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Todos nós sabemos que idosos requerem atenção redobrada, e qualquer descuido pode ocasionar situações das mais complicadas. Conto a história de Nico, que aos 93 anos tinha a mania de alardear aos quatro ventos que as suas duas filhas, uma advogada tributarista e uma dentista, que trabalhavam na capital, Belo Horizonte, estavam muito bem de vida e ganhavam, segundo ele, “o burro do dinheiro”. Espalhava também que o seu enteado, um jornalista que ganhava pouco escrevendo reportagens para um jornal do interior, também estava com a vida feita. O certo é que o enteado, que morava na mesma cidade do interior onde Nico residia, já desconfiava de uma certa senilidade nas conversas com o padrasto. Aventou isso às filhas, que sempre respeitaram no pai a sua independência, e devemos salientar: mimavam-no o quanto podiam, amavam-no demais.

Numa tarde de sábado, o enteado recebeu um telefonema de uma das filhas, Silvana, a advogada, que ligava aflita:

— Pelo amor de Deus! Sequestraram o nosso pai. Por favor, nos ajude!

— Sequestraram como? — questionou o espantado interlocutor.

— Sequestraram sequestrando. Estão ameaçando a vida dele. Quanta maldade!

Do outro lado da linha ouviam-se gritos, choros e soluços. O jornalista, que era bastante metido a filósofo, ouviu tranquilamente o relato, controlando a situação o mais que podia e sobremaneira as suas próprias emoções. Ofereceu-se para auxiliar, ao que a filha agradeceu e pediu se ele poderia fazer a negociação, uma vez que os sequestradores já haviam feito contato e exigiam um resgate de 150 mil reais. Dava para perceber que a operação dos sequestradores tinha sido feita de forma articulada e amadora, ao ligarem de um celular não identificado, mas certamente qualquer departamento de polícia do interior poderia chegar aos responsáveis em poucas horas, mas a tratativa não envolvia a polícia ainda, pois os bandidos ameaçavam assassinar o idoso; e caso as filhas não acreditassem, mandariam um dedo da mão ou mesmo um pedaço da orelha do velho. Nesse quesito, parecia que os sequestradores assistiam a muitos filmes policiais do FBI.

O enteado respondeu que conversaria com os meliantes, e assim ficou acertado. Da próxima vez que fizessem contato, as filhas passariam o número do telefone do filho bastardo, que ficou apreensivo e ansioso pelo momento da ligação. Quando recebeu o telefonema, suspirou fundo e tentou manter a calma, mas o certo é que suas pernas tremiam.

— Alô.

— Alô o carai. Vai pagar a porra do resgate ou não?

Aquele palavreado abalou o enteado como se tivesse levado um soco. Sujeito culto, pouco à vontade com afrontas e grosserias, surpreendeu-se com o tom de voz e a exigência feita.

— Só com uma condição.

— Condição é o carai, véio.

— Assim eu não converso.

Do outro lado da linha percebeu-se uma vacilação, e enfim o meliante resolveu interromper as gírias e os xingamentos. Afirmou que poderiam, sim, conversarem como dois sujeitos educados que eram. O enteado explicou que Nico não tinha dinheiro, era um beneficiário do INSS com um salário mínimo e que o pedido de resgaste era um absurdo. Ao que o sequestrador, conversando com pessoas ao fundo, detalhou tudo saber acerca das riquezas dele, das filhas e do enteado. Disse que já havia estudado toda a situação e que não abriria mão de receber um centavo daquilo a que tinha direito, agora que estava com o refém. Ameaçou enviar uma orelha ou mesmo um pedaço da língua do idoso. Enfim, a situação estava complicada.

O enteado pediu uma prova de vida, ao que relutantemente eles aceitaram, afirmando que se a polícia entrasse na “parada” já podiam ir encomendando o caixão do coitado. A surpresa toda foi quando Nico atendeu, e esquecemos de informar que ele já sofria de surdez, mas conversando parecia longe de ser vítima de alguma coisa. Estava alegre e só dizia estranhar o facto de a filha ter mandado que aquela bondosa família o abrigasse por uns dias em sua casa. A coisa foi feita de forma sutil, aquilo não parecia um sequestro, quando muito uma convivência forçada. Dizem que a ignorância é uma bênção, e certamente isso foi a condição para o idoso não estar alarmado. O enteado ficou com raiva quando ouviu Nico tagarelar que a sua filha o levaria a passear trinta dias na Europa, e neste momento foi interrompido pelo sequestrador, que afirmou que aquela notícia era a prova cabal de que os filhos, incluindo ele, estavam mentindo e não colaboravam com a resolução da situação. Desligou.

O enteado ficou atónito. Como resolver aquela situação sem procurar a polícia? Estava à mercê da boa vontade e da consciência dos bandidos. O jeito era esperar. Ligou para as filhas informando o resultado das negociações, e o certo é que tudo estava um imbróglio. Passaram-se cinco dias até que recebeu outra ligação; e não é preciso dizer que foram os cinco dias mais angustiantes dos últimos tempos na vida dele e de suas filhas. O enteado pediu em nome de Deus que soltassem o refém, que aquilo não era coisa para se fazer a um idoso, e apelou para os bons sentimentos dos assaltantes. Nada feito. Apenas concederam um desconto: aceitavam receber cento vinte mil, nem um centavo a menos. E era para marcarem o local do resgate e a entrega do refém. Conversa vai, conversa vem, e os lacónicos sequestradores não arredavam pé das suas condições. O enteado pediu-lhes que desistissem e deixassem Nico numa estrada erma, a determinada hora do dia seguinte, mas foi tudo em vão. O amadorismo do conflito já era notório, não acham, caros leitores? Se a polícia estivesse nas negociações, certamente Nico estaria são e salvo na sua humilde residência. Não havia nada mais a ser feito, a não ser pagar parte do resgate. Mas como arranjar tanto dinheiro de uma hora para outra? Após o fim do telefonema, ligou às duas filhas e ponderou se não seria adequado todos juntarem as suas economias e pagarem o solicitado, ao que as duas ponderaram as mesmas dificuldades pecuniárias de se levantar aquele montante em tão pouco tempo.

