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Mantendo a cadência de cerca de dois anos entre lançamentos, “Hitman: Contracts” chegou aos fãs da série Hitman em meados de 2004. O terceiro jogo da franchise a cargo da IO Interactive estava inicialmente planeado como sendo o último jogo de uma eventual trilogia. Contudo, por pressões da distribuidora Eidos Interactive, a equipa de desenvolvimento foi dividida em duas forças de trabalho. Uma delas a trabalhar em “Hitman: Blood Money” (que viria a sair em 2006); a outra, responsável por “Hitman: Contracts”.

Esta alteração de estratégia posicionou “Hitman: Contracts” como um lançamento de transição na série, um jogo mais compacto que servisse para adoçar a boca dos fãs enquanto o grandioso “Blood Money” teria o tempo necessário para ser desenvolvido (desengane-se quem pense que este tipo de problemas apenas existe nos tempos atuais).

Esta abordagem de criar uma história mais contida, tornou a narrativa de “Contracts” bastante diferente das dos predecessores. O jogo começa cerca de um ano após os acontecimentos de “Hitman 2: Silent Assassin“, quando o Agente 47 é baleado e fica gravemente ferido após uma missão em Paris. Apesar de ter conseguido escapar para o seu quarto de hotel, 47 fica em estado quase inconsciente e começa a refletir sobre várias missões que executou ao longo dos anos.

“Hitman: Contracts” começa após uma malsucedida missão do Agente 47

Ao longo de 12 missões, é possível ter um vislumbre de contratos que 47 levou a cabo durante o seu tempo a trabalhar para a International Contracts Agency, incluindo (como é hábito) um variado conjunto de localizações como Roménia, Roterdão, Budapeste ou Hong Kong. Um aspeto curioso, que se alinha com a vertente menos ambiciosa do jogo, é que algumas das missões de que 47 se recorda e que fazem parte do jogo são, na verdade, remakes de missões de “Hitman: Codename 47“.

Seis das 12 missões representam adaptações de missões que já serão familiares para os fãs da saga, embora em algumas tenham sido feitas adaptações. Muitas vezes aproveitando apenas o alvo e a sua backstory, mas mudando a localização, noutras vezes combinando duas missões de “Codename 47” numa só.

Esta decisão, aliada ao facto de “Contracts” ser o jogo da série com menos missões até então, poderá ser algo desapontante para os fãs mais hardcore, principalmente para aqueles que já jogaram “Codename 47” (torna-se importante lembrar que este primeiro jogo não foi propriamente popular e é, de longe, o menos conhecido de toda a franquia). Poderá ser feito um desconto se tivermos em conta o já mencionado aspeto menos ambicioso de “Contracts”, bem como a pressão para continuar com os lançamentos bianuais.

Metade das missões de “Hitman: Contracts” são adaptações de missões de “Hitman: Codename 47”

Com os pequenos momentos cinemáticos entre missões apenas a dar vislumbre de uma pequena narrativa que mostra ter como principal função estabelecer conflito para jogos futuros, é nos momentos jogáveis que “Hitman: Contracts” se procura destacar. Depois de “Hitman 2: Silent Assassin” ter corrigido muitos dos erros do primeiro jogo, “Contracts” continua o bom trabalho de dar ao jogador todas as ferramentas possíveis para que este possa não só chegar ao objetivo de eliminar os alvos, como também ter incentivo para repetir as missões.

“Contracts” mantém o arsenal variado, a possibilidade de usar disfarces, e os níveis diferenciados e com diferentes possibilidades de serem levados a cabo (característicos de toda a série). De “SIlent Assassin” é herdado (e bem) o sistema de saves limitados e os rankings de missões, sendo que a famosa Sniper Case retorna após ter estado ausente do segundo jogo.

Um detalhe característico de “Contracts” é a atmosfera muito mais sombria, reforçada por cenários exclusivamente noturnos em todas as missões (mesmo nas que foram adaptadas e que no jogo original eram passadas em horário diurno), bem como a banda sonora de Jesper Kyd, possivelmente a mais bem conseguida até então, trocando o habitual som clássico pelo eletrónico. Alguns detalhes procuram dar uns contornos de thriller psicológico ao jogo, como a presença de fantasmas em certos momentos da narrativa, aludindo ao passado sombrio do Agente 47.

“Hitman: Contracts” é o jogo mais sombrio de toda a saga e aquele que mais se aproxima de um thriller psicológico

Algo que é também mantido em “Hitman: Contracts”, com alguma frustração à mistura, é o peculiar sistema de deteção que faz com que 47 possa ser descoberto mesmo que esteja disfarçado. Apesar de tudo, este sistema é muito mais consistente e realista, algo que pode ser reinterpretado mais como uma camada adicional de desafio do que desleixo do próprio jogo. 47 pode efetivamente ter o seu disfarce descoberto, contudo, isto só acontecerá quando o jogador efetuar ações inconsistentes com o papel que está a interpretar, como correr excessivamente, usar armas que não fazem parte do arsenal da personagem, ou andar em modo de furtividade.

É um sistema que desapareceria em jogos futuros, mas que em “Contracts” a consistência e reconhecimento por parte do jogo (em certos níveis, o facto de este sistema de deteção ser mais rigoroso obriga a estratégias mais criativas) fazem com que não seja, ao contrário de “Silent Assassin”, um dos pontos negativos da experiência.

Os verdadeiros pontos negativos serão possivelmente a escala mais reduzida do jogo, que contraria o crescendo de dimensão da saga. O facto de a segunda metade do jogo ser apenas constituída por missões reimaginadas de “Codename 47”, diminui algum do desafio para quem já as conhece. Estes desafios, apesar de terem mudado alguns dos elementos, certas vezes fizeram-no para pior, pois foram removidos alguns dos momentos mais icónicos das missões originais.

Em particular, a última secção de Hong Kong, composta por quatro sub-missões mais restritas e lineares (em oposição a missões individuais em localizações mais complexas) retiram alguma da pujança da primeira parte do jogo e dão a entender, mais uma vez, que a equipa de desenvolvimento não terá tido o tempo ou recursos suficientes para limar todas as arestas.

“Hitman: Contracts”, apesar das falhas, mostra ser um passo na direção certa para a franquia Hitman. Por ser o jogo mais rejogável até então, e aquele que mais facilmente trará os jogadores de volta às missões para tentar obter o famoso rank de Silent Assassin, “Contracts” mostrou que, mesmo em 2004, esta era uma franquia constantemente a ganhar ímpeto e sempre focada em melhorar a experiência dos seus jogadores.

Disponível em: PlayStation 2, Windows, Xbox

Luís Ferreira

Rating: 3 out of 4.

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