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Porque A Arte Somos Nós

Frank Zappa foi um dos músicos que abriu portas tão largas que ainda hoje continua a ser uma grande influência. Portanto, abordar um álbum conceptual que resume perfeitamente a continuidade conceptual desse génio não merece detalhes a serem esquecidos. Quando Zappa lançou “One Size Fits All” em junho de 1975, tudo foi calculado. Através da capa, da música ou da letra, cada domínio artístico é explorado para servir de tela para as suas ideias. Zappa, portanto, convida-nos a abordar completamente o disco.

O álbum é composto por nove faixas, uma das quais é inteiramente instrumental: Sofa No. 1. A banda é impressionante, sem dúvida o melhor line-up dos The Mothers: com George Duke, Napoleon Murphy Brock, Chester Thompson, Tom Fowley. A harmónica de Don Van Vliet e a inconfundível voz de Johnny “Guitar” Watson estão lá, mas a predominância da percussão de Ruth Underwood faz com que esta seja a verdadeira atenção, principalmente na melodia introdutória em Inca Roads. OVNIs estão no programa, como o cósmico sofá voador na capa, e a qualidade da composição está presente, na sua complexidade, do jazz aos limites do prog-rock. Uma abertura de álbum que difere amplamente com a do brilhante “Apostrophe (‘)”; mas humor e sátira estão presentes. As músicas Can’t Afford No Shoes e Po-Jama People, esta última com um solo mortífero da guitarra elétrica de Zappa, afastam-se do aspeto puramente conceptual e preferem rir da inflação ou tirar o sarro dos usuários de pijama: essas pessoas que se vivem sem se preocupar com o progresso do mundo.

É então a vez de Florentine Pogen, musicalmente um bom exemplo do estilo Zappa: melodia fluída, decorada com variações, ininterrupta, alternando diferentes padrões e ecoando nas vozes das Mães. Fazem malabarismos entre os tons, quebram as figuras melódicas, enfim, a constante de composição que sempre se mostra convincente. Em “One Size Fits All”, Evelyn, A Modified Dog é uma versão igualmente servil da cadela cibernética, apesar da sua inteligência impulsionada por um forte vocabulário (“Arf!”). A melodia acompanha a letra, com intervalos bem espaçados; uma música curta seguida de San Ber’dino, lembrando o caso judicial em que Zappa esteve brevemente preso em 1965 por ter gravado uma falsa festa erótica. O álbum continua com Andy, uma música funk-jazz com um forte sentido de humor; combinando composições densas e inteligência cínica, ambos atuam em segredo durante o álbum inteiro. Tudo termina em apoteose com o enfático Sofa No. 2, uma peça que encerra o álbum numa nota épica e atemporal.

Com este sofá-álbum, Frank Zappa conseguiu, em 1975, alcançar o conceito de álbum auto-referencial perfeito, sintetizando um número incrível de ideias já presentes em trabalhos anteriores como “Over-Nite Sensation” e “Apostrophe (‘)”, entre letras engraçadas e composições complexas. Uma obra colossal musicalmente impecável, balançando a experimentação com melodias milagrosamente acessíveis. Possivelmente, o melhor disco da última incarnação dos The Mothers of Invention.

João Filipe

Rating: 4 out of 4.

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