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Porque A Arte Somos Nós

“O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.”


José Saramago

De tudo o que vejo, leio e assisto, sinto que estamos a precisar de pensadores que pensem a vila, o Brasil e o mundo. Perguntar não ofende: onde estão os nossos pensadores? Existem ainda pensadores autónomos que passam ao largo de apenas se autopromoverem no famoso “puxar a brasa para a minha sardinha?”. Ando à procura de pensadores independentes.

Vejamos o quadro que se apresenta: o “formador de opinião” tenta convencer a todos que o seu partido político é o melhor e alguns professores universitários esquecem-se de ministrar aulas e preocupam-se em apenas empunhar bandeiras. Esquecem-se do dito providencial do escritor, dramaturgo e escritor brasileiro Nelson Rodrigues (1912-1980), a de “que toda unanimidade é burra”. Do outro lado, os conservadores de plantão tentam demonizar tudo o que a esquerda fez ou tem de bom, e para tanto é tudo 8 ou 80.

O escritor brasileiro Nelson Rodrigues

Na equação do “puxar a brasa à sua sardinha”, concordo com um pensamento que é o seguinte: se os corcundas tivessem um jornal, eles se considerariam as pessoas mais bonitas do mundo. Considero isso infância do pensamento, pois muitos parecem crianças mimadas e birrentas que não gostam de ser contrariadas. Mal sabem que aos olhos daqueles que refletem um pouco, tornam-se pessoas caricatas.

Modéstia à parte, fui feliz ao escrever o romance “A Queda” (publicado na íntegra aqui em formato de contos) com tipos caricatos que, se num primeiro momento se apresentam como defensores de causas e bandeiras, no momento a seguir, só nos fazem rir.

Descrevo os tipos: o defensor do movimento de consciência negra atacado; a feminista homossexual que detesta homens; a evangélica pastora que não consegue ler nada mais que a Bíblia; a defensora dos animais indefesos que adquire o cheirinho dos bichos devido ao convívio íntimo; a grã-fina que vive para o consumo e para aparecer nas colunas sociais, além de viagens ao estrangeiro; a adolescente viciada nas redes sociais e mais alguns tipos. Qualquer semelhança não será mera coincidência.

Capa do livro de Marcelo Pereira Rodrigues, “A Queda”

Lembro-me de que quando estava com o livro na gaveta, refleti se não havia exagerado na dose e se esses personagens não seriam inverosímeis. Mas quando o lancei, e a ver o alcance e sucesso do livro, e quando muitos leitores riram bastante das passagens extremadas, senti que havia acertado a mão. Pois bem, é assim mesmo: pessoas com discursos messiânicos e que apenas defendem as suas causas, alusivas ao culto ao próprio umbigo, tornam-se chatas, maçantes e caricatas. Contribuem muito com o meio, pois diante de tantas posturas ridículas (principalmente quando acham que estão a propor algo sério), levam-nos ao riso.

Como Diógenes que andava pela Grécia com a sua lanterna à procura de uma pessoa de valor, também fico à procura de pensadores independentes, aqueles que têm largueza de compreensão e que não sejam comprometidos com partidos, bandeiras ou ideologias. A procura tem sido árdua, mas ainda não desisti de ter análises isentas, principalmente no Brasil, célebre por abrigar muitos torcedores e poucos pensadores. Ainda não desisti.

Dispenso e desprezo os analistas que escrevem textões nas redes sociais, assassinando a língua portuguesa e a estes faço eco a Eco e os denomino de “os idiotas da Internet”! O cenário está desolador, basta-nos filtrar e coar tanta desinformação.

Marcelo Pereira Rodrigues

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