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Porque A Arte Somos Nós

Django Libertado” (2012) inicia a sua acção dois anos antes da Guerra Civil, algures no Texas. Dr. King Schultz – interpretado de forma exímia por Christoph Waltz – procura um bando de escravos, nomeadamente o de Django (Jamie Foxx), conhecedor de três criminosos com a cabeça a prémio. Dr. King ia, precisamente, em busca do prémio, avultado, pela sua captura, com ou sem vida.

Django sabia exactamente quem eles eram, dizia ele, e de forma a livrar-se da escravidão de que era alvo, prometeu ajudar Dr. King a encontrá-los. Acontece que Django não era um escravo dito normal, uma vez que tinha características únicas de “caçador”. Rapidamente se apercebeu, Dr. King, que aquele rapaz tinha futuro – e, nesse sentido, sugeriu uma espécie de sociedade. Em troca, prometeu a Django encontrar a sua esposa, Broomhilda von Shaft (Kerry Washington), também ela feita escrava, no Mississippi.

Christoph Waltz (esquerda) e Jamie Foxx (direita)

Este filme tem, naturalmente, uma crítica social muito forte, na medida em que mostra a realidade da escravidão e da desigualdade adjacente à discriminação racial, conseguindo ainda, metaforicamente, mostrar além de todos os (infelizmente) óbvios preconceitos da época – que, ridiculamente, ainda hoje persistem –, que a inferioridade de raças é nada mais que uma confusão mental. O protagonista desta história – só, então, podia – é precisamente um cidadão negro, Django, que dá o seu nome ao título da película.

Outra das mensagens fortes é, obviamente, a do amor. Django nunca desiste de ir salvar Broomhilda daquele pesadelo, indo buscar forças a onde elas não existem. E para isso, adquiriu muito, senão todos, os conhecimentos de força (mental), confiança, garra e obstinação de Dr. King, um homem todo ele astuto, com uma enorme lábia para fazer negócios e para escapar de situações-limite.

(Retomando a narrativa,) nessa sua busca pela mulher de Django, deparam-se com um homem de negócios, Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). Este homem investia em escravos, naturalmente, mas também em confrontos entre eles, conjeturando financeiramente possíveis vencedores. Para conseguirem chegar até Broomhilda, tiveram de inventar um estratagema, no qual afirmavam vir adquirir um dos seus escravos.

Esta produção, escrita e realizada por Quentin Tarantino, dá-nos, acima de tudo, um drama à western, que consegue encontrar na caracterização gradativa das personagens-base o seu mais sólido apanágio, algo que é muito frequente nas obras deste grande cineasta. O argumento é inicialmente bastante sólido, mesmo que, mais para o fim, caia numa certa previsibilidade, da qual, muitas vezes, para se ser realista, não se pode fugir. A sua escrita foi, precisamente, premiada nos Óscares com a de Melhor Argumento Original.

Stephen (Samuel L. Jackson) olha para Broomhilda (Kerry Washington)

Um outro aspecto muito interessante deste filme toca, concretamente, na questão da sobrevivência do mais forte, como metáfora da sociedade. No entanto, paradoxalmente, por vezes, não temos mesmo escolha se não nos rendermos à nossa realidade opressiva… Porque é necessária ou uma oportunidade muito fortuita e feliz para nos libertarmos dessa realidade – muitas vezes, também ela interior –, ou alguém que nos tire do fundo desse poço.

Na busca incessante pela sua esposa, Django percebe que a personalidade (na sua essência) de Dr. King está, irremediavelmente, de encontro com o carácter atroz da sua realidade. Inegavelmente bem representado, Christoph Waltz permite-nos um acting digno de pouquíssimos actores – não é por acaso que levou para casa a estatueta de Melhor Actor Secundário, na melhor noite do cinema (americano) –, ideia essa aliada, naturalmente, à profundidade com que Tarantino nos brinda nas suas índoles bem dissecadas ao longo do processo cinematográfico (como um todo).

Eis um filme perspicaz, muito mais que o típico western de “índios e cowboys“.

Por um cinema feliz.

Tiago Ferreira

⭐⭐⭐

IMDB

Rotten Tomatoes

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