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Passados quatro anos de “Os Oito Odiados” (2015), o novo filme de Quentin Tarantino, “Era Uma Vez em… Hollywood“, chega numa altura em que já tínhamos saudades do realizador. Esta película teve uma ovação de sete minutos em Cannes, o que fazia antever uma obra, no mínimo, sagaz e paradigmática (q.b.).

“Era Uma Vez em… Hollywood” mostra um cinema “sério” de Tarantino com muito valor, e mostra também que o realizador está sempre à procura de se reinventar e de mostrar que consegue fugir da sua linha de “acção sangrenta”. Mas, o que é que este filme traz de novo? Mantendo a sua tendência para quebrar as linhas cinematográficas, unificando a sua própria narrativa, no fundo, temos um elenco à western spaghetti — no qual existe um grande suporte da narrativa.

O drama começa com Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), um actor conhecido, com auge na década de 1950, que vai vendo a sua vida profissional fugir cada vez mais do registo Western (mediático) e abraçando uma vertente menos melodramática nos dias de hoje. Rick vai perdendo completamente o seu legado (reconhecimento) e protagonismo, e todos nós sabemos que o cinema é uma bola de neve — para o bem e para o mal. Os papéis vão sendo cada vez menos “dignos”. À parte disso, este tem uma vida bastante boémia (álcool), que só é possível conciliar com a ajuda do seu parceiro “para todas as ocasiões”; estamos a falar de Cliff Booth (Brad Pitt), o seu “duplo”. Este último tem uma importância feroz, pois é o amparo de Rick para as vicissitudes do dia-a-dia. Rick é completamente dependente de Cliff. O duplo é mundialmente conhecido por ter morto a sua esposa e por ser violento, mas no fundo ele é apenas um bom amigo e uma pessoa com instintos protectores. Importa frisar que o filme aumenta em grande nível e plano quando Cliff assume as rédeas (mérito para Brad Pitt). Não é por acaso que no próximo dia nove, noite de Oscars, coroar-se-á, ao que tudo indica, Brad Pitt como Melhor Ator Secundário.

Tarantino foi capaz de reinventar um estilo que lhe assenta na perfeição: através de uma essência cinematográfica toda ela audaz, mas acima de tudo metafórica e hiperbólica, consegue marcar a diferença neste trabalho com pequenos plot twists que vão dando forma a uma narrativa um pouco dispersa. A grande crítica que faço ao filme é a falta de rigor num guião sem dúvida rico, com um argumento muito poético, mas sem grande ordem, e sem uma estrutura coesa que seja capaz de contar uma história com princípio, meio e fim. Acho que é caso para dizer que este filme precisa de ser bem digerido, pois fica na memória apesar da pequena anarquia literária.

Rick vai percebendo que é preciso dar um novo rumo à sua vida, e para isso é necessário fazer uma retrospectiva profunda, de forma a conseguir extrair uma confiança mais interior e, a partir disso, ser capaz de encarar o presente, convicto. Outro destaque é a prestação de Margot Robbie – interpreta Sharon Tate, esposa do aclamado realizador Roman Polanski –, que apesar do seu papel mais discreto, não deixa de conseguir encantar o espectador com a sua leveza, com Quentin a refugiar-se nela para nos dar, a nós espectadores, um dos lados mais emocionais da narrativa.

Por fim, apesar da audácia e criatividade de contar uma história rica em analogias e efemérides de Hollywood na década de 1950 e 1960, fica um vazio no espectador ao chegar ao fim da obra, faltando estrutura, coesão, sentido e constância literária.

É a minha aposta, apesar de todas as incoerências e do favoritismo de “1917” (Sam Mendes, 2019), para levar a estatueta (Oscar) de Melhor Filme no próximo dia nove.

Bons filmes.

Tiago Ferreira

⭐⭐⭐

IMDB

Rotten Tomatoes

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