OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Podem encontrar o quinto capítulo aqui!

Capítulo VI

A dança, realmente, não era um dos talentos de Cíntia. Enquanto o príncipe tentava, pacientemente, conduzir sua parceira, a guerreira dava seu pequeno vexame. Cambaleando sem jeito de um lado para o outro, esforçava-se em acompanhar o habilidoso passo de Tales, evitando, sem sucesso, pisar no seu pé ou trombar em outro casal. Com toda certeza a general era uma dama muito diferente das demais. E, por mais inacreditável que parecesse, isso não tirou o bom humor de seu companheiro.

Não demorou muito para que o circo se abrisse e convidasse todos a assistir. Escutando o som de risadas ao fundo, Cíntia ficava ainda mais tensa com toda a situação. Na verdade, ela estava pouco se importando com o que os outros pensavam. Naquele momento, sua cabeça estava na missão. E, principalmente, em Bella. Aquela pequena garotinha que tinha se mostrado muito inteligente. “Será que eu não peguei muito pesado com ela”? Refletia consigo mesma, enquanto relembrava cada palavra:

— Claro que eu topo! — falou com um tom animado, enquanto dava pequenos pulinhos de felicidade. — Nem posso acreditar! Vou fazer uma missão para você!

— Fale mais baixo! — arredou um pouco a cortina e olhou ao redor, para ver se alguém a havia escutado. Pelo jeito, as várias voltas pelo salão conseguiram confundir e tirar a atenção de todos. Ninguém a estava vigiando. Ajoelhou-se e voltou a olhar para Bella, sua face transparecendo preocupação. — Olha, eu não quero que se arrisque demais. Só tenta chegar na sala dos relatórios se tiver certeza que não vai ser pega. Se for muito perigoso, por favor, volte para o baile. Não quero que você sofra punições por estar me ajudando.

— Pode deixar! — dizia com firmeza. — Eu não irei ser pega. Pode confiar em mim.

— Eu confio, princesinha. — passou a mão em seu cabelo encaracolado, por mais que ainda sentisse um pouco de aperto no peito. — Só não empolgue demais!

— Está bem! Todavia, por que você não vai mais fazer a missão? Aconteceu alguma coisa?

Endireitou a coluna e respirou fundo. Aquela era uma pergunta que nem ela sabia responder direito. Como posso explicar para uma menininha que eu não vou porque Tales me descobriu e me obrigou a dançar com ele?

— Digamos que o príncipe Tales me fez passar um pequeno contratempo e, a partir de então, todos começaram a reparar em mim.

— Ah sim! Eu vi a hora em que vocês estavam conversando. Vi quando ele a puxou para perto de seu corpo. — Bella lançou um olhar de quem sabia de alguma coisa, fazendo a general ficar vermelha na mesma hora. — Você tinha que ver as caras dos reis. — soltou uma risada, por mais que Cíntia não visse graça nenhuma. “E se tivessem me descoberto?” — Meu pai ficou furioso na hora…

— Seu pai? — perguntou incrédula. Afinal, por que o rei Lázaro ficaria zangado com isso? Não havia motivos para ele ficar bravo. Percebeu que tinha alguma coisa escondida ali. Porém, logo perdeu o foco. Estava no meio de uma missão. Não podia se preocupar com o que os outros reis pensavam. E, com um estalo, perguntou o mais importante. — Você acha que eles me descobriram?

— Não! — balançou a cabeça, para o alívio da general. — Ninguém sabe quem é você. Eles estavam até nervosos por não conseguirem te identificar. Toda hora perguntavam um para o outro que garota era aquela. Pode ficar tranquila.

— Temos que ter um lugar para nos encontrar. — ao ver que já estava dando os quinze minutos que pedira a Tales, voltou ao assunto principal, deixando as outras dúvidas para uma outra hora. — Não podemos trocar informações dentro do baile.

— Que tal no bosque perto de onde ficam as carruagens? Acredito que não terá ninguém lá. Eu faço um sinal quando estiver indo para o lado de fora.

