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Porque A Arte Somos Nós

“Três coisas conduzem a Deus: A música, o amor e a filosofia.”


Plotino

Comumente, classificamos em quatro os períodos da História da Filosofia Ocidental: Clássica; Medieval; Moderna e Contemporânea. Do primeiro ao segundo, associamos acertadamente os ensinamentos dos fundadores do pensamento (Sócrates, Platão e Aristóteles) às interpretações religiosas medievais de Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, com o mundo ideal platónico associando-se ao céu cristão, na religião fundante que bebe muito na fonte do judaísmo. Obviamente que fazemos estas classificações para obtermos um critério e método, mas é importante irmos preenchendo aos poucos outros ensinamentos, outras escolas e formas de se ver o mundo.

Se a Filosofia tem uma génese europeia, e até contextualizando, aqueles que nasciam nos domínios do Império Romano à época eram considerados cidadãos romanos, mas o certo é que Plotino (205-270), nascido no Egito, mais precisamente em Licopólis, com atuação na afamada Alexandria, será um entreposto importante e um estudioso que interpretará muitas das teorias de Platão e que influenciará Agostinho com a sua “cidade dos homens e cidade de Deus”. Neoplatonismo é a escola pela qual ficou conhecido Plotino.

Estátua do filósofo Platão

Ele adaptará o mundo inteligível e o mundo sensível de Platão e atribuirá ao Nous (intelecto) a unicidade daquilo que é perfeito. Todos os homens devem caminhar nesta direção, mesmo estando no estágio da alma do mundo, das nossas vicissitudes e fraquezas. Aquele que busca a contemplação e o entendimento filosófico estará sempre no ideal de aperfeiçoamento, fazendo a metáfora do Sol como sendo esta perfeição, no que toca à emanação da luz e, quanto mais perto estivermos dele, mais sentiremos essa iluminação. Certamente, quanto mais afastados, mais sombras e ignorância pairarão sobre nós.

Estão dizendo que tudo o que vemos tem um pouco de mistério divino. Mas o ponto mais próximo em que nos encontramos de Deus é dentro da nossa própria alma. Só lá é que nos podemos reunir com o grande mistério da vida. De facto, em alguns raros momentos podemos sentir que somos, nós mesmos, este mistério divino. Desta forma, cada um pode entender a palavra ‘divino’ como bem quiser.

Perceberão pelo pensamento acima que este Nous (mistério divino) é uma centelha que já nasce connosco, mas ocorre uma alienação e uma queda, cabendo a nós essa retoma em busca do nosso ideal de vida. Observa-se aqui um sentido místico desta busca, e ao aplicarmos esta filosofia aos nossos dias atuais é convidativo uma ascese para sairmos destas questiúnculas comezinhas, desses sentimentos ruins e pequenos que nos fazem permanecer nas sombras. Muitos almejarão o consolo religioso, explico aqui que quando ele alude a mistérios divinos, luz, desígnios, está a convidar ao filosofar e à contemplação. Entendemos que a natureza humana está no eterno conflito entre o almejado princípio de unidade e as afeções que nos causam uma série de perturbações.

Plotino com seus discípulos / Wikipédia

Com pensamentos esparsos obtidos da sua principal obra, “As Enéadas“, o certo é que encontraremos pérolas que nos indicarão caminhos, e é muito emocionante observarmos que da Academia (a lendária escola fundada por Platão que ainda existia à época de Plotino) continuarão a oferecer teorias e a consolidar o saber. O termo neoplatonismo é decorrente destas interpretações, mas observamos que Plotino inovou pouco nas teses do seu mestre. Obviamente que rótulos são por vezes superficiais e auferidos certamente por outros, mas é importante ressaltar a originalidade dos enunciados, tais como este:

Quando encontramos o eu assim purificado e o vemos como uma única radiação, uma radiação imensurável… É chegada a visão. Mesmo aqui em baixo, atingiremos as alturas e não precisaremos mais de orientação.

Ajustando à nossa época, é sabido que a todo o momento necessitamos de orientação de forma a combatermos as trevas existentes em nós. Da mesma forma que a Alma Bela de Platão (não cabe aqui nenhuma modalidade religiosa) decaiu da sua carruagem e se perdeu entre o mundo sensível, Plotino entende essa alienação como uma busca constante e, quanto mais buscarmos, se não almejarmos o pretendido, ao menos a nossa conduta de vida será mais sábia e bela. Um pensador interessante e que tem muito a dizer-nos ainda nos dias de hoje. Despeço-me com mais um pensamento:

Ensinar é indicar o caminho, mas na viagem cada um vai ver o que quiser ver.

Marcelo Pereira Rodrigues

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