ler um livro de romance por puro deleite é pedir demais a muitos, quando não enxergarem naqueles que propõem esta tarefa um exibicionismo tolo.

Que os ditos intelectuais tenham siso e discernimento.

Marcelo Pereira Rodrigues

Pintura de Fedor Andreevich Bronnikov, “Pythagoreans’ Hymn to the Rising Sun Painting” (1877)

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