— Perfeito! — falou com determinação. — Mas lembre-se de não correr riscos. Só faça se for possível.

— Darei o meu máximo! Você vai ver, sou muito mais que uma simples princesinha! — lançou um último olhar decidido para a guerreira e saiu de trás da cortina pulando, como uma pequena garotinha delicada.

Relembrar tudo foi ainda mais doloroso. Mesmo que ela estivesse com muita determinação em ajudá-la, não tinha certeza se foi uma boa ideia enviar uma princesinha para essa missão. Ela tinha apenas doze anos! Por mais que, com essa idade, Cíntia já espionasse alguns lugares, Bella não tinha o treinamento adequado. Ela vinha de uma família rígida e tradicional. Uma situação totalmente diferente.

Além do mais, ela estava no castelo de Carbunculus. O castelo do rei mais ríspido dos cinco. Uma vez, pegaram um homem espionando e, como condenação, o esquartejaram em praça pública. Claro que o rei Eliseu não faria isso com Bella, no entanto, ele com certeza cobraria de seu pai uma punição adequada. Quando mais a general pensava nisso, mais sentia que foi muito precipitada em pedir que a princesa fizesse tal serviço. Estava totalmente arrependida. Só de pensar que alguma coisa pudesse acontecer com aquela menininha…

— Está tudo bem? — perguntou Tales, rompendo a bolha de culpa de Cíntia e fazendo-a voltar ao mundo real. — Não me parece muito à vontade. Nós não trocamos sequer uma palavra. Aconteceu alguma coisa?

— Não! — respondeu rapidamente. Não podia deixar que ele desconfiasse de algo. — Só estou um pouco cansada. Como eu lhe disse, eu não danço, e não sei se tentar te acompanhar foi a melhor ideia. — O silêncio que se formou foi quebrado pelas risadas, mostrando ao príncipe que ela tinha razão. Ele parou, tirou as mãos de sua cintura e observou atentamente a feição preocupada de Cíntia. Fazê-la passar vergonha na frente de todos não foi sua melhor forma de aproximação. Com rapidez, pensou em outra maneira de interagir com a guerreira.

— Que tal fugirmos um pouco dos olhares? — pegou sua mão e a direcionou para fora da pista de dança. — Para ser sincero, estou com muita sede. Aceita alguma coisa?

— Aceito, obrigada! — sorriu gentilmente, apressando-se para sair. Ficou aliviada por não estar mais no centro de toda aquela atenção. Se havia alguma esperança de não ser notada, ela esvaíra por inteiro. Não só colocara a missão em risco, como a sua identidade também. E ela tinha a noção que isso podia dar uma grande dor de cabeça para a rainha Catarina. No entanto, agora não havia mais nada a fazer. “Só espero que Bella esteja melhor do que eu!”

Cada um pegou uma taça de vinho, e, juntos, foram para trás de uma das pilastras do canto, na tentativa de se afastarem da multidão. Porém, Cíntia sabia que, enquanto estivessem naquele salão, seria vigiada a todo momento. Parece que o príncipe ao lado de uma baronesa era algo incomum de acontecer. Principalmente quando esta não apresentava o básico exigido de uma dama. Isso sem falar na quantidade de vezes que ela pisara no seu pé, que com toda certeza saíram doloridos. Para dizer a verdade, até ela mesma estava impressionada. Pelo visto, Tales realmente queria acompanhá-la. Mas por quê?

— E como poderia chamá-la, senhorita? — tentou puxar uma conversa, mas, ao ver a face desconfiada da general, acabou soltando uma pequena risada e falou baixinho. — Se quiser posso chamá-la pelo seu verdadeiro nome…

— Apenas Laísa. — disse rispidamente, cortando-o. Seus olhos o analisavam de cima a baixo, tentando desvendá-lo o mais brevemente possível.

— Acredito que seja de Asteroidea. — ao ver o rosto de indiferença da guerreira, contraiu o lábio e continuou: — Gostaria de lhe fazer algumas perguntas, Laísa, e, em troca, respondo as suas. Creio que possui algumas dúvidas, não?

