OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Quando o ser humano se vê envolvido numa missão colectiva, num objectivo comum, que vai exigir tudo de si (moralmente falando), por vezes, acaba por tentar procurar uma escapatória para essa grande responsabilidade, que é assumir aquilo que se quer, efectivamente, ser. Talvez seja mais cómodo virarmos a atenção para aquilo que nos vai beneficiar mais, ainda que acabemos por revelar toda a nossa desorientação moral. É possível que o verdadeiro segredo esteja num equilíbrio saudável entre sabermos o que somos, humanamente falando, e aquilo que o mundo – exterior e interior – exige verdadeiramente de nós.

“The Departed” (2006), realizado por Martin Scorsese, é um remake do thrillerInfernal Affairs – Infiltrados” (2002), que conta a história de dois homens que vivem vidas duplas: um polícia infiltrado na máfia e um mafioso infiltrado na polícia. O filme explora temas como identidade, lealdade, traição, violência e corrupção, através de um argumento inteligente, de uma realização ágil e de um elenco de primeira linha.

A acção passa-se em Boston, onde o chefe do crime, Frank Costello (Jack Nicholson), recruta Colin Sullivan (Matt Damon), desde criança, para ser seu informante na polícia. Ao mesmo tempo, Billy Costigan (Leonardo DiCaprio) é um polícia recém-formado que é escolhido para se infiltrar no gangue de Costello, por causa da sua origem familiar ligada ao crime. As duas personagens passam a viver sob constante pressão e paranoia, tentando manter as suas identidades secretas e cumprir as suas missões, enquanto se envolvem num jogo do gato e do rato, para descobrir quem é o traidor em cada um dos lados.

Billy Costigan (Leonardo DiCaprio) e Frank Costello (Jack Nicholson)

Esta longa-metragem é um exemplo do talento de Scorsese em criar cenas de ação e suspense, mantendo assim o espectador na ponta da cadeira. A câmara ágil, a montagem rápida e a banda sonora envolvente contribuem para criar uma atmosfera de tensão e urgência. A narrativa também se destaca pelo uso de símbolos e referências culturais, como os ratos, as cruzes, os telemóveis, as músicas irlandesas e as citações de Shakespeare, que enriquecem o filme e enaltecem aspetos relevantes das personagens.

“The Departed” conta com um elenco de peso, o que permite performances memoráveis. Jack Nicholson rouba o protagonismo como o carismático e cruel Costello, que domina o ecrã com a sua presença e as suas frases sarcásticas. Leonardo DiCaprio, por outro lado, mostra a sua versatilidade como o angustiado e corajoso Costigan, que sofre com a culpa e com o medo de ser descoberto. Já Matt Damon interpreta o ambicioso e dissimulado Sullivan, que usa a sua inteligência e aparência para subir na carreira e na vida pessoal. Esta produção conta ainda com as excelentes participações de Mark Wahlberg, Martin Sheen, Ray Winstone, Vera Farmiga e Alec Baldwin, que compõem o elenco de apoio.

Uma das características mais marcantes em “The Departed” é, sem dúvida, a sua narrativa complexa e cheia de reviravoltas: a trama é habilmente construída, mantendo o espectador em constante suspense e surpresa. Em concreto, Scorsese utiliza o caos e a imprevisibilidade para retratar a natureza volátil do mundo criminal, no qual as alianças podem mudar num instante e onde a lealdade é um princípio raro. No entanto, esta boa vertente acaba por ter, no filme, uma importância excessiva, cujo foco devia ser mais direcionado para o lado humano das personagens, que acabam por ser mais um meio para um fim do que propriamente um fim em si mesmas.

Frank Costello (Jack Nicholson) e Colin Sullivan (Matt Damon)

Há que destacar, também, a fotografia de Michael Ballhaus, que é notável, capturando a atmosfera sombria e claustrofóbica de Boston. Assim, a cidade torna-se numa personagem por si só, com as suas ruas sujas e becos sombrios, a refletir a moralidade ambígua das personagens. Além disso, a banda sonora de Howard Shore contribui para intensificar a tensão, adicionando uma camada adicional de suspense à história. Todos estes aspetos tornam o filme tecnicamente brilhante. Contudo, é possível argumentar que “The Departed”, apesar da sua excelência técnica, se pode perder na sua própria complexidade: alguns subenredos e algumas personagens secundárias podem parecer subdesenvolvidas, deixando questões em aberto, sem resposta.

De forma bastante clara, esta obra de género policial não se limita a ser uma história de mero entretenimento, oferecendo uma reflexão crítica sobre a natureza humana e sobre a sociedade. Desta forma, mostra que nem tudo é preto e branco, e que há nuances cinzentas em cada personagem e em cada situação. Ademais, questiona o conceito do bem e do mal, de herói e vilão, de lei e ordem, de justiça e vingança, demonstrando que, por vezes, o preço a pagar pela lealdade é a traição, e que o destino é implacável e irónico.

Importa frisar, ainda, que o argumento suscita questões sobre a glorificação da violência e sobre a romantização do crime: a ênfase na brutalidade e na falta de escrúpulos de algumas personagens pode levantar preocupações éticas sobre como descreve a criminalidade. Todavia, isto acontece porque o retrato da sociedade em questão assim o exigia, e talvez o carácter interventivo esteja precisamente aí, nesse choque de realidades, enaltecendo o lado sombrio, macabro e sem princípios dos protagonistas.

Martin Scorsese, Leonardo DiCaprio (Billy Costigan) e Matt Damon (Colin Sullivan)

O filme, possivelmente um dos melhores trabalhos de Scorsese, arrecadou, inclusive, o Óscares de Melhor Realizador, Melhor Filme, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Edição e Melhor Actor secundário (para Mark Wahlberg). Pode, também por isso, ser considerado um clássico moderno, que, ainda assim, não está isento de falhas e críticas. A maior delas todas, possivelmente, tem que ver com o facto de se agarrar demasiado à vertente curiosa e cómica do seu plot, como uma âncora, sem se conseguir reinventar a dado momento. Além disso, não chega a ser uma narrativa globalmente surpreendente, tentando colmatar, no desfecho, a sua falta de criatividade – “tapando” o buraco da imprevisibilidade da forma mais simples possível.

Assim, “The Departed” é uma obra que provoca reflexão e questionamento, não deixando o espectador indiferente e oferecendo uma experiência cinematográfica intensa e envolvente. De facto, Scorsese mergulha com profundidade no universo sombrio do crime organizado, explorando a dualidade humana, a lealdade e a moralidade, proporcionando assim um ensaio sobre o submundo da moralidade ambígua.

Um filme sobre a natureza sombria e corrompida da alma humana.

Por um cinema feliz.

Tiago Ferreira

Rating: 3 out of 4.

O OBarrete quer continuar a trazer as melhores análises e embarcar em novas aventuras. Clica aqui e ajuda-nos, com o mínimo que seja, a conseguir os nossos objetivos!

IMDB

Rotten Tomatoes

Leave a Reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from OBarrete

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading