OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Southpaw – Coração de Aço” (2015) é, acima de tudo, uma obra ensaística e catártica sobre as relações e a determinação humana. Não obstante o rótulo já habitual de filme desportivo e que obedece, portanto, aos critérios (linhas orientadoras) naturais, a película revela-se como muito mais que uma demonstração daquilo que é o boxe, a vida dos atletas e a magia da própria actividade.

Naturalmente que isso é uma das coisas mais evidentes, e bem conseguidas, mas a história de Billy Hope, protagonizado por Jake Gyllenhaal — o emblemático actor conhecido por filmes como “Raptadas” (2013) e “Nightcrawler – Repórter na Noite” (2014) — traz não só no próprio apelido (esperança) a essência de todo o filme, como também na metáfora de superação que descreve afirmativa e certeiramente.

Billy é campeão de pesos médios e tudo é uma maravilha. Tem uma bonita família, Maureen (Rachel McAdams) e Leila (Oona Laurence) e financeiramente as coisas correm de feição. Tem uma boa casa, o apoio familiar, amigos e nada fazia prever o que viria. Contudo, a sua esposa foi fazendo notar a sua preocupação com a violência dos seus combates, quase como presságio do que viria a acontecer.

Apesar do seu sucesso, havia um lutador a cobiçar-lhe os calcanhares e, inclusive, a desafiá-lo constantemente para um combate, o colombiano Miguel Escobar (Miguel Gomez).

Jake Gyllenhaal e Forest Whitaker

Mais tarde, viria a acontecer uma tragédia com Maureen, provocado por um desentendimento entre Billy e Miguel, num evento. Billy veria a sua esposa a morrer-lhe nos braços — e é previamente isso que espoleta o grande sumo narrativo de “Southpaw”.

A partir daí, Billy torna-se instável, sem grandes razões para continuar a sua vida, e a sua fama aos poucos vai-se deteriorando, tendo como pináculo uma agressão ao árbitro, em pleno combate, que lhe valeu um ano de suspensão. Além disso, viria a perder a custódia da sua filha para os serviços sociais e os problemas financeiros começavam a surgir. Billy, a partir desse instante, teria de realmente começar de novo.

Estamos perante um filme que nos traz a mágoa e o sofrimento daquilo que é perder as pessoas que nos são mais próximas, ter que lutar e ter a capacidade para dizer basta a uma vida sem rumo. Um dos aspectos mais relevantes de toda a obra é, sem dúvida, a obstinação de Billy em “reconquistar” a sua filha, que o culpa pela morte da sua mãe, e a sua tentativa sem fim de renascer das cinzas com a orientação certa. Para isso, foi procurar o treinador do único lutador que tinha, até então, conseguido derrotar Billy, Tick Wills (Forest Whitaker).

Tick viria a ser, verdadeiramente, a esperança para Billy, tendo-lhe oferecido emprego e, mais tarde, quando as coisas já estivessem mais calmas, viria a ensiná-lo a “arte de defender”, coisa que Billy nunca tinha aprendido (era, sobretudo, um lutador de ataque, de impulso, de agir pelo coração). Tick ensiná-lo-ia que, afinal, o boxe é um desporto jogado pelo nosso cérebro, pela nossa cabeça, pela nossa mente.

Billy Hope e Maureen Hope

Aí “Southpaw” ganha um relevo muito interessante e importante, pois ver a forma como Billy ia superando as suas dificuldades, sempre com a sua filha no pensamento e com o recuperar a sua vida ao lado dela como horizonte, sob uma orientação astuta, correcta e certeira, trouxe uma dinâmica cinematográfica muito enriquecedora.

Passados uns tempos, Billy, e já depois de ter provado ao juiz que tinha assentado as suas ideias e que a sua vida tinha estabilizado, viria a ter uma nova oportunidade de regressar à ribalta dos combates, contra nem mais nem menos que Miguel Escobar, o actual detentor do cinturão de pesos médios. O vencedor do combate viria a determinar aquele que iria ser o campeão dessa categoria.

Há que enaltecer o argumento de Kurt Sutter, conhecido por ter escrito a série “Sons of Anarchy” (2008-2014), que consegue criar um universo cativante e uma história com uma moral muito interessante, pecando apenas por uma eventual previsibilidade no desfecho. Ademais, a realização, por Antoine Fuqua, conhecido por dirigir o filme “The Equalizer – Sem Misericórdia“, protagonizado por Denzel Washington, (2014), é bastante digna para o género e destaca-se como um bom trabalho do seu reportório.

Desta feita, o final de “Southpaw – Coração de Aço” fica para o espectador que decidir mergulhar nesta película, mas sempre ciente de que não se trata de apenas “mais um” e sim uma obra que, com (naturalmente) as suas falhas, transmite uma mensagem audaz, bonita e cinematograficamente edificante.

Por um cinema feliz.

Tiago Ferreira

Rating: 2.5 out of 4.

IMDB

Rotten Tomatoes

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

%d bloggers like this: