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Porque A Arte Somos Nós

Certos livros nos chamam. Assentados tranquilamente na prateleira mais alta da minha biblioteca, alguns destes “amigos” nos esclarecem que é chegada a hora de dialogarmos com eles. Um deles, o maçudo “A Semente de Mostarda” (Ícone Editora, 8.ª edição, 2004, 503 páginas), de Osho (1931-1990) me chamou para este debate. E que deleite!

Já havia lido outros dois livros do Osho, onde percebi que em cada sentença soava como o estalar de uma chicotada para o nosso meio de vida ‘besta’ que levamos. Duas me fizeram rir: acerca da idiotia de se passar horas em frente a um aparelho de televisão. Outra a do veranista que vai na estrada e consequentemente trânsito engarrafado para estar no balneário. Vai stressado, volta a stressar e é apenas um turista idiota que tenta esconder a falta de significado da sua existência. Duro, não? Fico a imaginar as críticas de Osho nestes tempos de telemóveis e Inteligência Artificial.

Em “A Semente de Mostarda”, o autor profere 21 discursos tendo como base o Evangelho segundo Tomé, descoberto nas escavações do Mar Morto, evidentemente não admitido pela Igreja Católica, que se apega àqueles que se adequam aos seus próprios interesses. Estes discursos foram coletados pelos milhares de alunos de Osho, ele não escrevia, gostava mais da oralidade e da profunda contemplação para dar vazão aos seus sentimentos.

Rajneesh Chandra Mohan Jain, mais conhecido por Osho

A estrutura de cada discurso é a mesma. Começa com uma parábola evangélica, a seguir a explicação pormenorizada do significado do enunciado, fazendo constantemente a ponte entre as filosofias ocidental e oriental e entremeando com uma história engraçada e interessante que nos entretêm no todo. A escrita é clara e límpida, por vezes a repetição soa cansativa, verdadeiro corolário de palavras, mas compensa. Acaba sempre com um “Basta por hoje“.

Um guerreiro da verdade. Assim sendo, nada institucional. A igreja de Pedro sofre com as críticas contundentes do seu autor. Para quem é lúcido e não deseja tapar o sol com a peneira, é contraditório mesmo um homem como Jesus de Nazaré (0-33) ter ensejado uma instituição tão corrupta (perdoem-me os católicos da Terrinha). Um dos trechos do Evangelho de Tomé supracitado é enigmático:

Jesus disse:

‘Eu sou a luz que está acima de todos,

eu sou o todo,

e o todo veio de mim e o todo me abarca.

Corte um pedaço de madeira e eu estou ali;

erga a pedra e você me encontrará ali’.

Identifiquei-me e reconheci como o argumento do filme “Estigma” (do realizador Rupert Wainwright, 1999), excelente! Afinal, duvido que “sobre esta pedra erguerei a minha igreja” significasse que o Vaticano poderia ter se transformado no banco que é hoje. Ela não recolhe mais o imposto a César. Ela própria é o César! Jesus sempre esteve perambulando ao lado dos desvalidos, das prostitutas, dos marginais. Se voltasse hoje, seria visto como ateu e problemático, um pária da sociedade, certamente um mendigo com o qual cruzaríamos sem lhe dar um pingo de atenção. Olhos fechados como sempre.

Outra crítica contundente de Osho recai sobre a filosofia ocidental e o seu famigerado império da razão e do Iluminismo. Este externo e não condizente com a sua receita de iluminação interna, sendo que para isso seria necessário a saída deste mundo ruidoso. Embora admire Sócrates (470 a.C.-399 a.C.) e teça um elogio a Friedrich Nietzsche (1844-1900), afirmando que o autor de “Assim Falava Zaratustra” endoideceu pelo facto da sua cabeça não aguentar tanta energia, ele relativiza a pretensa soberba acerca da ciência e do conhecimento.

Indo e vindo nas suas análises, sendo bem-humorado em muitas passagens, o autor vai deslindando os seus discursos e convidando-nos a fazer estas viagens internas. Interessante a sua teoria da passagem de Jesus pela Índia, sendo que Krishna e Cristo seriam derivados da mesma raiz e nos faz entender que somos todos livres para sermos os nossos próprios líderes, que somos Deuses alienados que não entendemos as nossas posições (afinal, com tamanha barulheira, a iluminação é para poucos) e à medida em que ia terminando a obra senti um estranhamento e uma mudança. O conceito de pecado original é falacioso e significa apenas o grilhão que a instituição pretende colocar na sua mente.

Osho, além de guru, foi filósofo e místico, tendo fundado o movimento Rajneesh (apelidada também de espiritualidade alternativa)

Aquele amigo na estante não me havia convocado à toa. Como se relativizasse toda a minha figura de intelectual, como se olhasse para todos os meus livros na biblioteca e esta me dissesse: “Deixa de ser idiota, pequeno fruto do racionalismo, saia deste covil e vá viver a vida.” Antes que ficasse maluco, despido de preconceitos, cheguei ao cabo tendo a nítida impressão de que uma crítica não esgotaria o tanto de conhecimento intuitivo que absorvi.

Findo com uma das muitas histórias engraçadas na obra, tendo como personagem um controverso Mulla Nasruddin:

Ouvi dizer que aconteceu certa vez, de Mulla Nasruddin estar encurralado pelos seus credores. Ele tinha pedido dinheiro emprestado a muitas pessoas, e não havia meios de fugir delas. Então, ele procurou o seu advogado. Este, como fazem os advogados, sugeriu:

— Faça uma coisa, Nasruddin, porque não há outra forma: faça um funeral simulado, com você dentro do caixão. Deixe toda a cidade saber que você morreu e, depois, fuja desta cidade. Todos os seus credores saberão que você morreu, e não amolarão mais.

A ideia pareceu-lhe funcional e atraiu-o. Nasruddin arrumou um funeral simulado. Ele ficou dentro do caixão e a cidade toda se reuniu para lhe dizer adeus. O primeiro credor disse adeus com muita tristeza; depois veio o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto… Mas o nono credor puxou de um revólver, agarrou-o e disse:

— Nasruddin, eu sei que você está morto, mas ainda assim eu vou atirar em você, só para ter uma pequena satisfação.

Nasruddin pulou do caixão e disse:

— Peraí! Para você, eu vou pagar, vou pagar!

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 4 out of 4.

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