— Tenho apenas uma. — Concluiu, tomando um gole do vinho e se soltando um pouco. — Muito bem, príncipe Tales, eu aceito. O que quer saber sobre mim? — semicerrou os olhos e ficou ainda mais atenta. Sua mente estava se preparando para qualquer pergunta que fizesse. Não confiava nele e não iria cair em suas armadilhas. Era hora de descobrir o que ele queria e acabar com essa brincadeira de uma vez por todas.

— Por que veio a esse baile? — encarou-a da mesma forma. — Você nunca vem aos bailes, muito menos dessa maneira. — apontou para seu vestido. — Tem algum motivo especial para estar aqui, hoje?

— Uma garota não pode querer se divertir? — sem deixar transparecer, se dececionou com a obviedade da pergunta. Pensou que o príncipe faria um questionamento mais elaborado. Esse era o tipo de pergunta para o qual já havia criado respostas caso acontecesse.

— É estranho uma garota que não sabe dançar querer se divertir em um evento feito para isso. — riu sutilmente, fazendo com que Cíntia soltasse uma pequena careta debochada.

— Bom, vamos dizer que eu nunca fui a um baile, e estava curiosa para conhecer um. Por mais que eu não dance, pensei que seria interessante agir como uma garota normal durante um momento. Distrair-me de todas as obrigações que tenho. Claro que não esperava que fosse chamada para dançar tão rápido… — soltou uma pequena risada, relaxando o corpo. “Pelo visto, enganá-lo não será tão difícil”…. Contudo, sua cabeça ainda procurava por possíveis truques.

— Então, por que veio de vestido, cabelo solto, e uma identidade diferente? — enfatizou as duas últimas palavras, para depois voltar a sua postura normal. — Não me diga que queria parecer uma dama…

— Na verdade, vim assim para que ninguém ficasse no meu pé. — Estreitou os olhos, como se estivesse apontando para ele com a mente. — Você tem noção de como é ser cobrada a agir como “Cíntia” a todo momento? Eu também mereço um pouco de paz!

— Essa é sua resposta final?

— Bem, é!

— E você acha que vou acreditar? — cruzou os braços e encostou-se na parede. — Tenho certeza que está aqui por outro motivo. Isso não faz o seu estilo!

— Ah! Agora é você quem sabe meu estilo? — riu. — Vamos lá, Alteza, qual é o meu estilo?

— Para falar a verdade, ainda estou estudando… — disse derrotado.

— Então você está me estudando? — meio incrédula, focou toda a sua atenção no príncipe à sua frente. A conversa estava ficando interessante. — E por que você estudaria uma mulher como eu?

— Vamos dizer que estava me preparando para situações como essas. — deu, por fim, sua cartada final, o que fez com que a guerreira soltasse um pequeno sorriso de derrota.

— Não vou negar, Alteza, você é realmente muito esperto. Como eu sempre digo: o primeiro passo para derrotar seu inimigo é entendendo como funciona sua cabeça. Então, tem tido sorte em sua pesquisa?

— Na verdade, não muita… — admitiu, rodopiando um de seus pés. — Na minha concepção, não existe maior enigma nos cinco reinos. É incrível como é difícil encontrar dados sobre você. É como se, no período anterior a sua posse do cargo de general de Asteroidea, você, nem mesmo existisse. Como se, simplesmente, aparecesse apenas naquela data…

— Vamos dizer que sou uma garota de mistérios…

— Mas quantos mistérios caberiam dentro de uma garota?

— Mais que as próprias estrelas… — disse com bom humor, sentindo um calor subir por sua espinha. Ele realmente era um rapaz distinto. Possuía um ar poético nas palavras que proferia.

