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“Fat City”, em português “Cidade Viscosa“, é um filme de 1972 realizado por John Huston, e foi-me sugerido pelo editor deste site, Diogo Vieira. Agradeço-lhe por demais a indicação. Protagonizado por Stacy Keach, Jeff Bridges, Susan Tyrrell e Candy Clark, este drama de 1h40min é reflexivo e instigante. Um pugilista que era para ter sido e não foi (Billy Tully, interpretado por Keach na casa dos 30 anos) vive numa pensão barata que mais se assemelha a um pulgueiro.

Este trabalha em laranjais como mão de obra barata e descartável, e a dizer que ser descartável é a primeira condição nesta visão do mundo cinza do seu realizador. Essa autêntica “Cidade das Ilusões” não permite o sucesso, apenas retrata decadências ambulantes existenciais que traduz um pouco toda essa falta de perspetivas.

Numa academia de boxe paupérrima, a Lido Gym, com alunos despreparados e instrutores acomodados, o pouco de ilusão que poderia caber ao jovem Ernie Munger (interpretado por um rapazinho Jeff Bridges) é levada à lona em duas derrotas que fazem ver que o seu futuro na categoria é incerto. Incerto do mesmo modo que fica grogue após levar uma surra num desses combates. Algo do género: quem sou eu, de onde eu vim, vejo quatro dedos ao invés de cinco e onde é que eu estou. Tipo um guarda-redes a ser driblado pelo Messi.

Stacy Keach (Tully) e Susan Tyrrell (Oma)

Mas resta sempre o bar. Ambiente também ordinário salvaguardado por uma jukebox, a dizer que a banda sonora é estupenda (composta por Kris Kristofferson, Marvin Hamlisch, Kenneth Hall), fez-me até lembrar a pastelaria descrita no romance de Jean-Paul Sartre, “A Náusea“, onde Roquentin compreende metafisicamente que a música é a única permanência neste mundo sem sentido. Bar significa bebida, é no confessionário do copo que o indivíduo reflete as suas dores e deceções.

Oma (interpretada por Susan Tyrrell) é uma daquelas mulheres que ficam ali expostas, sempre bêbada e no flirt com outros homens, tendo um amante preso pela polícia. O encontro dela com Tully é incrivelmente desesperador, e o almoço com bife, ervilhas e Ketchup, sendo que ele ainda bebe um copo de leite, é de fazer corar qualquer nutricionista sério. Nem a mulher conseguiu dar um jeito no pardieiro, pelo menos arrumou o guarda-roupa, mas a limpeza da espelunca deixa muito a desejar.

Assistindo a este filme, tive curiosidade em saber mais acerca do seu realizador. Hoje já é clássico assistir a uma película de 1972 (não havia nascido ainda), o cenário e a fotografia são quase a preto e branco de tão cinza que se apresentam, sabia de John pelo facto de ser pai de Anjelica, a figura de “A Família Adams” (1991), e na biografia que li sobre Jack Nicholson, aparece a figura de John.

Jeff Bridges (Ernie)

Posso estar equivocado, mas pareceu-me de caráter semelhante ao do escritor Ernest Hemingway (1899-1961), que era sobremaneira homem ao invés de mero escritor. Soube dos diversos filmes de Huston odiados pelos críticos, que viram desleixo e uma certa impaciência para levar a trama, e quem sabe este “Fat City” também não é auto confessional aludindo às disputas que parecem permear todo o nosso ambiente? Huston também era um apaixonado por boxe.

O mais interessante na obra é que a redenção não aparece nunca e nem na relação aluno-aprendiz isso acontece, uma vez que sentados a beber café servidos por um idoso oriental que lhes sorri como todo bom oriental, num espaço também ordinário e sujo, o close-up nos grupos de indivíduos que ali estão, o certo é que sobrará reflexões para esse diálogo intimista com a bebida e a constatação de que vitórias não alcançam toda a gente.

Um filme estupendo com toda a sua carga dramática, sem apelar a um final reconciliador.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 4 out of 4.

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