“Pagar o leiteiro, entregar-lhe a importância: “— Tome, é o seu dinheiro.” Virar-lhe as costas sem dizer mais nada, sem mesmo querer reparar na sua cara espantada, surpresa e o seu tanto arrependida agora… Outra vida ia começar. Iria direito à caminha do filho, criança brincando com criança. “Se instalaria” na mesa para tomar o café. Tudo era calmo e ao mesmo tempo vivo ao seu redor. A manhã voltava a ter aquele encanto antigo. Seria capaz, bordejando daqui e dali, de ir espiar por cima do muro o amanuense e os seus galos. Depois (horas depois!), a viagem de bonde para a cidade, com a fresca batendo-lhe na cara, aberta e exposta, teria mesmo o encanto duma viagem…”
“Os Ratos”
Se James Joyce fez a sua personagem Leopold Bloom perambular por Dublin em um único dia e fazer dessa saga a incrível e verborrágica trama de “Ulysses“, Dyonelio Machado (1895-1985) faz o mesmo na sua novela “Os Ratos” (Editora Planeta, 2004, 207 páginas). Publicado em 1935, tendo como cenário Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, a obra desenrola-se tendo como meandro uma questão urgente: o nosso protagonista Naziazeno Barbosa é cobrado de forma vexatória pelo leiteiro que precisa de receber os seus cinquenta e três mil-réis.
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