Ele voltou a flertar com aquele olhar. Um olhar tão penetrante que fez com que o corpo de Cíntia esquentasse imediatamente. Por um momento, os dois ficaram encarando um ao outro, ruborizados. A guerreira se questionava o significado daquela expressão. Ninguém nunca a havia tratado daquele jeito. Por um momento, esqueceu-se de todos à sua volta, e observou seu rosto, seus lábios, seus olhos, sentindo uma sensação desconhecida crescer. Tales, realmente, era um homem diferente dos demais. E, durante um breve período, desejou conhecê-lo melhor. Compreender o que se passava na mente daquele distinto príncipe. Todavia, de repente, lembrou-se do porquê estava ali. Recordou-se da missão, de Bella, e do motivo da conversa entre os dois. E, saindo do transe, reiniciou a conversa.

— Agora que já fez as suas perguntas, está na minha vez, certo? — aprumou o corpo, o que fez com que Tales acordasse e se ajeitasse.

— Pode fazê-la! — respondeu confiante, se preparando mentalmente para a pergunta.

— Por que você não me denunciou? — o encarou inquisitivamente, falando de maneira bem calma. — Por que você não foi até seu pai e aos outros reis e contou a eles quem eu realmente era? Por que resolveu ter essa conversa comigo, ao invés disso?

— Quantos por quês! — brincou, meio nervoso com aquela situação. Na verdade, ele temia que esse questionamento lhe fosse feito. — Bem, — observou-a timidamente, enquanto pensava no que iria falar. — Um rapaz não poderia conversar com uma dama em um baile sem compromissos, apenas por diversão?

— Agora está na minha vez de dizer que essa resposta não faz o seu estilo. — levantou uma sobrancelha e cruzou os braços. Ela sabia que tinha uma explicação e o pressionaria até que ela saísse.

— Certo. — disse derrotado, ao ver que não tinha mais saída. — Na verdade, sempre quis falar com você…

— Falar comigo? — proferiu surpresa. “Afinal por que ele queria falar comigo? Será esse mais um truque”? Com a cabeça perturbada de questionamentos e avisos, tentou entender melhor o que ele queria expressar com aquelas palavras. — Posso saber o motivo?

— Nada demais! Só quero trocar algumas ideias…

Agora sim, a guerreira estava confusa. Não tinha ideia se o que ele dizia era verdadeiro ou não. Tentava encontrar algum sinal. Mas não via nada! Só encontrava apenas uma expressão encantadora com olhos tímidos e brilhantes. E isso a perturbava muito. E, mais uma vez, pegou-se encarando-o, sedenta por saber mais sobre aquele rapaz parado bem à sua frente. Pela primeira vez, ela tinha interesse em continuar a conversa com um homem de um dos reinos inimigos. E, presa no tempo, sentiu sua respiração ficar cada vez mais pesada, ansiando por aproximar-se dele novamente, ouvir seu coração bater forte enquanto estivesse envolta em seus braços quentes… E, quando Tales se aproximou um pouco mais dela, uma voz seca rompeu com o feitiço que os dois estavam, trazendo-os de volta para a festa, sua realidade:

— Filho, poderia me apresentar essa adorável dama que está ao seu lado? — os dois deram um pequeno pulo. Mas eles se assustaram mesmo foi quando, confusos, viraram os rostos e viram que Herculano, rei de Ager, estava bem à sua frente, com queixo erguido e olhos estreitos. Cíntia piscou e balançou a cabeça duas vezes para ver se era verdade. Já o príncipe engoliu em seco com a aparição repentina de seu pai. Aquilo não era um bom sinal.

— Pai? — perguntou em uma esperança de ser apenas uma ilusão. Contudo, quando viu o rosto indiferente do monarca, abaixou a cabeça e o seu tom de voz. — Posso saber o motivo de sua vinda aqui? O senhor quase nunca se separa dos outros reis. Realmente não esperava que viesse aqui…

— Ora filho, como poderia não vir? Queria conhecer essa adorável dama com quem estava dançando. — sorriu, por mais que a guerreira percebesse que era forçado. Em sua face, estava estampado que não estava ali para fazer amigos. — Poderia se apresentar, minha jovem?

