Mal poderia imaginar que há cerca de 50 anos, quando a minha mãe me começou a comprar a revista “Tintin” (sim, já existiu uma revista “Tintin”), estava a construir no meu imaginário uma figura de banda desenhada que perdura até aos dias de hoje. Por aqueles dias, era publicada semanalmente a dita revista de banda desenhada que continha, para além de uma (pequena, para mim) parte de uma história de Tintin, outras bandas desenhadas como “Blake and Mortimer“, “Corto Maltese“, “Clifton“, “Ric Hochet“, “Taka Takata” ou “Michel Vaillant“.
Este tipo de publicação de cartoon era muito comum naquela época, só progressivamente se generalizou a publicação das histórias completas em apenas um volume. Passei, assim, horas infindáveis a ver e rever todas aquelas revistas, pois para conseguir ler uma história completa tinha de consultar mais de 20 ou 30 exemplares da publicação que se intitulava “A revista dos jovens dos 7 aos 77 anos“!
Mas, de todas essas personagens, foi Tintin que mais me apaixonou. Esse intrépido repórter que com a sua inteligência e destreza conseguia ultrapassar as situações mais difíceis e complexas, percorrendo o mundo de um lado para o outro, chegando mesmo a ir à lua, algo que só na cabeça do seu magnifico criador seria possível. O seu nome Georges Remis, ou como universalmente ficou conhecido: Hérge.

Criando o seu pseudónimo a partir das iniciais do seu nome invertidas (RG), Hergé começa a desenvolver as suas aptidões artísticas inseridas num contexto sociocultural complexo que viria a influenciar sobremaneira a sua obra. Nascido em Etterbeek, na Bélgica, em 1907, cresce numa comunidade conservadora e vive uma primeira Grande Guerra, ainda pequeno. É como escuteiro, atividade que teria enorme peso no desenvolvimento da sua personalidade e paixão pela natureza, que vê materializar-se a publicação dos seus primeiros “bonecos” na revista associada ao movimento Escutista. Corria então o ano de 1922, e estaria para breve o surgimento das primeiras histórias estruturadas com “As Aventuras de Totor“, em 1926, para a revista Le Boy-Scout Belge.
Foi já ao serviço do católico conservador jornal belga Le Vingtième Siècle que, no seu suplemento Le Petit Vingtième, Hergé vem a dar vida ao menino repórter Tintin, como era conhecido, e o seu cachorro Snowy (Milu, no francês original e na edição portuguesa). Corria então o ano de 1929 e Hergé iniciava a publicação de uma série de 24 histórias intituladas “As Aventuras de Tintin“, sendo que o último trabalho (inacabado) foi publicado a título póstumo em 1986, após a morte do seu autor em 1983.
Nota: Utilizarei a partir de agora os títulos editados em português, uma vez que existem algumas designações diferentes de acordo com as traduções adotadas. As datas são referentes à publicação em álbum, que ocorria posteriormente à publicação parcelada em revista. Também os nomes dos personagens são os adotados na tradução em português, com a exceção do próprio Tintin, em que adoto o nome original, na tradução portuguesa Tintim.

Os três primeiros títulos, “Tintin no país dos Sovietes” (1930), “Tintin no Congo” (1931) e “Tintin na América” (1932) são criados num contexto muito específico. A Bélgica profundamente católica e defensora dos bons costumes, colonizadora, vê nestas obras instrumentos de propaganda conservadora junto da juventude. As duas primeiras histórias são “forçadas” pelo editor da revista, sendo o terceiro título mais à vontade do autor. “Tintin no país dos Sovietes” revela-se extremamente básico a nível gráfico, não passando de um esboço do que viria a ser “Tintin”. O contexto é puramente político e critica duramente o regime soviético da época.
Já “Tintin no Congo” viria a ser acusada de ser uma obra de acentuado teor racista, no entanto, no contexto da época não o era, tendo tido a clara intenção de incentivar o sentimento colonialista pelo Congo Belga e demonstrar uma visão paternalista do colonizador. Na linha conservadora da editora da revista, para quem Hérge trabalhava, também “Tintin na América” vem a revelar-se uma obra critica relativamente ao capitalismo e ao consumismo da sociedade americana, enfrentando Tintin os gangues que por essa época reinavam nas ruas de Chicago, em plena Lei Seca. De destacar que este é o título mais vendido de sempre de “As Aventuras de Tintin”, com larga margem para os restantes.
Nestes três capítulos, ainda não se revelam na plenitude as aptidões criativas de Hergé, que era por natureza bastante perfecionista e exigente. Pelo contrário, Hergé viria a revelar o óbvio, que a criação destas histórias obedeceu essencialmente a exigências da editora, que resultariam mais tarde em duras críticas de caris político, e não só, obrigando até a alterações de conteúdo nas edições já publicadas.
Ultrapassada esta fase, Hergé edita “Os Charutos do Faraó” (1934) que se vem a revelar um título importante, pois introduz pela primeira vez os detetives Dupont e Dupond, dois irmãos gémeos que virão a acompanhar muitas das aventuras de Tintin. Também nesta história é introduzido o vilão Rastapopoulos e, importante para nós, o Senhor Oliveira da Figueira, comerciante português que virá a aparecer mais algumas vezes nas aventuras de Tintin.
Como o próprio Hergé revelou, a partir desta altura decidiu realizar um estudo prévio bastante mais aprofundado aos países, hábitos e locais por onde as aventuras do repórter Tintin iam passar. Em “O Lotus Azul” (1936) é já visível esse cuidado por parte do autor, que coloca Tintin na senda das rotas do Ópio, revelando um grande cuidado no contexto descritivo da China à época. Segue-se “A Orelha Quebrada” (1937) que leva Tintin até à América do Sul e “A Ilha Negra” (1938) no seu seguimento, quando Tintin regressa da sua aventura sul americana e ruma a terras de Sua Majestade, onde irá enfrentar pela primeira vez outro vilão, Dr. Muller, conhecido contrabandista nas redes europeias.
Segue-se “O Ceptro de Ottokar” (1939), em que Tintin se vê novamente envolvido numa trama política que irá resultar no sucesso da sua intervenção para evitar um golpe de estado. Este capítulo é particularmente impressionante pelo trabalho cénico e de contexto em que a história se desenrola, demonstrando um grande cuidado na sua conceção.
Não percas o próximo episódio desta retrospetiva ao aclamado repórter Tintin, porque nós também não!
O OBarrete quer continuar a trazer as melhores análises e embarcar em novas aventuras. Clica aqui e ajuda-nos, com o mínimo que seja, a conseguir os nossos objetivos!




One thought on “Tintin: O legado perdura (1)”