Ao longo da nossa vida, deparamo-nos com uma enorme sucessão de acontecimentos que exigem que façamos escolhas; durante essa jornada, é frequente pensarmos no quanto gostávamos de recuar no tempo e, além de voltar a experienciar certas sensações, poder tomar outro tipo de decisões – sobretudo, aquelas que têm um impacto apreciável no nosso dia-a-dia. Durante esse raciocínio, percebemos que é o facto de não podermos voltar atrás que torna a vida tão interessante: porque, se pudéssemos, nada interessaria, pois poderíamos sempre voltar a tentar; e a verdade é que podemos, mas, na condição de ser humano, voltamos a tentar depois de termos aprendido uma lição – e é isso que faz de nós pessoas mais completas.
Muita desta ideia é explorada em “Life is Strange”, um jogo episódico de aventura gráfica lançado em 2015 pela Dontnod Entertainment e publicado pela Square Enix, que rapidamente obteve críticas positivas e conquistou uma legião de fãs. Com uma história envolvente, personagens profundas e um estilo artístico único, o jogo explora temas complexos, como a amizade, o amor, a perda e a responsabilidade das nossas escolhas. Além disso, permite que a narrativa seja interativa, dando a oportunidade ao jogador de tomar certas decisões, que podem mudar radicalmente o rumo da história. De facto, “Life is Strange” é uma obra memorável no universo dos videojogos, e não é por mero acaso.
A história de “Life is Strange” segue Max Caulfield (Hannah Telle), uma estudante de fotografia que descobre ter a capacidade de voltar atrás no tempo: esta habilidade permite-lhe alterar eventos passados, influenciando diretamente o presente e o futuro. O enredo centra-se, também, na relação entre Max e a sua amiga de infância, Chloe Price (Ashly Burch), e em como as suas escolhas têm impacto na cidade de Arcadia Bay, o epicentro da ação.
Efetivamente, a pureza desta relação guia o jogador numa viagem de descoberta e vicissitudes, com as quais terá de lidar sempre com assertividade, ainda que tenha sempre – ou talvez não – o conforto de tentar um caminho diferente. O jogo está dividido em 5 capítulos, algo que ajuda a saborear, ainda mais, a história (como um todo) e os seus momentos-chave, muitos deles com plot twists simplesmente fantásticos.

O jogo aborda temas universais, como a passagem do tempo e a inevitabilidade das escolhas, de uma forma sui generis e altamente impactante. A mecânica de viagem no tempo funciona, pois, como uma metáfora poderosa para a reflexão e para o arrependimento, temas que são explorados com uma sensibilidade rara e reconfortante. As decisões tomadas pelo jogador têm consequências significativas, muitas vezes moralmente ambíguas, desafiando as noções do certo e do errado, incentivando uma introspeção profunda; é nesta mesma introspeção que está o maior ganho em desfrutar da experiência que “Life is Strange” oferece: percebermos o quão valiosa é a nossa vida, precisamente porque não podemos voltar para trás.
Efetivamente, as personagens de “Life is Strange” são um dos seus maiores trunfos: Max é uma protagonista introspetiva e relutante, cuja jornada de autodescoberta é tanto pessoal quanto universal. Chloe, por outro lado, é impetuosa e vulnerável, servindo como um contraste necessário e como um catalisador para o desenvolvimento (intra e interpessoal) de Max. Deste modo, a dinâmica entre as duas é complexa e multifacetada, representando uma amizade genuína, que é constantemente posta à prova por circunstâncias extraordinárias. É, também, o desafio constante que esta amizade proporciona que leva o jogador a ficar imerso na narrativa, envolvido emocionalmente com a ligação em si e, claro, com o que esta conexão representa.
As personagens secundárias também estão bem desenvolvidas, cada uma com as suas próprias histórias e motivações. Neste sentido, a profundidade dessas mesmas personagens torna as escolhas do jogador ainda mais impactantes, pois cada decisão tem o potencial de afetar as suas vidas e as relações entre elas. Ao nos apercebermos do quão bem escrita está a história, acabamos por dar valor a todos os seus intervenientes, sem criar demasiada dependência para com as nossas duas protagonistas. É muito reconfortante toda a atmosfera que “Life is Strange” cria, na qual, o jogador sente que as suas decisões são todo um meio para atingir um concreto e coerente fim.

Neste ponto de vista, o estilo artístico de “Life is Strange” é deveras distintivo, com um visual que lembra pinturas em aquarela e com o uso intencional de uma paleta de cores suaves. Esta abordagem visual não só contribui para a atmosfera melancólica do jogo, mas também complementa perfeitamente toda a sua narrativa introspetiva. É talvez aqui que o jogo dá um salto qualitativo logo a priori, em relação a outros: o facto de conseguirmos reconhecer perfeitamente os cenários e de, portanto, atribuir a “Life is Strange” uma marca tão sua, tão própria, tão incomparável; isso torna toda a experiência do jogo ainda mais marcante.
Além disso, a banda sonora merece um destaque muito especial: com um conjunto de músicas indie cuidadosamente escolhidas, a sua banda sonora não só define o tom calmo, tranquilo e reconfortante do jogo, mas também aprofunda toda a experiência emocional que o envolve. Canções como To All of You e Obstacles, de Syd Matters, estão intrinsecamente ligadas a momentos-chave da história, criando uma sinergia entre áudio e narrativa que eleva o impacto emocional do jogo. Tudo isto é a prova de que “Life is Strange” é forte e cuidadoso, não só na sua estrutura narrativa, mas também nos detalhes e nos complementos.
Sem dúvida, “Life is Strange” teve um impacto significativo tanto na indústria de videojogos, assim como na cultura pop em geral: demonstrou que os jogos podem abordar temas complexos e emocionais de forma madura e sensível, expandindo as fronteiras do que os videojogos podem realmente ser. O sucesso do jogo levou, por isso, a várias sequelas e spin-offs, solidificando o seu lugar como uma franquia importante. Ademais, apresenta toda uma componente cinematografia que certamente fará inveja a muitos filmes – e isso é muito atrativo para quem gosta de entrar dentro de uma bonita história e, ainda, ter peso no rumo dos seus acontecimentos.

É verdade, por tudo isto, que “Life is Strange” abriu caminho para que outros jogos ‘narrativos’ priorizassem escolhas significativas no seu enredo e que investissem, profundamente, no desenvolvimento das suas personagens. Desta forma, mostrou que há um público ávido por experiências interativas, que vão além da simples diversão, procurando assim histórias que os façam refletir e sentir. E, no capítulo do sentimento e da emotividade, “Life is Strange” dá uma aula de storytelling, algo que contribui – talvez paradoxalmente, tendo em conta a essência do jogo – para valorizarmos, acima de tudo, a viagem que o jogo proporciona e não necessariamente o(s) seu(s) destino(s).
“Life is Strange” é, pois, muito mais do que apenas um jogo: é toda uma experiência emocionalmente impactante, que desafia os jogadores a refletirem sobre as suas próprias vidas e sobre as suas escolhas. É um jogo praticamente sem falhas, que merece todo o reconhecimento que tem, pela sua ousadia de contar uma história tão própria e tão pessoal. Em última análise, “Life is Strange” lembra-nos que, assim como na vida real, as nossas escolhas importam e que o verdadeiro poder está na nossa capacidade de mudar e crescer através delas. Até porque, aqui, o tempo pára, mas a vida, essa, continua.
Pela beleza de uma boa história.
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