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Porque A Arte Somos Nós

“Double vies”, ou em português “Vidas Duplas“, é um filme francês de 2018. Dirigido por Olivier Assayas, com Guillaume Canet, Juliette Binoche, Vincent Macaigne e Norah Hamzawi, prima pela abordagem intelectual em conversas em jantares onde amigos se reúnem para discutirem os novos rumos da arte. Um drama com trechos de humor, nas interlocuções afiadas entre os personagens, o meio editorial é que quase sempre permeia esses diálogos.

Afinal, uma das relações dá-se entre o editor (interpretado por Canet) e o romancista Léonard (vivido por Macaigne). O almoço em um bistrot apresenta um editor meio desanimado com o novo livro do seu amigo romancista. O presente aponta para o pouco valor de mercado de uma novela auto-ficcional, ainda mais que ele agora está debatendo com uma perita em marketing que aponta que a onda agora na publicação é dar status de livros a uma personalidade que tweeta.

Juliette Binoche

Juliette Binoche (linda como sempre!) é a esposa deste editor e amante do romancista. Não tão subtilmente assim, ela tenta dissuadir o marido acerca da negativa à nova obra, e a decisão fica para depois. Casados há 20 anos, Selena e Alain se respeitam muito, são pais de um lindo garoto, mas a esposa consente com as escapadas do marido em reuniões em outras cidades com a responsável pelo marketing. Ela não fala abertamente ao marido, mas pressente.

Aqui cabe uma observação editorial atual: “hoje em dia até os escritores publicam livros”. Este chiste me foi dito pela primeira vez pelo poeta brasileiro Claufe Rodrigues, e na crítica expressa o facto de o mercado editorial ter se sujeitado a publicar livros de celebridades, certamente oriundo do fetiche de muitos em saberem da vida dos famosos e, numa época em que muitos não conseguem tirar um tempo para lerem um romance mais substantivo, é prático ler tweets e breves mensagens dessas celebridades.

Guillaume Canet

As plataformas digitais de publicação parecem ameaçar o objeto livro impresso, e é quase um ato de resistência pertencer ao seleto grupo de leitores que dialogam com um Umberto Eco, José Saramago, Mario Vargas Llosa e Jonathan Franzen. O autor Léonard se frustra (claro) e recebe uma reprimenda da sua esposa, a esguia assessora política que trabalha cuidando da imagem do seu patrão. Ela sugere que ele enfrente a situação, reescrevendo e trabalhando mais no seu original.

Mas o que parece é que Léonard só sabe fazer auto-ficção dos seus casos amorosos, sempre reservando às mulheres papéis secundários. Um tanto ridículo na administração da sua carreira, apresenta-se para leituras públicas com um pequeno público que somente o critica, concede entrevistas a uma rádio onde é confrontado e não larga o smartphone angariando as poucas curtidas acerca do seu trabalho.

Mais jantares e conversas, mais relações e traições. Uma fragmentação de relações interpessoais que se reflete nas crises editoriais que se apresentam. Os diálogos são inteligentes e com ótimas pitadas de humor. Cenários e fotografia muito bem escolhidos e as lições que ficam é que devemos nos atentarmos para as nossas relações interpessoais e no trato com a cultura, pois corre-se o sério risco de tudo se acabar devido ao excesso de miniaturização das “obras” oferecidas.

Hilário no filme é o diálogo auto-promocional onde Selena e Léonard discutem na viabilidade de pedirem uma recomendação ao romance a uma cultuada atriz que é… Juliette Binoche.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 4 out of 4.

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One thought on ““Doubles vies”: A fragmentação da convivência

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