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Uma das séries que deu que falar nestes últimos meses, e que curiosamente estreou praticamente no início do período de quarentena em Portugal, foi “Freud” – que faz pouco jus ao nome. Realmente o personagem principal desta série de uma só temporada é o aclamado psicanalista Sigmund Freud, interpretado por Robert Finster, contudo, quem acreditava que esta série analisaria a vida e o percurso do médico neurologista checo, pode “tirar o cavalinho da chuva”.

A série passa-se em Vienna no final do século XIX, e Freud é um jovem médico que procura a aprovação dos colegas de profissão, não fossem os seus métodos revolucionários e polémicos. O único a apoiar as suas teorias era o seu mentor Josef Breuer, na série interpretado por Merab Ninidze. Sigmund trabalha numa clínica psiquiátrica, sendo esta a validação para as suas palestras na Universidade e consoantes tentativas de estudar mais a fundo a mente humana.

Sophia von Szápáry (Anja Kling) e Sigmund Freud (Robert Finster)

Ao início é-nos retratado a personagem do psicanalista, um homem viciado em droga – mais precisamente em cocaína, pois este para além de gostar dos seus efeitos, este estava a estudar a substância em situações particulares como anti-depressivo – no seio de uma família judia, solitário, pois apenas vive com a sua empregada, e algo apático. Freud tenta provar o tratamento pela hipnose, defendendo que só desta forma é possível compreender certos traumas, o inconsciente, e consequentemente tratar muitos dos pacientes com distúrbios mentais. Até aqui tudo bem, pois a série convida-nos a entrar no mundo do médico nascido na atual cidade de Příbor, na República Checa (na altura parte do Império Austríaco).

De forma bastante satisfatória, o realizador da série, Marvin Kren, e os seus escritores Stefan Brunner e Benjamin Hessler, tiveram o cuidado de caracterizar muito bem as suas personagens, os cenários envolventes e todo passado histórico. Mais precisamente em 1880, o Império Austríaco já havia evoluído para o Império Austro-Húngaro, e essa tensão política não foi ignorada por parte da realização. É, inclusive, graças à vertente mais nacionalista, que esta série consegue ter alguns pontos positivos no meio de tanta imaginação e ‘feitiçaria’.

Paralelamente à história de Freud, temos outros plots de quase igual importância a desenvolverem-se ao longo dos oito episódios. Uma protagonista desta série, que chega a ser uma personagem com mais peso do que o próprio Freud, é Fleur Salomé – interpretada por Ella Rumpf – a melhor atuação de toda a série. Fleur é uma espécie de médium que funciona como principal arma por parte de uma família aristocrática húngara, os von Szápáry, instalados na Áustria, para matar parte da família real austríaca e assim obter vingança. Não nos podemos esquecer que a junção da Hungria à Áustria não foi bem recebida por ambas as partes.

Em destaque: Fleur Salomé (Ella Rumpf)

A certa altura, Freud vê em Fleur uma oportunidade de ouro para pôr em prática as suas teorias psicanalíticas, o que este não contava era ser ele vítima de hipnose. Esta é uma relação negativa e tóxica em quase toda a série, pois algumas das teorias defendidas pelo médico Sigmund Freud (real) são fantasiadas de uma forma muito básica e por vezes até cómica, de forma a tentar apelar ao misticismo destas personagens. Infelizmente, este tipo de efeitos e viagens transcendentais nada acrescentam ao conteúdo da narrativa. O problema prende-se com o seguinte exercício: se retirarmos a vertente voodoo da obra, esta revela-se efectivamente pobre.

Contudo, há que destacar outra personagem com relevância na história, o polícia Alfred Kiss (Georg Friedrich), que tem uma prestação também ela notável. Implacável e frio, Kiss é um homem perturbado pela guerra, que carrega com ele o sentimento de culpa pela morte do seu filho, e a quem Freud consegue, com sucesso, aplicar a sua “famosa” hipnose. Este vê-se envolvido num grande problema após matar (num duelo justo) o filho de um dos principais comandantes do exército austríaco. A sua cabeça fica a prémio e Kiss é afastado do seu cargo policial, tornando-se assim uma espécie de anti-herói.

Kiss (Georg Friedrich)

A história assume uma postura muito popular, com um conteúdo fácil de digerir mas que facilmente se torna desinteressante. A insistência nos estados de hipnose e em todos aqueles “encantamentos” levam o espectador a perguntar a si mesmo o que é que realmente aquilo acrescenta ao real conteúdo da história. O problema é que a resposta se resume a “praticamente nada”. Uma conspiração é o motim para a contínua mastigação de uma história com alguns momentos felizes, mas pouco ou nada palpável. Sendo uma produção Netflix, a caracterização é irrepreensível, disfarçando assim a pouca imaginação do enredo.

À medida que a série vai evoluindo, o destino dos três principais personagens acaba por os juntar, revelando mais uma vez que Freud não tem a relevância que ao início fazia parecer. Ao analisarmos a série pelo o que ela é, e deixando de parte as inevitáveis comparações com o que realmente aconteceu ou não na vida real, “Freud” acaba por deixar um sentimento de frustração. Percebe-se que esta é bem produzida, que tem uma fotografia muito interessante, um jogo de cores muito bem adequado às atmosferas e aos estados de espírito das respectivas cenas, tal como o cuidado histórico em retratar uma sociedade em ebulição.

Contudo, esta obra é facilmente vendida pelo seu nome e cria expectativas muito elevadas, comparativamente à sua qualidade. Com muito sangue e sonhos, “Freud”, na tentativa de hipnotizar o espectador, acaba por ser a vítima da sua própria hipnose, nunca tendo abandonado esse estado.

Rating: 2 out of 4.

IMDB

Rotten Tomatoes

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