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Voltaire, filósofo francês (1694-1778), escreve, em “Cartas Inglesas” (título original “Lettres Anglaises“), considerações acerca da realidade de um presente histórico marcado por diferenças e verosimilhanças entre a sociedade parisiense e a inglesa do século XVIII.

Mais do que filósofo, Voltaire se tornou um crítico literário e sua personalidade forte e extrovertida foi daquelas que não deixam que a sua filosofia seja desprendida de sua vida pessoal. O “rapaz de talento, mas patife notável”, nas palavras de seus professores jesuítas, delegaria a este homem uma trajetória sempre marcada por brigas, desavenças, êxitos advindos de sua ousadia incomum e uma “arrogância intelectual” sem precedentes, chegando quase a uma excentricidade artística. Foi exilado na Inglaterra após levar uma surra do Duque de Sully, em França.

Chegando ao novo país, ele logo começa a frequentar os salões e se aproxima de personalidades e de homens das letras dentre os quais os filósofos Berkeley e Clarke. Foi Voltaire um grande divulgador das obras de John Locke (1632-1704). Publica crónicas que receberiam o nome de “Cartas Filosóficas” no seu torrão natal e vê seus escritos condenados à fogueira em plena praça de Paris. Atentado à moral e aos costumes já estabelecidos.

Retrato de Voltaire

Mas qual o teor das cartas de Voltaire que o levaram a ter dissabores? O que houve é o fato de que ele postergou reflexões profundas e ao mesmo tempo satíricas acerca de sua época. “Cartas Inglesas” se compõe de 25 crónicas que versam sobre poesia, literatura, discussões e críticas a costumes da sua época, religião e termina com uma longa refutação à filosofia de Blaise Pascal.

Nesta, observa-se a contraposição entre um pensador reaccionário (o Sr. Pascal) e a irreverente e mordaz língua voltairiana. Há, nas 20.ªs, 23.ªs e 24.ªs cartas considerações interessantes sobre os homens e as Academias de Letras e de Ciências. O autor de “Cândido” andou às turras também com esses “doutores do saber”, mas a bem da verdade andou às turras também com sacerdotes, policiais franceses, burgueses enfim, sendo ele também um.

Ser polémico e vivaz é que fez desse homem um marco na história anti-filosófica do século XVIII, sendo que ele sempre refutou a imagem de pensador contemplativo. Sedutor nato, chegou certa vez a afirmar que “era mais apropriado dizer duas ou três palavras de galanteio à rainha a escrever calhamaços ao rei“.

Sempre animado por paixões nada mornas, foi um moderno protegido por damas e cortesãs, ao mesmo tempo. Mais do que sensacionalismo infantil, “Lettres Anglaises” nos proporciona saber do seu autor verdadeiro filósofo, na contra-razão explícita e que faz buscar nas entrelinhas as frases apropriadas para risos cómicos. Imperdível!

Marcelo Pereira Rodrigues no mausoléu de Voltaire, no Panteão Nacional francês

Marcelo Pereira Rodrigues

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2 thoughts on ““Cartas Inglesas”: A Deliciosa Arte de Ser do Contra

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