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Porque A Arte Somos Nós

Quando estava na faculdade, iniciada no ano de 1998, comprei um telemóvel em segunda mão. Era um tijolão da Motorola e tinha que levantar uma anteninha plástica para o sinal o ser melhor. À época, era tido como a revolução e a diferenciação entre a comunicação fixa e móvel. Quando recebia um telefonema, era um acontecimento. Eram raros.

Esses primórdios fazem-me ficar saudosista, num tempo em que tínhamos tempo para as coisas mais importantes, que significasse estudar, trabalhar, namorar, assistir a um filme e ler um livro. E lembrar que no campo da comunicação tinha o hábito de escrever cartas. Estas eram seladas e postadas no correio, e o quanto me fazia feliz receber as cartinhas em papel perfumado da namorada que vivia a 22 quilómetros de distância.

Antes que me acusem de velho (está bem, devo ser, 47 anos), a minha perceção é que os telemóveis atualmente transformaram a nossa vida num inferno! Atrelado às famigeradas redes sociais (ou seria antissociais?) a dispersão é garantida nas inúmeras e inúteis notificações que recebemos. A cor vermelha não deve ser entendida como casual. Em “Minha Luta“, Adolf Hitler já conclamava os seus asseclas a utilizarem-na nas suas peças de propaganda. Fiquem próximos de um telemóvel e serão constantemente admoestados por apitos, trinados, latidos e gemeções. Está certo, exagero um pouco.

Um dia destes, li um post de Facebook de Edney Cielici Dias onde afirmava a dispersão generalizada das pessoas que não conseguem mais reter informações. Se chegar a um talho e pedir seis pães e um litro de leite, após ouvir, a atendente o questionará: “Seis pães?”. E após empacotar, irá perguntar o que deseja mais, pois já se esqueceu do leite. Acontece com vocês? E vocês, são dispersivos assim também?

Acredito que estes zombies estão no trabalho com a cabeça num outro lugar. Provavelmente questionando se a foto que postaram no pequeno almoço bombou o suficiente e medindo quantos likes amealharam. Também curiosas para bisbilhotarem a vida do próximo, da celebridade do momento e das futilidades inerentes. O Facebook tem franquias diabólicas de extensão, tais como o Instagram e o WhatsApp (está certo, eu utilizo o necessário, mas tenho tentado ficar ao máximo longe dessas parafernálias).

O “curtir” do Facebook foi problematizado pelo romancista norte-americano Jonathan Franzen, no seu livro de ensaios “Como Ficar Sozinho” (2002). Neste, ele relativiza o termo comum, explicando-nos que curtir demanda tempo, daí a curtição do couro dos bois, e não esta ação rápida de um clique numa publicação. Coaduna com o pensamento do sociólogo Zygmunt Bauman e a sua modernidade líquida.

O sociólogo e filósofo polaco Zygmunt Bauman

Num artigo escrito para a Revista Conhece-te, em dezembro de 2018 (edição n.º 214), intitulado “Sobre berços com teto de vidro”, Felipe Melo explicou o vício das redes sociais como problema de saúde pública. Os especialistas em Inglaterra detetaram a síndrome chamada FOMO, Fear of Missing Out, Medo de Perder Alguma Coisa, em tradução livre. Elucidativo!

Pois é exatamente isso que estamos a observar na nossa atualidade. O mundo como o concebíamos já não existe mais. De modo que é necessário um brado de revolta e desconectarmo-nos o máximo de tempo possível. Obviamente que para os profissionais que trabalham com comunicações e atendimento ao cliente isso não é optativo, mas após a hora do expediente conquiste a sua liberdade DESLIGANDO o maldito.

No dia seguinte, tomará conhecimento de todas as notificações, do amigo desesperado e ansioso por um like, dos telefonemas retorne e observará que podemos sim viver sem sermos incomodados a todo o momento por essas inconveniências. Enquanto escrevo este texto, o telemóvel está num outro cómodo, costumo esquecê-lo lá por horas e assim, acredito, podemos retornar a um modo e estilo de vida mais sadio, com concentração e foco para lermos um livro, assistirmos a um jogo de futebol, fazermos amor e brincarmos com os nossos animais de estimação.

Assistindo ao noticiário, fiquei a saber que o todo poderoso da Rússia, o temido Vladimir Putin, não usa smartphone, não tem redes sociais e nem um mísero telemóvel. Ex-agente da KGB e confesso soldado da antiga URSS, parece pressentir a fragilidade e a exposição desnecessária a que todos nós somos submetidos, algemando-nos de bom grado e afundando-nos nas cavernas da ignorância, na mesma aceção de Platão.

Se a diferença entre o remédio e o veneno é a dose, cuidemos para que nossa dispersão não atinja níveis debilóides, a ponto de chegarem a este final de texto e se questionarem: “Sobre o que é mesmo?”…

Marcelo Pereira Rodrigues

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