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Se há género cinematográfico que se orgulha do seu cânone, esse género é o terror. Tanto que se perde a conta das franquias, prequelas, sequelas, histórias derivadas e reinícios que moldam o comércio do cinema mainstream do medo. As intenções são, com frequência, honráveis, mas de um ponto de vista meramente contabilístico o ciclo é degradante. Não há dedos suficientes no corpo humano para quantificar as sucessivas desilusões. Ainda que, volta e meia, surjam surpresas como “Caminho Sem Retorno” (2021), a mais recente versão da franquia dos anos 00′ com o mesmo título, cuja sequência final ainda hoje me assombra.

Em consonância, mas por razões deveras opostas, está “Fear Street – Part 1: 1994”, em português “Rua do Medo – Parte 1: 1994“, um filme distribuído pela plataforma de streaming Netflix que promete ser a introdução de, pelo menos, uma trilogia. Realizado pela norte-americana Leigh Janiak, com um argumento baseado na extensa série de livros de horror juvenil de R.L. Stine, “Fear Street – Part 1” começa por evocar Wes Craven na forma de “Gritos” (1996). Um jogo do gato e do rato, caçador e presa, que termina de forma sangrenta e sem batimentos cardíacos, revelando que afinal não seriam bem estes os protagonistas.

Por sua vez, a personagem central é Deena (Kiana Madeira), uma rapariga aguerrida que vive em Shadyside, Ohio, com o seu irmão (Benjamin Flores Jr.) fanático por histórias verídicas de crime. Na escola, trava relações com os seus amigos dealers, Kate (Julia Rehwald) e Simon (Fred Hechinger). A alguns quilómetros do bairro está Sunnyvale, uma terra mais próspera, onde vive atualmente Sam (Olivia Scott Welch), a ex-namorada de Deena. Apesar da clara rivalidade entre os territórios, os assassinatos mais recentes justificam um ajuntamento das escolas em homenagem às vítimas. Ignorantes de que a carnificina está apenas a começar.

Olivia Scott Welch (Samantha Fraser) e Kiana Madeira (Deena)

De peripécia em peripécia, os amigos e conhecidos envolvem-se num enredo que comporta um mal ancestral, responsável por uma série de homicídios ao longo de 300 anos. Uma artimanha fluída e sobrenatural que dá permissão ao filme para expor as regras e mudá-las a seu bel-prazer. Em boa verdade, o facto não seria tão problemático se a produção não estivesse tão entulhada em clichés, buracos narrativos e cinismo. Bastaram 20 minutos para começar a levar as mãos à cabeça pela verdadeira prova de esforço que estava por diante.

“Fear Street – Part 1” existe puramente para lucrar com a imitação do trabalho alheio. Não pratica o mínimo esforço no sentido de reconfigurar as cenas das longas-metragens em que se inspira. Ver um assassino vestido de esqueleto diante de uma casa numa cena e desaparecer quando o plano retoma, acompanhado de um ruído desagradável, não se traduz mais em entusiasmo ou receio. Está visto e revisto. É preciso mais carne no matadouro da criatividade para conspirar suspense e agitar a mente. Quando esta e outras técnicas semelhantes são tudo o que a produção tem para oferecer, quem está em apuros não são as personagens, mas sim a audiência.

“Fear Street – Part 1: 1994”

Até porque com exceção da banda sonora, a personalização dos anos 90 – década que o filme pretende retratar – é paupérrima. Além de pouco relacionáveis, as personagens estão escritas com sensibilidades anacronicamente modernas. Não me recordo de ver os protagonistas de “Sei o Que Fizeste no Verão Passado” (1997) a lamuriar-se de cinco em cinco minutos em circunstâncias extremas. Com base nestas irritações cumulativas, chega o ponto em que o insucesso do(s) assassino(s) começa a ser motivo de desconsolo.

Ainda assim, o ponto mais dramático de todos os aspetos falíveis de “Fear Street – Part 1”, é o facto de ser avesso ao risco. Não há uma direção empolgante, mortes inventivas ou personagens empáticas. Tudo é reciclado com segurança e uma minúcia entediante, o que faz com que o resultado seja um produto genérico, moribundo e, acima de tudo, redundante. No caso de a saga continuar nesta trajetória, descobrir ou revisitar o cinema que lhe serve de base é sem dúvida a melhor solução.

Bernardo Freire

Rating: 1 out of 4.

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One thought on ““Fear Street – Part One: 1994”: O aproveitamento barato do fator nostalgia

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