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Porque A Arte Somos Nós

“Canyon Passage”, em português com o título “Amor Selvagem“, tem uma narrativa passada no estado de Oregon, no interior dos Estados Unidos da América, em meados do século XIX. Por entre caracterizações exímias, somos levados numa pequena viagem pela história de uma civilização onde o progresso se deu à custa de muitas perdas, materiais e imateriais.

O personagem principal da história é Logan Stuart (Dana Andrews), um bem-sucedido comerciante, que a certa altura se deixa levar por acontecimentos naturais da vida, com duas mulheres e o melhor amigo ao barulho. Desde cedo percebemos que Logan é um homem respeitado na comunidade, algo de especial importância no “velho faroeste”. Mas para todo o herói, existe sempre um rival. Esse é Honey Bragg (Ward Bond), um ladrão forasteiro que acaba por funcionar como um pêndulo na luta entre o “bom” e o “mau”.

A história inicia-se com Logan a ir ter com a “namorada” do seu amigo George Camrose (Brian Donlevy), Lucy Overmire (Susan Hayward), acabando ambos a viajar juntos para Oregon, onde Logan tem a sua loja de conveniências.

Pela viagem, fazem uma paragem num rancho de uns velhos conhecidos, onde entra em cena a mulher pela qual o protagonista tinha interesse, Caroline Marsh (Patricia Roc). De uma família simples, todo o caso já parecia estar “arranjado”, mas a verdade é que a própria viagem ditaria uma aproximação especial entre Logan e Lucy.

Lucy (esquerda) e Caroline (direita)

Já na cidade, é-nos dado um retrato tradicional de uma vila em crescimento. Os espaços dividem-se entre o Saloon, o Banco, a sala de jogo, a loja de Logan e, obviamente, o espaço público. Todos estes locais eram representativos da cultura americana à altura, e da própria categoria western. Funcionavam como símbolos, dando ênfase ao vício do jogo, à exploração mineira na busca pelo ouro, ao alcoolismo e à força da lei. Sendo este um filme de 1946, é uma das primeiras grandes referências western, traçando certas directrizes para obras futuras.

Exemplo disso são filmes como “O Tesouro da Sierra Madre“, de 1948, que retrata o drama e a explosão da elevada procura pelo ouro. Pelo mesmo caminho, e mais recente, temos a série “Deadwood” (2004-2006), que consegue ser ainda mais fiel, pois retrata a vida e os problemas “mundanos” de uma micro-comunidade em pleno século XIX, no faroeste dos Estados Unidos da América.

Voltando a “Amor Selvagem”, a presença da comunidade indígena é outro factor a ter em conta, pois faz alusão não só à evolução do cinema americano, que viu sempre estes agentes como os “maus da fita”, mas também à própria história dos americanos, que a partir do momento em que os europeus chegaram à América, foram expulsando e retraindo as comunidades locais.

Um dos episódios desta obra prende-se precisamente com isso: na celebração de um casamento, a comunidade indígena ameaça a festa dizendo que “a partir do momento que constroem habitação, estão a roubar-nos as terras”. Ou seja, habitar num terreno “inalterado” é viável e justo, mas construir uma casa é como uma proclamação de uma área à partida comum a todos, sendo visto como um roubo.

George (esquerda) e Logan (direita)

Para além dos clássicos dramas amorosos de Hollywood, a vida pacata do campo não agradava toda a gente, como é o exemplo de George Camrose. Este colmatava a sua infelicidade no jogo, endividando-se e roubando o que não era dele. O desespero levou George a cometer um crime, com Logan a não ficar indiferente à acusação do seu amigo.

Por entre uma panóplia de acontecimentos, destaca-se também a violência, que em vez da clássica luta de pistola “mano a mano”, foi evidenciada com a luta ao murro entre Logan e Bragg. Em pleno Saloon, toda a comunidade estava presente. Era como um número de circo, sendo que Logan vê-se obrigado a responder à provocação simplesmente porque “a comunidade assim o exige”.

“Amor Selvagem” é um filme muito bem realizado por Jacques Tourneur, o homem por detrás de “O Arrependido” (1947) ou “A Pantera” (1942), mas retrata uma história algo banal. Como já referi, esta estrutura narrativa era “moda” em Hollywood, pois era o que vendia mais. Mas paralelamente tínhamos uma indústria muito fechada, focada em caras bonitas e em pré-conceitos raciais. Esta obra acaba por ser uma melhor experiência pela retrospectiva social e cinematográfica, do que pela originalidade da sua arte.

Os sentido de justiça aplica-se ao longo de toda a película, quer seja pelos crimes cometidos, quer seja pelas escolhas de Logan. O que nos motiva a escolher entre duas pessoas de que muito gostamos? Será a sua diferença, ou a nossa própria natureza? No fim, só o que é verdadeiro permanecerá – outro cliché típico da sétima arte.

Rating: 3 out of 4.

IMDB

Rotten Tomatoes

2 thoughts on ““Canyon Passage”: Um retrato perfeito de uma história banal

  1. marcelopereirarodrigues diz:

    Na adolescência, li cerca de 400 livros de faroeste. A estrutura era básica: 120 páginas no máximo. Livro de bolso. Sua crítica atesta bem a simplicidade e dicotomia entre o bem e o mal. Vez ou outra, gosto de assistir a um faroeste, geralmente a estrutura é bem simples mesmo! Parabéns!

    1. Obrigado Marcelo! Deparei-me com esta obra através das críticas positivas que já havia lido, tendo sido um experiência interessante, pois podemos analisar o formato e os símbolos clássicos da narrativa dos westerns dos anos 40/50. Admito também que esta crítica era quase para não ser feita, mas a minha teimosia desafiou-me a analisar estes aspectos todos.

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