Aos poucos, como se já estivessem prevendo outra apresentação do casal mais falado do baile, as pessoas começaram a se aglomerar em volta dela. Novamente, Cíntia era o centro das atenções. E não era por menos. Assim como era incomum um príncipe convidar uma baronesa para dançar, era ainda mais incomum um rei se dirigir tão diretamente a um súdito em uma conversa ocasional como aquela. Contudo, a general sabia que, de ocasional, não tinha nada. Conseguia sentir a raiva de Herculano borbulhando ao seu redor. O que fez com que a general levantasse algumas suspeitas.

“Será que ele me descobriu”? Era a única coisa que vinha em sua mente. “Será que meu disfarce está tão fajuto assim? Afinal, seu filho mais novo havia me descoberto. Por que ele não”? Porém, por mais que tivesse que trabalhar com essa desconfiança, sua intuição dizia que ele não estava ali por aquele motivo. Que havia outro significado para sua aparição. Que, na verdade, ele não sabia sua identidade. Se ele soubesse, já teria contado para Eliseu, que, imediatamente, chamaria os guardas. Todavia, precisava tomar muito cuidado. Estava em um campo minado, e um sinalzinho sequer poderia revelar quem ela era e o motivo de estar ali.

Entretanto, não se deixaria intimidar pelo seu oponente. Manteria a postura e tentaria sair daquela situação da melhor forma possível. Para isso, tinha que convencê-lo, assim como todos que estavam ao seu redor, de que a garota à sua frente era apenas uma delicada baronesa que achou interessante ser convidada por um príncipe para dançar e que estava tentando aproveitar ao máximo seu tempo no baile. Sem nenhuma outra intenção em mente. Pois havia muita coisa em jogo. Por isso, respirou fundo e abaixou a cabeça. Naquele momento, deveria sentir constrangimento como a maioria das pessoas comuns.

— Majestade! — fez uma pequena reverência, demonstrando submissão — Meu nome é Laísa Sanea, filha do Barão Silver Sanea. — gaguejava, em uma tentativa de parecer nervosa.

— Estranho Laísa, eu nunca ouvi falar desse sobrenome, muito menos conheço o Barão Silver Sanea. Poderia me dizer de onde você veio? E onde estaria seu pai, quero conhecê-lo.

— Na verdade, meu pai não se encontra presente. — falou meio nervosa. — Ele morreu na Guerra Civil de Asteroidea, que, aliás, é o meu reino de origem. — evitou contato visual, tentando parecer mais discreta. Não podia chamar mais a atenção dos espectadores.

— Então é uma baronesa órfã de Asteroidea. Fascinante! — simulou o interesse. — Para ser sincero isso explica o porquê uma jovem adorável como você não saber o mínimo de etiqueta. Ora essa, onde já se viu, uma dama que não consegue nem mesmo dançar. — arrancou risadas de sua audiência, o que deixou Cíntia constrangida.

— É que eu tive que aprender outros ofícios. — Tentou se explicar. — Sem falar que este é, também, meu primeiro baile, e não esperava que fosse convidada para dançar.

— Eu não culpo você, garota. Como poderia se comportar da forma correta? As mulheres de Asteroidea são todas meio desreguladas. Deve ser por influência da rainha Catarina e sua general Cíntia. Depois falam que uma mulher pode lidar sozinha com sua liberdade… — tanto Herculano quanto outros homens presentes começaram a rir de sua piada, seguidos de pequenos deboches das duas personagens.

A general fechou os olhos por alguns segundos, tentando ignorar as ofensas. Encontrava-se, naquele momento, de punhos fechados, face vermelha e dentes cerrados. Tinha que ter muita força de vontade para não sair do seu papel, e ainda mais para não golpear o rei à sua frente. Lembrou-se de sua civilidade e de seu foco principal. Catarina só a deixou ir na missão, pois sabia que a guerreira tinha o pulso forte para não se comprometer em situações tensas. Por mais irritantes que elas fossem. Suspirou, aliviando o peso de seus músculos. Não se deixaria levar por aquele idiota. Porque, se fizesse isso, não só daria pretexto para sua argumentação como também a rebaixaria ao nível de seu próprio inimigo – algo que ela nunca havia se permitido fazer –.

