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Porque A Arte Somos Nós

Como qualquer negócio preocupado em vender os seus produtos, uma livraria segue o esquema básico: livros bem expostos nas vitrines e nas gôndolas principais são aqueles best-sellers e alguns de fácil consumo, contando com uma super-mega-hiper campanha de marketing que envolve inclusive a publicação de críticas nos principais cadernos de cultura dos grandes jornais e entrevistando-se os autores nos principais telejornais, etc. O esquema já é batido. Paga-se um preço bastante caro, nós, do outro lado do balcão, mas não sou contrário a esse esquema, apenas tento não fazer parte desta “impulsividade novidadeira” que costuma acometer a muitos consumidores.

Um dia destes, numa das principais livrarias de Belo Horizonte (Minas Gerais, Brasil) entrei e fui direto para a banca dos saldos. Penso que apenas bons leitores escavam essa seção. Rola um preconceito que é o facto de o livro e o autor serem ruins, afinal, vejam só, “está ali na seção dos encalhados”. Neste artigo, tentarei desmistificar esse equívoco. Geralmente, quando o leitor é apenas um consumidor, certamente irá escolher o seu livro na seção da gôndola principal, pois, “se está tão bem exposto assim, significa que é bom, e afinal, eu acabei de ler um texto a falar sobre ele, e o meu amigo falou também”. Certo.

Nos “saldões”, há sim livros ruins. Mas há preciosidades e por um preço tão baixo que quase chego a ficar constrangido. Se calhasse de encontrar um escritor que tivesse um livro ali, tentaria conversar com ele e diria que o preço do livro não atesta necessariamente a qualidade. Como escritor, os meus livros não estão naquela seção, mas não me diminuiria se constassem.

Das preciosidades, adquiri “A Terrível Intimidade de Maxwell Sim“, do britânico Jonathan Coe. A sinopse do romance de 411 páginas é atraente: “Maxwell Sim Está No Fundo Do Poço. Foi abandonado pela mulher e pela filha, não consegue ter uma conversa verdadeira com o seu pai, possui apenas um amigo e o seu emprego está por um fio. Surge, no entanto, uma luz ao fim do túnel: Maxwell recebe a proposta de fazer uma viagem até o extremo norte do Reino Unido para representar uma empresa de escovas de dentes ecologicamente corretas.

Mas será que ele está preparado para enfrentar a solidão nas estradas e encontrar os fantasmas do seu passado nesse caminho? Ao mesmo tempo divertido e profundo, o novo livro de Jonathan Coe é uma envolvente sátira sobre o homem moderno, imerso em redes sociais, porém cada vez mais solitário“. Esta obra genial custou-me R$ 20,00, o equivalente a 3 euros e vinte cêntimos.

Uma outra escolha recaiu sobre um na área dos negócios, administração de empresas, etc. Trata-se de “Arremessando O Elefante“, com o subtítulo “O zen e a arte de se dar bem nos negócios“, de Stanley Bing. A contracapa indica: “Você vai ficar eternamente esmagado em baixo do elefante que é o seu patrão ou vai fazer alguma coisa para mudar essa situação? Em “Arremessando O Elefante”, Stanley Bing ensina técnicas surpreendentes, através das quais você atingirá a iluminação e será capaz de arremessar o mais pesado dos elefantes, na direção que quiser“. Este livro de 254 páginas custou-me R$ 5,00, o equivalente a 80 cêntimos.

Marcelo Pereira Rodrigues na livraria Bertrand, em Lisboa

Um outro foi uma seleção de crónicas de Fernanda Takai, “Nunca subestime uma mulherzinha“. Fernanda é uma cantora consagrada e integrante da banda de pop rock Pato Fu, que é um dos orgulhos nossos, mineiros, e dizer que tive a oportunidade de entrevistar uma vez a banda para a Revista que edito, a Conhece-te. Zélia Duncan, outra consagrada cantora, assina a contracapa do livro: “Fernanda faz parte do seleto e indispensável grupo de pessoas que acredita e trabalha pro mundo dar certo. O seu olhar sobre as coisas está sempre direcionado para esse objetivo, fazer essa geringonça funcionar mais decentemente! O micro, que constrói o macro, que pode valer a pena.

E vejo aqui a minha amiga sendo uma contadora de ‘causos’ da melhor qualidade, alguém que não tira os olhos do que há de humano em nós e talvez por isso tenha esse potencial enorme de nos emocionar, ou fazer sorrir, ou pensar melhor sobre algumas coisas para as quais não reservamos muito tempo, no meio desse corre-corre desvairado pra lugar nenhum que esse tempo impõe“. Com as suas 135 páginas, o livro custou 80 cêntimos.

O último foi “Viajante, Caminhos do mundo“, do autor Luis Olavo Fontes. Uma obra com papel de primeira qualidade, colorido, com os seus diários de viagens e o surpreendente foi o preço que paguei: R$ 1,00, ou seja, 16 cêntimos. Um livro com 199 páginas.

Somando aqui, o custo das minhas compras foi quatro euros e noventa e seis cêntimos, menos do que um café expresso em qualquer cafeteria do Porto. Viram como dá para economizar e adquirir preciosidades quando estamos dispostos a escavarmos numa livraria? Podem me considerar um crítico, acredito até que seja, mas numa livraria fico pesaroso quando alguém entra, pergunta logo a um atendente se tem determinado livro, compra e vai embora. Uma lástima não aproveitarem o recinto para a pesquisa e deleite.

Sei que no Porto existe uma famosa livraria, a Lello, e dos relatos de turistas apressados o deslumbre com tamanha beleza, das escadas, do lugar frequentado por J.K. Rowling e outras características mais populares. Mas, se o turista não for um leitor, mal aproveitará o sítio e a bem da verdade, para os verdadeiros amantes da literatura, esse “estar ali” deve obrigatoriamente durar horas, e saindo com livros comprados (preferencialmente de autores portugueses) para conhecerem mais a fundo e se impregnarem do lugar.

Que este relato possa motivar as pessoas a permanecerem mais nas livrarias e a explorarem os saldos em busca de tesouros. Encontrados na bagatela de cinco euros…

Marcelo Pereira Rodrigues

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