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“The Trial of the Chicago 7” (em português, “Os 7 de Chicago“) começa com a aprovação de um julgamento por parte da administração de Nixon. Sob acusação estão sete supostos líderes de movimentos protestantes contra a Guerra do Vietname. Em causa, mais concretamente, está um alegado motim por eles incitado durante a Convenção Nacional de Democratas, em Chicago. Uma das mensagens mais fortes do argumento tem em foco as forças conservadoras na sua tentativa de, através de jogos políticos, manipulações e escutas, condicionar a ordem estabelecida a seu favor.

Este filme, escrito e realizado por Aaron Sorkin, tem uma envolvência de géneros muito particular, conseguindo sempre passar entre os ritmos com bastante subtileza e assertividade, ainda que seja bastante passivo, demasiado documental e repetitivo no primeiro ato. Algo que é facilmente esquecido em poucos segundos, quando o julgamento se começa a traçar, de forma bastante sui generis. O guião, esse, obedece a regras bastante interessantes e não se reprime em tentar elevar a narrativa a um espaço muito pessoal, muito dinâmico e cinematograficamente interessante. Para isso contribui e muito uma banda sonora com alguma relevância, a par da sua fotografia bastante coesa.

A maior mestria desta produção prende-se com o tom descontraído com que consegue abordar estas questões políticas e os pontos de vista de cada personagem, num cast muito interessante que conta com Eddie Redmayne (Tom Hayden), Sacha Baron Cohen (Abbie Hoffman), Mark Rylance (William Kunstler) e Joseph Gordon-Levitt (Richard Schultz).

Mark Rylance (William Kunstler) e Eddie Redmayne (Tom Hayden)

A ligação entre o grupo de acusados é muito forte, tal como o movimento humanitário que os levou a fazer a sua manifestação, constatando posteriormente que as forças de segurança não tinham grande interesse em manter a ordem, mas sim o contrário. A violência demonstrada aquando da sua atuação policial, tremendamente bem captada pelo filme, é deveras estonteante, sobretudo por, pelo complô criado, escaparem impunes.

Além disso, o realismo do julgamento, que se prolongou por meses e meses, não só cria um sentimento de euforia e de interesse generalizado para com a obra como um todo, como satisfaz uma sensação de conforto, de envolvência com a própria plateia que assiste, não indiferente, aos desenvolvimentos da trama.

Uma questão bastante particular tem que ver com o juiz, altamente parcial e pouco profissional, que modera a sessão. As suas decisões, altamente contestáveis são, a dada altura, motivo de paródia por parte dos réus e da própria plateia. O seu comportamento põe a descoberto, mais uma vez, o interesse político comum e também a mentalidade de antigamente quanto à condenação fácil de muitos casos, onde o mais óbvio e lógico acabava sempre por ter uma decisão pré-concebida nesse sentido. Desta forma, temos não só um filme que sabe o que quer, mas que também sabe quando há que ditar um ritmo mais contemplativo, ao invés de uma sequência mais frenética.

Joseph Gordon-Levitt (Richard Schultz)

Assim, a par de uma interpretação das personagens bastante sólida e que serve a história, o filme tem como falhas algo que vai mais para a ordem técnica e, talvez, por não se elevar em tom imprevisível quando a narrativa e o espectador assim o exigiam. Consegue ter no subtexto quase tudo para brilhar, mas apesar da sua ambivalência entre tons, perde um pouco o seu brilho por se agarrar demasiado àquilo que tenta defender. É, portanto, demasiado sensacionalista como um todo, algo que em certa medida não encurta necessariamente os seus desígnios fílmicos, mas atrasa um pouco o delírio do auditório cinematográfico.

Aqui há a referência a um número, o 7, onde a perfeição acaba por tomar lugar nas rédeas finais do filme, ainda que a mensagem mais forte desta obra seja, objetivamente, um coletivo e não necessariamente as partes do todo que o constituem, e nesse aspeto a longa-metragem consegue tocar na ferida de um “sistema” totalmente corrompido, mantendo a premissa de que todos contam.

Tiago Ferreira

Rating: 3 out of 4.

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