Para literatos mais apurados, notadamente romancistas, o género de autoajuda é visto com desconfiança e mesmo desdém. Fórmulas prontas tais como “As 7 Maneiras…”; “As 10 Leis…” ou “Como melhorar o seu desempenho?”, indicam publicações para pegar otários. Desculpem-me já iniciar chutando o balde, afinal, gosto é gosto e há de tudo um pouco, inclusive livros de celebridades, famosos e estes apelativos que prometem melhorar a vida de nós todos, tal como “O Segredo” e similares. Como afirmou certa feita o poeta Claufe Rodrigues, em entrevista concedida à Revista Conhece-te, “hoje em dia até os escritores publicam livros“.
Mente aberta para criticar aquilo que tem de ser criticado, não me furto a ir à fonte e assim adquiri o maçudo “A Lei Do Triunfo”, de Napoleon Hill (1883-1970). Publicado pela José Olympio Editora, a sua 32.ª edição, no ano de 2010, o livro tem 736 páginas. Trata-se de um curso prático de 16 Lições, com o subtítulo “Ensinando pela primeira vez na história do mundo, a verdadeira filosofia sobre a qual repousa todo o Triunfo Pessoal“. A escrita é fluida e ágil, sendo que o escritor tem o mérito de não empolar o seu discurso. Assim, separei para citação:
“A vida não é uma taça para ser esvaziada; é uma medida para ser cheia.” (Hadley)

A seguir: “A imaginação tem sido chamada de poder criador da alma.” Com todo respeito por Napoleon Hill, isso é um cliché que cola feito goma de mascar na sola do sapato. Muito rasteiro, mas vamos citando:
“Em todo o campo de esforço humano, aquele que se destaca como primeiro, tem de viver constantemente à luz da publicidade. Onde quer que se encontre a liderança, sob qualquer forma, a emulação e a inveja estarão sempre em campo.
Na arte, na literatura, na música, e na indústria, a recompensa e o castigo da liderança são sempre os mesmos. A recompensa é o reconhecimento geral; o castigo é a negação e a calúnia.
Quando o trabalho de um homem se torna um padrão para todo o mundo, torna-se também alvo para as arremetidas dos invejosos. Se o seu trabalho é apenas medíocre, ninguém se importará com ele, mas se conseguir realizar uma obra-prima, um milhão de faladores se preocuparão com ele.“
Mais adiante:
“Vozes mesquinhas se ergueram contra o autor da ‘Filosofia da Lei do Triunfo’, antes mesmo da tinta secar nos primeiros compêndios impressos. Penas envenenadas trabalharam contra a filosofia e o seu autor, desde o momento em que foi impressa a primeira edição.“
Bom, esta última passagem foi escrita pelo próprio, usando a 3.ª pessoa. Uma lição que aprendi com Friedrich Nietzsche (1844-1900) é que o ressentimento é um ódio que vamos cozinhando aos poucos. Assim, Hill revela a sua fraqueza ao sentir o golpe das críticas e, pior, fazer propaganda de si mesmo, pois, arrogantemente, arvora para si a excelência e esquece-se do básico: perdemos a autoria quando a obra é publicada. Ela é e sempre será dos leitores, a partir das suas interpretações. É indiferente qualquer resposta do autor.
Mas antes que julguem que estou de má vontade com Napoleon Hill, muito pelo contrário. As suas lições sobre aparência física são valiosas. Trabalhando ele com anúncios e publicações, entendia que mesmo sem um tostão no bolso não poderia desleixar a sua aparência. Convenceu o alfaiate a conceder-lhe um crédito e foi todo vistoso para a reunião com um possível patrocinador. Obviamente que o retorno financeiro veio e o fato foi pago (ainda com gorjeta).
Sobre numerações e dicas, Hill explica-nos os 7 Cavaleiros que devemos combater: Intolerância; Avareza; Vingança; Egoísmo; Suspeita (Ciúme); Protelação e Desonestidade.
Dá-nos conselhos sobre economia pessoal, você não pode gastar mais do que ganha (preceito básico) e exorta o Pensamento como na seguinte passagem:
“Passamos pela idade da pedra, a idade do ferro, a idade do cobre, a idade do fanatismo religioso, a idade das pesquisas científicas, a idade industrial e agora entramos na era do Pensamento.“

Muitas editoras, estrategicamente, passaram a publicar “A Lei do Triunfo” em partes. Certamente, alcançou muito mais gente, principalmente aqueles que se assustam com um volume que pesa um quilo. Bom ou péssimo, não precisamos de chegar a este extremo. Percebi, após vários apontamentos e sublimações no meu volume, que pegando-o agora ao acaso consigo extrair coisas boas e mesmo algumas certezas óbvias que vez ou outra é preciso reler. Lendo sem preconceitos, reconheço o mérito do autor que criou o segmento ‘Autoajuda’ como género literário.
Bom publicitário, notadamente exortando a si mesmo, com a autoconfiança lá em cima, Hill foi espelho dos seus pensamentos e certamente ajuda até aos dias de hoje muitos fracassados de espírito. Como não poderia deixar de ser, finalizarei aqui com uma citação. Bastidores: irei abrir ao acaso e vamos ver no que dá:
“Todos os homens são por natureza polígamos. Essa verdade será sem dúvida contestada pelos que já são idosos demais para funcionar sexualmente, de maneira normal, ou que tenham por uma razão qualquer perdido o conteúdo de certas glândulas que são responsáveis pela tendência do homem para a pluralidade do sexo oposto.“
Assim, os meus comentários finais. Acho que perdi a minha glândula. Mulherio, não fiquem com raiva deste que vos escreve. Abri ao léu. E dá para perceber que este Napoleon Hill trata de tudo. E fá-lo quase sempre bem.
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