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Porque A Arte Somos Nós

Determinados livros marcam-nos tanto que ficamos a reverberar bastante sobre as suas respetivas mensagens. Imbuído do espírito de busca, vasculhei e encontrei no YouTube uma preciosidade: o filme “O Adeus às Armas“, título em português, de 1957, realizado por Charles Vidor e John Huston. Com argumento de Ben Hecht, que tenta manter-se fiel ao livro, de ressaltar que a linda história de amor do tenente Frederic Henry (interpretado por Rock Hudson) e a enfermeira Catherine Barkley (interpretada por Jennifer Jones) acaba por ser a condução central do drama de guerra de 2h32min.

Atuam também, com brilhantismo, Vittorio De Sica (como Rinaldi) e Oskar Homolka (como Dr. Emerich), Mercedes McCambridge, Elaine Stritch, Kurt Kasznar, Victor Francen, Franco Interlenghi, Leopoldo Trieste, José Nieto e Georges Bréhat.

Assistir a uma película clássica da qual acabamos de ler o livro é enriquecedor. Primeiramente pela perceção de que a narrativa de Ernest Hemingway (1899-1961) é bastante autoral. Assim, o tenente Frederic Henry não me pareceu tão alto quanto o galã escalado para representá-lo, aqui no Brasil com a voz dublada pelo mesmo profissional (assim me pareceu) que dublava as falas de Sylvester Stallone. Um tipo de voz meio arrastada e metálica.

Jennifer Jones (Catherine Barkley) e Rock Hudson (Lt. Frederick Henry)

A enfermeira Catherine ficou bem à feição e em algumas passagens da narrativa Hecht empregou uma condução mais irónica, como o motorista pequenino e tresloucado da ambulância que passa em cima de todos os buracos possíveis na estrada, quase fazendo o acidentado tenente morrer dentro dela. E o que dizer da entrada destes no hospital? Motorista com atitudes bem pastelão, o que não se mostra na prosa seca de Hemingway.

Os cenários são lindos, assim como a fotografia dos Alpes, e ficamos a admirar o que os cineastas produziam com tão pouco recurso audiovisual. O filme certamente foi lançado para se tornar um clássico e catapultado pela escolha de Hemingway para receber o Nobel, três anos antes, essa coqueluche de sucesso significou bastante para a obra de Huston e Vidor.

Contudo, este não rendeu bons frutos para a coroação do Óscar no ano seguinte, exceto a indicação de Melhor Ator Secundário para Vittorio De Sica. No enredo, excelentes reflexões existencialistas referentes ao que seria a morte de um bebé, se ele morresse enforcado no próprio cordão umbilical ou se sobreviveria para morrer chafurdado na lama da guerra permanente; a reflexão sobre o cadáver que através da sua fria temperatura já revela que ali não existe mais nada; certa desesperança e momentos idílicos de sublime amor no meio do caos e desordem.

O todo do filme é bom, ressaltando-se estes senões. Um colírio para a retina e a indelével tatuagem da escrita de Hemingway na nossa alma.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3 out of 4.

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