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Um escritor sociopata, uma casa junto a um pântano onde apenas se ouve fauna e flora e um esquema de corrupção montado metodicamente. É esta a proposta da Netflix e do realizador espanhol Marc Vigil, que em parceria com o ator Pedro Alonso procuram capitalizar o reconhecimento que “La Casa de Papel” (2017 – ) trouxe ao intérprete. O thriller chama-se “El silencio del pantano” e sinceramente não lhe fazia mal um pouco mais de barulho ou um par de cenas interessantes para interromper o arrastão de vanidade que constitui esta hora e meia de cinema.

A narrativa foi adaptada do romance de Juanjo Braulio, com o mesmo nome, pelos argumentistas Carlos de PandoSara Antuña, que estabelecem a ação na cidade portuária de Valência. Q (Alonso) é um ex-jornalista agora dedicado à escrita de ficção criminosa. Bem-parecido e sucedido entre os fãs, o escritor leva uma vida paralela enquanto assassino a sangue frio, em isolamento e sem qualquer demonstração de empatia. Traços que transfere para as personagens das suas histórias.

A vontade de um novo conto fá-lo raptar o professor catedrático de economia Ferrán Carretero (José Ángel Egido), desencadeando uma série de eventos que colocarão em cheque a vida de muitos cidadãos.

Esta breve sinopse faz mais jus ao filme do que ele realmente merece. Começa por tentar estabelecer uma metáfora hierárquica a partir de uma narração estóica do protagonista, comparações entre o pântano de que tanto gosta e uma cadeia alimentar antropóloga. O que ele afirma não é propriamente novo, mas o fascínio pela premissa permite dar o benefício da dúvida.

Pedro Alonso (Q)
Há mais vida para além de “La Casa de Papel”

Até que 50 minutos passam e essa dúvida insiste e persiste, à medida que são apresentadas várias distrações em forma de personagens secundárias. Sem adicionar grande suspense, drama ou curiosidade pelo que vem a seguir, a dura percepção da atitude permanentemente dispersa do filme gera um desânimo completo.

A história é funcional, tem a vontade de comunicar os seus valores com o espectador mas fá-lo de forma desorganizada, confusa e, principalmente, pouco recompensadora. Há demasiadas personagens para tão pouco enredo e nota-se a presunção de estar a apresentar um esquema detalhado e com bastante carne.

Sobretudo no que diz respeito ao sub-enredo relativo à corrupção, o filme comete o erro de alocar demasiados minutos a apresentar, esclarecer e informar a audiência e perde o rasto ao protagonista, que quando está em cena oferece um charme que nenhuma outra personagem consegue igualar. Parte pela presença e interpretação do Pedro Alonso, parte pelo desejo de saber e ver mais do seu papel.

El silencio del pantano” promove uma linha turva entre a realidade e o que acontece na mente do escritor endiabrado. Será tudo matéria conjurada na sua massa cinzenta ou estarão os crimes a acontecer? No final, a resposta murcha os sentidos.

É anti-climático e oco, um desfecho de tal modo supérfluo e apressado que não posso deixar de suspeitar que os argumentistas estavam tão cansados do que estavam a redigir como eu quando vi os créditos a rolar.

Bernardo Freire

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