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Em “Uma questão pessoal” (Editora Companhia das Letras, 2003, 222 páginas), o romancista japonês Kenzaburo Oe apresenta-nos a história de Bird, um homem com os seus 27 anos, professor de um curso que gosta de tomar umas e outras, de apelido Bird, que está com a sua mulher no hospital à espera do primeiro filho, sendo que desde o início dá para sentir que ele preferiu a fuga de forma a escapar ao ambiente do hospital e da maternidade.

Está numa loja a admirar uma coleção de mapas (ele era obcecado por geografia e mais ainda pelo sonho de viajar até África) e aqui faço uma divagação acerca da síndrome do estrangeirismo: indivíduos que residem num país e sonham com lugares e países distantes. Acontece com alguns de vocês? Tipo assim: estou no Brasil e sonho morar em Lisboa. Converso com um amigo que mora na Cidade das Sete Colinas e ele sonha morar em Paris. De repente um parisiense sonha morar em Melbourne. E um chinês residente em Pequim pode sonhar viver no Rio de Janeiro. Vá-se lá entender!

Como desgraça pouca é “bobagem”, a criança nasce com uma hérnia cerebral e os médicos nutrem pouca esperança. O pai enfim se dirige ao hospital e encontra-se com os sogros, percebe que o caso do filho é tratado com frieza e até na forma de se referirem a ele, o termo menos pesado é anomalia. Tratado como uma coisa, o bebé vira cobaia de observadores e Bird ressente-se daquilo tudo. Se entre a vida e a morte a linha é ténue, intimamente deseja que o filho não se consiga salvar das suas operações. A mãe, claro, está internada e Bird percebe que a sua presença ali se pode restringir ao horário de visitas e logo se desobriga de ali estar.

É quando encontra Himiko e se refugia no apartamento dela com uma garrafa de uísque. Afinal, ele estava a passar por uma situação complicada e nada como o sexo e a bebida para nos fazer esquecer. A frieza da sua perceção pode irritar os adeptos do politicamente correto, ainda mais nos dias de hoje, onde a sinceridade perdeu espaço para as normas e convenções. Ao longo das páginas, vamos descobrindo o caráter infantil do protagonista, se bem que devemos ter em conta que alguns traços culturais diferem do Ocidente para o Oriente.

Mas compreendi que o mundo dos mapas, dos sonhos de viagens a África oferecem mais conforto do que a responsabilidade de ter que trocar uma fralda, e a ver que ele também não parecia muito entusiasmado no casamento. Mesmo sendo um drama, captei traços de humor refinado na narrativa, a ler a parte mais engraçada que separei de forma a um aperitivo.

O escritor japonês Kenzaburo Oe

A criança sobreviverá? Não deixem de ler este romance do laureado Nobel de Literatura do ano de 1994, e aqui vale o registo surpreendente acerca da realidade e ficção, leiam e depois procurem dados sobre a sua biografia e o seu drama pessoal. Escrito em 1964, este livro é uma peça literária de destacado valor.

Trecho do livro:

Pela porta de vidro totalmente aberta entre o banheiro e o quarto, Bird pôde ver a amiga sentada de costas na privada. Tinha uma jarra grande numa das mãos e, com as pernas bem abertas, lavava vigorosamente a vagina. Bird observou-a por algum tempo, imaginando ser aquele um hábito aprendido em relações sexuais com estrangeiros. Depois, voltou outra vez os olhos discretamente para o seu ventre e pénis, enquanto esperava por ela.

— Hoje é um dia em que corro risco de engravidar, Bird. Você está prevenido? – perguntou Himiko, terminando o banho, entretida em enxugar com uma enorme toalha os respingos d’água que lhe molhavam a região do peito.

— Não, não me preveni.

Mas a palavra engravidar, como espinho ardente, cravara-se fundo no ponto mais delicado do seu interior. Bird soltou um gemido triste. O espinho se introduzira até os órgãos e continuava a queimar.

— Então vamos dar um jeito – disse Himiko depositando a jarra sobre o assoalho com um barulho de bate-estacas e voltando para junto de Bird, ainda a esfregar o corpo com a toalha de banho.

Com uma das mãos, Bird escondeu o pénis, completamente encolhido, escuro e flácido, e disse, envergonhado:

— Murchou de repente, Himiko. É verdade, agora não tem mais jeito!

De pé, ela olhava para o amigo, respirando com força, cheia de saúde. Parecia querer adivinhar o que havia por trás das palavras de Bird, enquanto com a toalha continuava esfregando as virilhas e o espaço entre os seios. O cheiro do corpo de Himiko despertava em Bird inúmeras recordações dos verões agitados dos tempos de estudante. Era sufocante. Cheiro de corpo molhado queimado de sol. Franzindo o nariz como um cachorrinho, Himiko soltou um riso franco e seco. Bird enrubesceu.

— Isso é o que você pensa, é só isso, Bird!

Despreocupada, deixou cair a toalha de banho e quis atirar-se sobre ele, apontando-lhe os pequenos seios, presas pontudas. O instinto de defesa falou alto e Bird apavorou-se feito criança. Estendeu a mão em direção ao ventre de Himiko, com a outra ainda sobre o pénis. A mão, em contato com o ventre macio, afundou-se nele, deixando-o arrepiado.

— Você disse engravidar aos gritos, essa palavra foi a culpada – desculpou-se, falando depressa.

— Eu não gritei – retrucou Himiko ressentida.

— A palavra me inibiu, não é bom falar em gravidez.

Talvez influenciada por Bird, que escondia desesperado o pénis, Himiko também ocultou os seios e o púbis com as mãos. Ali estavam dois lutadores nus da Antiguidade protegendo as partes sensíveis do corpo com as mãos e vigiando-se belicosos, sem recuar um passo.

— Mas o que aconteceu, Bird? – perguntou, começando a perceber a gravidade da situação.

— Fui envenenado pela palavra gravidez.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 4 out of 4.

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