A situação já passava de aflitiva, e os parentes aventavam se não seria o caso de se chamar a polícia, ao que o enteado ponderou que não seria adequado. Nas reuniões para se averiguar o que cada um possuía, ficaram dececionados com tão pouco volume. O certo é que a família era pobre, sendo abastada apenas pelos delírios de Nico. E agora devemos informar o estado do nonagenário, são e salvo na casa de uma família bondosa que o estava vigiando enquanto as suas duas filhas retornavam de compras em Nova Iorque. Surdo como uma porta, perdendo a noção do tempo, ele só estranhava a demora em rever a sua casa e o motivo de estar hospedado por aquela família gentil, porém estranha. E o triste é que ao falar dos filhos só aumentava a raiva dos meliantes, afinal, onde há fumaça há fogo e, sim, quando viram as fotos no celular do refém, perceberam alguns lugares diferentes e que indicavam um notável turismo. Como aquela família não poderia ter dinheiro?

No dia seguinte tocou o telefone do enteado, que afirmou que tinham o dinheiro do resgate, mas que a soma teria que ser diminuída significativamente, pois somando tudo não passava de dezassete mil, quinhentos e cinquenta e seis reais e vinte e cinco centavos. Informou a quantia exata apelando para a psicologia, afinal, um montante tão detalhado podia dar a entender que fizeram o último esforço para arranjarem. O bandido aceitou, mesmo que o montante fosse um pouco mais de 10% do pedido inicial, mas pesou-lhe na consciência que Nico poderia fazer uso de remédios controlados e que já estava havia mais de uma semana naquela situação. Combinaram o lugar de entrega e acertaram o seguinte: numa estrada vicinal de uma determinada cidade do interior, o enteado deixaria o dinheiro debaixo de um banco de madeira em frente a um sítio, e que o dinheiro seria deixado num horário exato. Ele deveria evadir-se do lugar. Meia hora depois, os meliantes telefonariam a ele afirmando o lugar exato para apanhar Nico. O enteado cuidou para saber se a área rural teria sinal de rede e, após verificado esse detalhe, fez a sua parte. Esperou pela meia hora mais ansiosa da sua vida e recebeu o telefonema indicando o local onde o refém estaria.

Dirigiu-se a outra estrada vicinal, e no lugar combinado encontrou Nico sentado debaixo de uma árvore, com uma garrafinha de água mineral descascando mexericas, fugindo do calor inclemente. Desceu do automóvel e abraçou o idoso, ele que não era lá afeito a estas sentimentalidades. Nico parecia bem, afirmando que havia ficado em casa de uma estranha e bondosa família, mas que estranhara a recomendação que fora dada a eles por Silvana e se questionava o porquê daquilo tudo. O enteado combinou com as meias-irmãs pouparem Nico de dissabores, e percebendo que o idoso vivia num mundo de fantasias, resolveram deixar o dito pelo não dito e que todos aproveitassem Nico o máximo que pudessem. Nico entrou no automóvel e estava falante durante o trajeto de retorno:

— Não sei se lhe falei, mas Silvana me levará ao estrangeiro no próximo mês.

— É mesmo?

— É. Só não entendi o motivo de ter que ficar com essa estranha, mas bondosa família.

— Eram quantas pessoas lá?

— Uma senhora, um senhor e dois rapazes, mais a esposa de um deles, ao que parece.

— Eles trataram-lhe bem?

— Bem demais. Ainda mais com o pedido de Silvana para cuidarem bem de mim.

O enteado juntou os pontos, somou dois mais dois. Refletiu sobre as distâncias e desconfiou fortemente da quadrilha de sequestradores. Surpreendeu-se ao fazer a pergunta a Nico:

— Um desses rapazes era moreno, forte e com a cabeça raspada?

— Sim.

— Ouviu o nome Wellington?

— Wellington, isso mesmo. Acho que era isso.

O enteado desconfiou fortemente da família em questão, mas decidiu encerrar o caso ali mesmo. Não pagamos spa quando precisamos ficar longe de casa? Não viajamos ao exterior com as nossas parcas economias? O certo é que o dinheiro do resgate foi um ajuntamento da família inteira, em que uma vaquinha proporcionou o montante; e o mais importante para o enteado naquele momento e a partir daí também, seria saborear as divertidas histórias e os devaneios de Nico. Sorriu ao idoso, abraçou-o enquanto dirigia e emocionado, exclamou:

 — Nico, obrigado por nos oferecer histórias para nossas vidas tão vazias.

Ele não ouviu. Mas sentiu-se feliz com o abraço do enteado; na verdade, um filho de adoção o qual amara muito. Nico foi entregue aos cuidados de Silvana, que o levou para morar em Belo Horizonte pedindo encarecidamente que não fizesse amizades e parasse de contar detalhes da vida financeira dos seus filhos.

Marcelo Pereira Rodrigues

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