— Pai, acho que seria melhor conversarmos sobre isso em outro lugar… — percebendo o quanto Cíntia estava tensa, Tales resolveu interferir para amenizar os ânimos. — Talvez nós dois podemos dialogar no castelo de Ager…

— A única coisa que falaremos no castelo de Ager será sobre sua conduta! — com olhar fumegante, silenciou seu filho em questão de segundos. — Você vai voltar, agora mesmo, lá para cima e não soltará uma palavra sequer!

Por mais que o príncipe demonstrasse profundo pesar pela situação, Cíntia pôde perceber o quão influente era o rei Herculano. Ela conhecia muito bem aquela expressão. Ele estava dividido entre seguir seu pai ou sua vontade. Um luxo que as mulheres dos Cinco Reinos raramente têm. E, após o silêncio predominar no salão de bailes, o monarca voltou-se novamente para Cíntia, percebendo que tinha o controle da situação.

— Não vou negar, Laisa, foi uma escolha muito interessante de meu filho convidá-la para dançar. — Continuava com sua postura, empenhando-se em intimidar a jovem à sua frente.

— Seu filho é um perfeito cavalheiro, Majestade. Creio que o criou muito bem.

— Na verdade, não o criei bem o suficiente. A paternidade é uma coisa meio estranha. Passei anos educando esse menino. O tornei um príncipe digno de minha linhagem. E, no final, vem uma baronesa de um reino inimigo persuadi-lo a ir contra toda a nossa história! — todos olhavam surpresos para o rei. Ninguém esperava que a conversa fosse chegar a tal ponto.

— Já chega, pai! — Tales pegou na mão de Cíntia, tentando tirá-la de lá, no entanto a guerreira se soltou, desafiando o rei.

— O que vossa Majestade quer me dizer? — surpresa e curiosa, ela se recusava a ir embora, mesmo que, para isso, tivesse que continuar a seguir seu papel.

— Ora Laísa, acho que está muito claro o que eu quis dizer. Você deve ficar longe de meu filho! — suas palavras afiadas faziam o sangue da guerreira ferver. — Conheço garotas como você. E não posso deixar que uma oportunista estrague toda a imagem que levei anos para conquistar. Não acha inadequado que uma dama do seu nível fique flertando com um príncipe? Principalmente uma que nem ao menos tem comportamento adequado para tal postura? Afinal, que tipo de mulher se acharia boa o suficiente para meu filho se nem ao menos sabe os requisitos básicos. Você não serve nem mesmo para um barão, quem dirá para um príncipe como Tales…

— Primeiramente, Majestade, — tentava falar com o tom mais calmo possível, por mais que desejasse, profundamente, tirar aquele vestido, colocar suas roupas pretas e enfrentá-lo do jeito que uma guerreira enfrentaria. — Eu e príncipe Tales não estávamos flertando. Estávamos apenas tendo uma conversa amigável. E em nenhum momento quis seduzi-lo, muito menos tenho interesse em casar-me com príncipes para subir de título. Não sou esse tipo de mulher…

— E ainda é insolente. Não tem respeito nenhum mesmo! Afaste-se agora do meu filho!

— Posso até me afastar, — falava com calma, escolhendo cada palavra que iria usar contra Herculano. — Mas não será Vossa Majestade que definirá se o príncipe Tales ficará ou não longe de mim. Essa escolha é dele, e somente dele. Diferente das mulheres, nos Cinco Reinos, os homens são livres para fazerem o que quiser. — Voltou-se para Tales, que, surpreso, prestava toda atenção. Olhou  profundamente para seus olhos, e concluiu sua citação. — Não cabe a Vossa Majestade escolher o destino de seu filho. Se ele for esperto, ele aproveitará a sorte que tem e fará sua própria jornada. Com sua licença!

