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Na segunda metade da década de 1980, o mundo estava dividido entre duas potências armamentistas que poderiam fazer o Planeta ir pelos ares: Estados Unidos e União Soviética. Miúdo ainda, lembro-me deste período quando assistia ao noticiário pela televisão na companhia do meu tio. Pois bem, gosto bastante de histórias que precedem a Queda do Muro de Berlim e no que toca a romances, foi com prazer que li “O Negociador”, de Frederick Forsyth, o mesmo autor de “O Dia do Chacal“, o qual já tratei aqui. Com as suas 395 páginas, publicado no Brasil pela Record, o livro com fonte 10 e espaçamento mínimo exige-nos as vistas, mas o enredo é cativante.

Na apresentação, há a descrição do elenco e isso ajuda bastante. Nos seus vários núcleos, os personagens norte-americanos, os britânicos, os russos e os europeus, a trama apresenta-nos personagens reais e outros fictícios, como o Presidente dos Estados Unidos, John Cormack. Ele dá um passo importante na corrida desarmamentista quando se reúne com Mikhail Gorbachev, líder do bloco socialista e Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética em Nantucket, e esse episódio contraria e muito aos interesses de gente poderosa, no ramo do petróleo e das armas, que irão elaborar um complô de forma a sabotar os acordos.

Simon Cormack é um estudante maratonista de Oxford, prestigiosa universidade britânica. O filho conseguiu dissuadir o pai – isso mesmo, o Presidente dos Estados Unidos – a ter um exército de 50 pessoas dos Serviços Secretos para a sua guarda e proteção. Mesmo assim, tem que aceitar 10 destes seguranças, e leva uma vida discreta, na medida do possível do que é ser discreto para um filho de uma pessoa tão importante. Durante um dos seus treinos, é emboscado e sequestrado por quatro criminosos que atentam contra a vida dos seguranças de plantão. A notícia cai como uma bomba e a diplomacia britânica tem que atenuar o facto para os seus coirmãos da América e a coisa fica enrolada.

Aí é que aparece o personagem principal, Quinn, o negociador, um ex-soldado condecorado na Guerra do Vietnam, mas que não é muito afeito a receber ordens e a ter o entendimento do que seja uma hierarquia. Por isso desligou-se do Exército e especializou-se numa firma de investigação que oferecia os préstimos de negociação, com Quinn a destacar-se. Vinha de uma operação frustrada que ocasionou a morte de uma refém e no momento do sequestro do filho do Presidente, estava a desfrutar do sol e das praias da Andaluzia, em Espanha, a colher as suas uvas. Um sujeito comum, discreto e que lia bastante.

Frederick Forsyth

Em reunião de emergência na Casa Branca, com a CIA e o FBI, o nome do negociador aparece como o ideal para lidar com esta situação. A princípio relutante, ele aceita a missão impondo as suas regras e tendo acesso preferencial ao pai de Simon, ou seja, O Presidente. Junta-se às seguranças britânicas e norte-americanas em Londres e aguarda o contato dos sequestradores. Com telefonemas breves para evitar o rastreamento, e conseguindo Quinn uma linha exclusiva para falar com o bando, os termos da negociação vão sendo apresentados e Quinn surpreende ao barganhar o valor do resgate, já que dinheiro não seria problema para a libertação do refém.

Mas o profissional tem os seus métodos, e tendo o controle sobre a operação, faz valer a sua vontade. Sugiro aprenderem com Quinn a lidar com sequestradores. Após acertarem o valor do resgate, o sequestrador líder, de codinome Zack, muda os termos e pede a quantia correspondente em diamantes, não mais dinheiro. Mais burocracia para o Serviço Secreto apurar e o montante que é entregue a Quinn, que foge da casa transformada em quartel general para ter mais liberdade de ação, e claro, escapar às escutas.

Agora a conversa será frontal, entre ele e o bando. Acertam a troca e um episódio fatídico descamba toda a ação, mas Quinn já desconfia que “tem caroço nesse angu” (expressão utilizada pelos mineiros no Brasil). O desenrolar é ilógico para a forma como tudo estava a ser conduzido e mais uma vez o negociador sairá como proscrito, tendo que caçar os sequestradores para descobrir o que está verdadeiramente em jogo.

Contando com o apoio da agente do FBI Sam, que acredita na sua inocência, o negociador empreenderá um tour pela Europa praticamente à procura de agulhas num palheiro. Mas a verdade é que todos temos um passado e Quinn é extremamente bem informado sobre grupos de mercenários que atuaram em África para algumas nações. E é aí que o livro fica gostoso: viajamos juntos por uma Europa pré-União Europeia e na descrição das cidades, dos roteiros, das estradas vicinais, enfim, quando citam as moedas dos países só nos faz ter a certeza de que o autor é muito bem informado.

Os cenários são descritos brevemente, os diálogos são rápidos e aos poucos, pois quando o negociador vai dando cabo da sua busca, as surpresas irão acontecer e os pontos das maquinações completar-se. Como uma pergunta que não quer calar: o que fazia um cinto de explosivos de fabricação russa nas vestes do filho do Presidente?

Um thriller surpreendente, que prende a atenção do início ao fim e mesmo que a complexidade dos personagens não ultrapasse a lógica maniqueísta do bom e do mau, trata-se de um enredo interessante e, que nestes tempos de pandemia, nos faz viajar sem sair do lugar. Uma excelente distração!

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 4 out of 4.

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