OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Sabem os realizadores que imprimem uma marca tão característica nos seus trabalhos que nos encantam e nos fazem acompanhar todos os filmes? A grife Irmãos Coen são dois destes. Joel e Ethan realizaram filmes excecionais tais como “Arizona Junior” (1987); “História de Gangsters” (1990); “Fargo” (1996); “O Grande Lebowski” (1998); “O Quinteto da Morte” (2004); “Este País Não É Para Velhos” (2007); “Destruir Depois de Ler” (2008); “Um Homem Sério” (2009); “Indomável” ou “Salve, César!“.

Neste “The Ballad of Buster Scruggs”, disponível na Netflix desde 2018, com as suas 2h13 min, com os atores Tim Blake Nelson, James Franco, Zoe Kazan, Liam Neeson, Tom Waits, entre outros, a película compõe-se em seis histórias independentes, tendo como pano de fundo o Velho Oeste norte-americano. A cena de abertura com o nome do filme a ser estampado numa capa de livro é belíssima, prometendo o narrador contar as histórias e apresentar imagens coloridas. Interessante.

“The Ballad of Buster Scruggs”

No primeiro episódio, um pistoleiro cantador vem pela estrada, ansiando por um saloon e uma dose de uísque. Melhor passagem para um faroeste não há. Chega ao saloon e logo o momento cliché em que o forasteiro não é bem-vindo. Indispõe-se com um bando de mal-encarados e, provocado, encontra balas para executá-los. Rápido e mortal. O sujeito é dos bons. Demonstra a sua perícia num outro duelo quando decepa os cinco dedos da mão do adversário.

De costas, e com a ajuda de um espelho, investiga o que é direita ou esquerda (onde fica o coração?) e, sacando mais rápido outra vez, elimina mais um. Mas é chamado para um novo duelo e aqui apresenta-se a máxima que imperava no Velho Oeste: não importa o quão se é, aparecerá sempre um pistoleiro mais ágil. O espírito sai do corpo e dirige-se ao céu, tocando a sua pequena harpa, feliz.

No segundo episódio, no meio do nada, num cenário desolador, está um banco e um poço de água imprestável. Chega um assaltante e mal pode acreditar quando analisa a ocasião que fará o ladrão. Anuncia o assalto, mas as coisas não saem conforme o esperado, ainda para mais o banqueiro era um velhinho. O sujeito apresenta-se para o embate com uma colcha de panelas e isso é uma proteção perfeita.

O meliante é entregue às autoridades, julgado e condenado a morrer enforcado, salvo aos 52 minutos do segundo tempo (com o VAR, o tempo das partidas esticou um pouco) por um vaqueiro que, infeliz coincidência, fugirá das autoridades por se tratar de um ladrão de gado. Fica o Cowboy (interpretado por Franco) entregue à própria sorte e será enforcado por aquilo que não fez. A vida tem destas coisas…

James Franco (Cowboy)

No episódio seguinte, um empresário das artes empreende jornadas apresentando a sua bizarra atração, um homem sem braços e pernas que recita um teatro chatíssimo, propositadamente são repetidas algumas passagens. Entre as cidades que compõem a tournée, e com poucos rendimentos, o empresário vivido por Liam Neeson fica encantado com um número de um circo rival: uma galinha que calculava. Reflete economicamente e desfaz-se do ator sem membros, atirando-o ao rio. Certamente, a galinha iria render-lhe bem mais. Espero que o editor do Barrete não encontre uma galinha que calcule para escrever os meus textos.

O quarto episódio apresenta-nos um vale paradisíaco: um veado pasta tranquilamente, os peixinhos no regato dançam e uma coruja fica a observar tudo. Instintos dos animais apurados, todos fogem ao ouvir a cantoria de um velho homem tenta achar ouro. O seu lema é: “Veio, onde estás?”. Podemos dizer tratar-se do velho e do veio. Esburaca o lugar paradisíaco e encontra apenas minúsculas pedrinhas de ouro, mas se vale o lema de que onde há fumaça, há fogo, encontra o seu quinhão, mas antes terá de combater um ladrão oportunista que o estava a seguir.

O lugar só fica bonito quando o velho vai embora, talvez uma metáfora do homem que até aos dias de hoje só estraga a natureza. A câmara capta bem o retorno do veado, dos peixinhos e da coruja.

No quinto episódio, uma caravana com destino a Oregon, e dois condutores experientes têm que proteger os passageiros do ataque dos comanches. As carroças seguem em fila indiana e numa delas uma moça que acabou de perder o irmão, morto por causas naturais. Ele possui um cachorrinho irritante, chamado Presidente Pearce que, se é um encanto para ela, parece não estar a agradar os outros viajantes.

Tyne Daly (Lady), Saul Rubinek (Frenchman), e Chelcie Ross (Trapper)

Um dos condutores (o mais jovem) faz a corte à mulher e ambos tratam do casamento, até pelo facto de que no Oregon as autoridades estavam a destinar uma porção de terra maior aos casados. Ele ainda tem que intermediar um acerto financeiro de 400 dólares que o finado irmão da noiva devia a um empregado. O desfecho da história é ocasional e triste, vale a pena ver o fim de Presidente Pearce.

No episódio final, uma viagem de diligência apresenta-nos passageiros que têm que conviver forçosamente. Viaja um francês licencioso que contrasta com o puritanismo de uma senhora que estava a morar na casa da filha e do genro. Quando o francês fica a saber que ela estava a voltar para o marido, questiona se haveria ainda o amor, algo que escandaliza a pudica senhora, que tem um ataque de nervos e começa a bater com a sombrinha no libertino.

Viaja um caçador de recompensas que carrega no bagageiro acima da diligência o corpo de um bandido. Como chegaram tarde, dormirá num hotel com o seu ajudante e o morto (será que o morto faria check=in?) e a história termina em aporia, fechando-se o livro e subindo os caracteres.

A moral do filme é ser um excelente mosaico de histórias sérias e divertidas, apresentando-nos casos e acasos e no todo, o resultado é magnífico, com um pouco mais de duas horas de diversão.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3.5 out of 4.

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