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Por vezes, só nos momentos de dificuldade, quando vemos que podemos perder algo que não valorizámos devidamente num ou outro momento, é que a realização da importância que isso tem para nós vem, realmente, ao de cima. Isto não significa que o sentimento não esteja connosco, mas existem certos momentos em que é importante expressarmos algo, por mais que já o tenhamos feito antes e que seja um dado, mais ou menos, adquirido. Esta reflexão está muito bem explorada no mais recente filme da franquia de “Wallace & Gromit“, “Vengeance Most Fowl”, estreado o ano passado.

Esta produção marca o aguardado regresso das icónicas personagens Wallace (voz de Ben Whitehead) e Gromit, numa aventura que combina humor, nostalgia e uma crítica subtil à dependência tecnológica contemporânea. Realizado por Nick Park e Merlin Crossingham, esta longa-metragem de animação stop-motion faz retomar a excelência da artesanal característica da Aardman Animations.

O enredo centra-se no regresso do astuto pinguim Feathers McGraw, vilão da aclamada curta-metragem “The Wrong Trousers” (1993), que procura vingança contra Wallace e Gromit. A narrativa desenrola-se quando Wallace, que passa por dificuldades financeiras, cria um robot gnomo de jardim chamado Norbot (voz de Reece Shearsmith). Com isto, Feathers McGraw, preso num jardim zoológico por ter tentando roubar um diamante da casa de Wallace e Gromit, desenvolve um plano, envolvendo Norbot, para conseguir escapar e recuperar esse mesmo diamante.

Feathers McGraw

Sem dúvida que a animação em stop-motion continua a merecer um destaque especial, com sequências de ação que rivalizam com produções de grande orçamento. Por exemplo, uma das cenas finais, de perseguição, é particularmente notável, demonstrando toda a habilidade da equipa por detrás de “Wallace & Gromit: Vengeance Most Fowl” em criar momentos emocionantes e visualmente impressionantes.

Mais uma vez, a Aardman Animations demonstra toda a sua maestria na técnica de stop-motion através da riqueza dos detalhes, da fluidez dos movimentos e da expressividade das personagens, aspetos que combinados são simplesmente impressionantes. Desta forma, a animação quase que se torna numa personagem à parte, complementando a narrativa e contribuindo, e muito, para a atmosfera cómica e peculiar do filme.

Uma das facetas mais marcantes do argumento é, sem dúvida, a forma como este aborda a relação entre tecnologia e natureza. Wallace, sempre um inventor otimista, cria um robot, Norbot, com o objetivo de melhorar a vida dos cidadãos de West Wallaby Street. No entanto, esta máquina, destinada a ser uma solução benéfica, rapidamente se transforma numa ameaça, refletindo as preocupações modernas sobre o uso descontrolado da tecnologia e sobre a consequente degradação ambiental. A crítica aqui é clara: o progresso tecnológico, sem consideração pelo impacto ecológico, pode ser desastroso – e isso está muito bem espelhado na obra.

Wallace (voz de Ben Whitehead), Norbot (voz de Reece Shearsmith) e Gromit

Decerto, estamos perante um filme muito humano, com dois protagonistas marcantes, cheios de amizade e resiliência. Além disso, a jornada que “Wallace & Gromit: Vengeance Most Fowl” nos propõe é repleta de desafios interiores e de um humor que merece ser elevado. A personagem de Feathers McGraw traz, precisamente, esse grau elevado de entretenimento, através dos seus maneirismos e expressões. Tal como ele, Gromit não comunica verbalmente, mas nem precisa de o fazer, pois a maior e mais autêntica comunicação acontece através do seu olhar.

O humor físico é uma das marcas registadas da franquia e está bem presente neste “Wallace & Gromit:Vengeance Most Fowl”. Além disso, a obra consegue explorar nuances mais emocionais, como a solidão de Wallace e a lealdade incondicional de Gromit: toda esta combinação de comédia e drama confere ao filme uma profundidade que surpreende e que agiganta o seu impacto.

Uma das principais temáticas é, também, a crítica feita à crescente dependência da própria tecnologia (além da sua ameaça ambiental). A invenção de Wallace, Norbot, inicialmente pensada para lhe facilitar a vida, acaba por se tornar numa grande ameaça. Deste modo, a crítica em questão é subtil, mas eficaz, e convida-nos a refletir sobre a nossa própria relação com os meios tecnológicos. Em contraponto, a amizade entre Wallace e Gromit representa a importância das relações humanas e a procura incessante por autenticidade, num mundo cada vez mais artificial.

“Wallace & Gromit: Vengeance Most Fowl” (2024)

Neste ponto, importa destacar a personagem de Gromit: enquanto que Wallace se vê envolvido em problemas com frequência, devido à sua ingenuidade e à confiança excessiva nas suas invenções, Gromit, sempre o fiel e astuto cão, consegue salvar o dia graças à sua sabedoria e perspicácia, mesmo sem comunicar verbalmente. Esta relação simboliza, profundamente, a necessidade de equilíbrio entre inovação e prudência, e o valor inestimável do apoio mútuo em tempos de crise.

Desta forma, toda a história é muito pura e envolvente, apesar de contar com alguns lugares-comuns que não o permitem chegar à excelência: poder-se-á dizer que faltou uma maior complementaridade nos desafios dos quais os nossos protagonistas foram alvo, e também uma maior continuidade nas cenas de maior grau emotivo, como é o caso do clímax narrativo. Contudo, “Wallace & Gromit: Vengeance Most Fowl” proporciona uma experiência, toda ela, nostálgica e reconfortante, depois de 19 anos da longa-metragem anterior, através de um argumento belo e emotivamente audaz. Este facto muito se deve à personagem de Norbot, que enriquece tremendamente a narrativa, e de Wallace, que aparece em todo o seu esplendor.

Em suma, “Wallace & Gromit: Vengeance Most Fowl” oferece-nos uma experiência cinematográfica que equilibra humor, nostalgia e uma reflexão pertinente sobre a tecnologia, solidificando o legado duradouro de “Wallace e Gromit” no panorama da animação. Além disso, funciona como celebração da criatividade e da amizade, em forma de um lembrete: mesmo num mundo dominado pela tecnologia, a humanidade continua a ser o nosso maior tesouro.

Por um cinema feliz.

Tiago Ferreira

Rating: 3 out of 4.

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