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“Pagar o leiteiro, entregar-lhe a importância: “— Tome, é o seu dinheiro.” Virar-lhe as costas sem dizer mais nada, sem mesmo querer reparar na sua cara espantada, surpresa e o seu tanto arrependida agora… Outra vida ia começar. Iria direito à caminha do filho, criança brincando com criança. “Se instalaria” na mesa para tomar o café. Tudo era calmo e ao mesmo tempo vivo ao seu redor. A manhã voltava a ter aquele encanto antigo. Seria capaz, bordejando daqui e dali, de ir espiar por cima do muro o amanuense e os seus galos. Depois (horas depois!), a viagem de bonde para a cidade, com a fresca batendo-lhe na cara, aberta e exposta, teria mesmo o encanto duma viagem…”


“Os Ratos”

Se James Joyce fez a sua personagem Leopold Bloom perambular por Dublin em um único dia e fazer dessa saga a incrível e verborrágica trama de “Ulysses“, Dyonelio Machado (1895-1985) faz o mesmo na sua novela “Os Ratos” (Editora Planeta, 2004, 207 páginas). Publicado em 1935, tendo como cenário Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, a obra desenrola-se tendo como meandro uma questão urgente: o nosso protagonista Naziazeno Barbosa é cobrado de forma vexatória pelo leiteiro que precisa de receber os seus cinquenta e três mil-réis.

A cidade é provinciana, o fornecimento de leite é feito no lombo de burros e até devido à maioria da população não ter um refrigerador em casa à época, é preciso este abastecimento diário, ferver o líquido e consumi-lo no dia. Enorme comodidade a de hoje, com os leites longa vida adquiridos em caixinhas nos supermercados.

O romancista, contista, ensaísta, poeta, jornalista e psiquiatra brasileiro Dyonélio Tubino Machado

O leiteiro é irredutível: ou tem a dívida paga no dia seguinte ou não derramará o precioso alimento na vasilha. Sai assim o nosso anti-herói tentando arranjar um empréstimo para esta quitação. Na repartição pública em que trabalha, é vexado uma vez mais por um colega, que lhe nega o empréstimo. Percebemos que ele não é um bom pagador e que já está com o nome sujo na praça.

Dyonelio Machado, médico, psiquiatra e de matriz comunista, tendo sido inclusive deputado pelo Partido Comunista Brasileiro, tece uma crítica ao capitalismo, incapaz de prover as necessidades mais prementes de um trabalhador, sendo ele funcionário público. Atormentado por esta dívida, a mente de Naziazeno parece um torvelinho de tentativas, ressentimentos e relações.

Como se não bastasse estar perdido e mal pago, ainda tem como amigos pessoas inescrupulosas e mesquinhas que ainda querem levar vantagem em cima da desgraça dele. Empréstimos eles não conseguem, mas podem intermediar uma negociação numa loja de penhor e empenharem o anel de formatura do nosso desafortunado personagem. Este vale trezentos, mas os intermediadores o informam sobre cento e pouco. Dura vida de negociatas. Perambulando por Porto Alegre, com fome e preocupado com o dia seguinte, eis que ele consegue meter no bolso os sessenta mil-réis. Luxo dos luxos, comemora comprando um pacote de manteiga como iguaria sendo uma festa.

Dyonelio Machado foi um dos mais importantes artistas da segunda geração do Modernismo no Brasil

Chega a casa, deixa a dívida ao lado da vasilha e agora pode dormir o sono dos justos. Embora cansado da longa jornada, satisfeito por ora com o resultado, não consegue pregar os olhos. Entre o sono e a vigília ouve um barulho na cozinha, altas horas da madrugada e antevê que roedores podem estar a roer o dinheiro. Sente-se tão mole que não consegue levantar-se. Somos convidados a compartilhar este leito de indolência até que o ciclo se fecha. Naziazeno ouve o líquido sendo vertido, vozes indistintas na cozinha e apenas a certeza de que havia ganho um refrigério, contudo, a miséria e as dívidas insistiriam em acompanhar a sua atormentada vida.

Uma novela cheia de discurso livre indireto, onde devemos estar atentos para as vozes do narrador e personagem, daí a quantidade de itálico. Boa a edição da Editora Planeta, que não verteu palavras e expressões, deixando-nos com o original e os costumes de uma época que evoca a quase 90 anos. Um livro reflexivo e humano… demasiado humano.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3 out of 4.

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