Assumir as nossas escolhas e decisões no dia-a-dia é fundamental para a construção de uma identidade autêntica e responsável: cada escolha que fazemos, seja grande ou pequena, molda quem somos e como nos apresentamos ao mundo. Desta forma, tal como no jogo, quando nos responsabilizamos por essas decisões aprendemos com os erros e celebramos os acertos, fortalecendo o nosso carácter e auto-confiança. Fugir dessa responsabilidade afasta-nos da oportunidade de crescermos, a nível intra e inter-pessoal, o que nos pode levar a viver de acordo com expectativas alheias. Ao abraçar as nossas escolhas, ganhamos autonomia sobre as nossas vidas e construímos uma identidade mais coerente e fiel aos nossos valores e princípios.
“Life is Strange: Before the Storm” (2017), jogo desenvolvido pela Deck Nine e prequela do aclamado “Life is Strange” (2015), aborda, em larga escala, estas questões. O primeiro jogo introduziu ao público a história (envolvente e emocional) de Max Caulfield e Chloe Price, sendo que, nesta prequela, o foco recai sobre Chloe (Rhianna DeVries), explorando a sua conturbada adolescência, antes dos eventos que envolvem Max e a descoberta dos poderes sobrenaturais no jogo original. O enredo gira em torno do relacionamento entre Chloe e Rachel Amber (Kylie Brown), uma das personagens mais misteriosas do primeiro jogo, oferecendo um novo olhar sobre as suas motivações e vivências.

Um dos elementos mais intrigantes de “Before the Storm” é a ausência de poderes sobrenaturais, que eram fundamentais para a narrativa do primeiro jogo. Max, a protagonista original, tinha a capacidade para manipular o tempo, o que criava dilemas morais complexos e acrescentava camadas de tensão à história. Em contraste, este segundo jogo aposta numa narrativa mais “pés assentes na terra”, onde os desafios são essencialmente emocionais, relacionais e psicológicos. Chloe, na sua rebeldia e dor, enfrenta o luto pela perda do pai, as tensões familiares e a angústia da sua relação com Rachel, uma jovem cuja vida também está amplamente imersa em conflitos.
Ao abandonar os poderes sobrenaturais, o jogo permite uma abordagem mais intimista e visceral das emoções humanas; isto pode ser visto como uma escolha corajosa, pois exige aos jogadores que se conectem com as personagens de forma mais direta, sem o fascínio de reviravoltas impactantes. O sofrimento de Chloe, a sua raiva, as suas inseguranças e o seu desejo por aceitação tornam-se, assim, o centro da experiência, proporcionando uma jornada profundamente empática.

Chloe é, indiscutivelmente, o coração da narrativa de “Life is Strange: Before the Storm”. Se no primeiro jogo ela era uma figura impulsiva e, por vezes, imprudente, aqui temos a oportunidade de compreender melhor as suas motivações e dores. A morte do seu pai e a ausência emocional da sua mãe criam um vácuo na sua vida, e a rebeldia é a forma que esta personagem encontra para lidar com essa perda.
Rachel Amber, a personagem enigmática cuja presença era sentida, mas nunca vista em “Life is Strange”, surge como um contraste perfeito para Chloe: enquanto esta última é o caos, Rachel aparenta ser a perfeição; contudo, fica logo claro que Rachel é também uma personagem profundamente complexa, lutando contra as suas próprias angústias. De facto, a conexão entre as duas vai além da amizade: é uma relação de apoio, mas também de dependência emocional, onde ambas se encontram nas suas fragilidades.
Esta representação de uma amizade tão intensa e multifacetada, que transita entre a cumplicidade e a tensão, é um dos pontos altos do jogo. Desta forma, “Before the Storm” consegue abordar, com sensibilidade, temas como a identidade, perda e auto-descoberta, sem cair em estereótipos fáceis ou soluções simplistas.

Assim como em “Life is Strange”, as escolhas do jogador desempenham um papel fundamental em “Before the Storm”. No entanto, aqui o impacto emocional parece mais tangível, já que as decisões não envolvem a manipulação do tempo, mas sim a maneira como Chloe lida com as suas emoções e relações. As escolhas refletem o seu carácter impulsivo, a sua vulnerabilidade e o desejo de encontrar sentido num mundo que parece, simplesmente, lhe ter virado as costas.
O sistema de escolhas morais, ainda que não seja tão inovador em termos de mecânica, destaca-se pelo modo como obriga o jogador a confrontar as consequências das ações de Chloe. Decisões aparentemente pequenas, como mentir para proteger alguém ou confrontar uma autoridade, podem gerar reações em cadeia que afetam profundamente os relacionamentos e o desenrolar da história. Esta mecânica reforça a mensagem central do jogo: não existe fuga para as dificuldades da vida, apenas a dura realidade em lidar com elas.

A banda sonora deste “Before the Storm” é outra característica que contribui significativamente para o impacto emocional do jogo. Com músicas melancólicas e introspetivas, a trilha, composta principalmente pela banda indie Daughter, amplifica o estado emocional das personagens e a sensação de desamparo e busca por algo maior. A combinação de cenários depressivos e a música que nos acompanha ao longo do jogo, cria uma atmosfera de nostalgia e tristeza que permeia toda a experiência.
O design visual e sonoro do jogo reforça também essa sensação de angústia juvenil e desconexão. Arcadia Bay, a cidade fictícia onde o jogo se desenrola, é retratada como um reflexo das emoções de Chloe: bela, mas cheia de cicatrizes. Os locais, como o ferro-velho onde Chloe passa muito tempo, simbolizam a sua vida fragmentada e os seus esforços para encontrar algo sólido no meio do caos.

Embora alguns possam sentir falta da mecânica de viagem no tempo de “Life is Strange”, a força de “Before the Storm” reside justamente na sua simplicidade narrativa e na exploração das emoções humanas em estado bruto. No fim da jornada, o jogador é deixado com a sensação de ter acompanhado um pedaço crucial da vida de Chloe, compreendendo melhor as razões por detrás da sua transformação no primeiro jogo.
Assim, “Life is Strange: Before the Storm” é um lembrete de que, mesmo num mundo sem superpoderes, as escolhas e as relações que formamos são, por si só, poderosas o suficiente para moldar as nossas vidas e os nossos destinos.
Pelo fascínio de uma boa história.
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