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Porque A Arte Somos Nós

O universo do “Filme do Desassossego” (2010) é criado a partir de “Livro do Desassossego” (1982), que foi composto por Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa e ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.

Para entender a essência do protagonista desta história – portanto, de Bernardo Soares, interpretado por Cláudio da Silva, conhecido por outros papéis como em “Peregrinação” (2017) –, importa entender o conceito de uma heteronímia não total. Através das palavras do criador-mor, Fernando Pessoa (interpretado por Pedro Lamares), em que diz: “Não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade“.

Quase toda a profundidade do filme começa e acaba nos devaneios de Bernardo Soares, “cantando” os seus fragmentos e interpretando-os, vivendo-os, de uma forma muito sofrida, interior e iluminada. À parte das reflexões, o próprio soa um tanto ou quanto alheado do mundo em que está inserido, não se enquadrando com a essência da sua realidade. Prefere viver apenas alcançando o sonho, “que é a ilusão de quem não pode ter ilusões“.

Cláudio da Silva como Bernardo Soares

Por outro lado, vão surgindo inúmeras personagens ao longo da narrativa a declamar os seus fragmentos, quase que perfazendo um oxímoro para com o seu alheamento e distanciamento físico, e demonstrando uma ligação dos seus escritos com o universo real e material do seu mundo, as pessoas. Ainda que não lhe interesse o que os outros indivíduos pensam – e, assim, segundo ele, “benditos são os que não confiam a vida a ninguém” –, “tudo o que somos é uma impressão alheia“.

É quase que inevitável enaltecer a interpretação de Cláudio da Silva, encarnando e encarando a personagem com o rigor e a paixão que ela exigia, mantendo sempre uma índole digna de tédio, enquanto mágoa física, e um homem nunca menos do que à margem daquilo a que pertence. Decerto, e retomando a temática da “dor de pensar” do seu ascendente literário, para ele, “a decadência é a perda total de inconsciência“, inconsciência essa que constitui o real fundamento da vida para Bernardo Soares.

Desta forma, esta película, além de obviamente enaltecer a genialidade do autor, constitui invariavelmente uma obra ensaística sobre o mundo e sobre os aspectos que o rodeiam, como, por exemplo, a própria Literatura que, segundo o próprio, é também ela “a finalidade”, numa conjugação séria entre arte e pensamento e uma “realização sem realidade“. Arte essa que, para ele, nos dias de hoje deixou de ser criação e passou a ser uma mera expressão de sentimentos.

Outro aspecto a enfatizar tem que ver com a realização e argumento (adaptado) de João Botelho, já conhecido por adaptar obras portuguesas ao cinema, como é o caso de “Os Maias: Cenas da Vida Romântica” (2014), baseado na obra de Eça de Queiroz, o que demonstra não só uma audácia muito grande em conseguir imortalizar um conteúdo literário por vezes de difícil transposição para o grande ecrã, como é o caso do “Livro do Desassossego”, pelo facto de não ser propriamente uma história com princípio, meio e fim, mas também mostra que João Botelho valoriza aquilo que de bom se faz na Literatura Portuguesa, conseguindo sempre acrescentar, nessas adaptações exímias, um toque bastante pessoal e interventivo.

“O Filme do Desassossego”

Contudo, há que dizer que este filme está longe de ser perfeito, um pouco pelas limitações adjacentes ao conteúdo fragmentado da obra em si, perdendo um pouco o seu sentido narrativo nas partes musicais, um pouco anti-clímax, conseguindo no entanto atingir, deveras, esse tal clímax cinematográfico nas declamações, profundas, bem conseguidas, únicas de – não tão único, mas talvez múltiplo – Bernardo Soares.

Assim, se há palavra que define esta obra (quer a literária, quer a fílmica) é a de «universalidade», uma vez que tem nas frases fragmentadas do semi-heterónimo Bernardo Soares a própria demonstração da complexidade e completude do próprio Fernando Pessoa, que não era um só eu, mas vários. Para o primeiro, “tudo o que sabemos é uma (mera) impressão nossa“, ou seja, há que fazer os possíveis para “encontrar uma personalidade na perda dela“.

“Uns governam o mundo, outros são o mundo”

Bernardo Soares, em “Livro do Desassossego”

Tiago Ferreira

Rating: 2.5 out of 4.

IMDB

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