Cíntia fez uma última reverência, para depois se esquivar e se retirar rapidamente. Depois de tudo que aconteceu, era melhor esperar Bella no lado de fora do salão. Dava passos determinados em direção à porta, sem nenhum pesar pelo que havia dito. A raiva pulsava pelo seu sangue. Era difícil aguentar ser destratada daquela maneira. Ainda por cima por algo que nem foi ela mesma quem escolheu. Foi Tales quem havia ido atrás dela. Não foi ela quem se jogou em cima do príncipe. Além do mais, por que um rapaz não poderia escolher com quem dançar? Qual era o sentido de todas aquelas regras? Realmente bailes não eram algo para ela. Depois de tudo isso, não queria nunca mais voltar a pisar em um. Sua jornada terminava ali. Agora, era só aguardar para ver se a princesinha teria mais sorte do que ela.

Todos a olhavam boquiabertos, perplexos por uma baronesa ter desafiado um rei tão poderoso como aquele. Entretanto, mesmo ocupando toda a atenção, para a guerreira, já não importava mais. Tanto fazia se haviam descoberto ou não sua verdadeira identidade. Descobrir novas informações também não mais a interessavam. Nem ao menos tentou entender sobre o que o rei Herculano e o príncipe Tales discutiam ao fundo. Só queria sair dali o mais rápido possível. Acabar, de uma vez por todas, a missão e tirar aquelas roupas apertadas. Porém, quando estava bem perto da porta…

O grunhido! “De novo?” Seus nervos se atiçaram. Era o mesmo grunhido que ouvira antes. À medida que sua raiva ia se esvaindo, sua curiosidade ia aumentando e tomando conta. Por um momento, esqueceu-se de toda aquela confusão. Acabou parando em frente à escadaria, perto da porta de saída. Alguma coisa a impedia de ir. Por um tempo, ficou parada, apenas relembrando da manhã que passara em Virditas. Perto da Floresta dos Mil Olhos. Do interesse que sentia por aquela floresta. E das sombras que apareceram ao seu redor…

“Não! Devo estar ficando louca!” Balançou a cabeça em uma tentativa de retomar a razão. “Aquilo foi uma alucinação. É apenas minha cabeça brincando comigo”. Porém, quando subiu o primeiro degrau, seu ceticismo havia dissipado. Ela escutou de novo. Aquela mesma voz. “Não é possível!” Virou-se rapidamente e tentou encontrar de onde vinha aquele barulho. Olhava para todos os cantos possíveis. Mas não via nada. Até que algo a fez olhar para um cantinho escuro do salão. Um espaço onde não havia ninguém. E, com um susto, percebeu que uma sombra, igual as que ela tinha visto na Floresta dos Mil Olhos, pairava bem ali, a encarando com sua face escura e sem rosto.

Um raio passou pelo corpo da general. O susto foi tão grande que achou que iria cair de joelhos. “Será que aquilo foi real?” Incertezas povoaram sua mente, enquanto a sombra dançava e a convidava para chegar mais perto. Por mais que Cíntia não quisesse ir, suas pernas começaram a andar sozinhas. Não tinha mais vontade própria.  E, à medida em que se aproximava, sentia seu coração bater mais forte . Sua nuca pingava um suor gelado, suas pernas e braços tremiam cada vez mais. Por um momento, achou que não conseguiria chegar até ela. Mas só parou quando estava frente a frente com o ser, olhando-a bem no fundo de sua escuridão.

Seus olhos começaram a escorrer como dois rios de água, sua boca secou e seu peito ardeu em chamas. Estava mais que assustada. Estava em pânico. Tinha medo de tudo. O salão se desfez, perdeu a cor e começou a escurecer. Não tinha outras pessoas. Era só ela e a sombra. E, por mais que quisesse correr para longe, suas pernas não respondiam. Paralisou. Aos poucos, foi perdendo o ar. Sua respiração ficou ofegante, sua cabeça estava girando. E a sombra continuava lá, a observando calmamente, como se essa fosse sua intenção ao estar ali. Amedrontar. E nada mais…

— Laísa, está tudo bem? — uma mão quente encostou no seu ombro, fazendo-a retornar ao salão de bailes. Tonta, levou alguns segundos até conseguir voltar ao seu normal. Enxugou as lágrimas com a manga do vestido, e se virou para encontrar Tales com uma feição preocupada. Respirou fundo e olhou de relance para onde estava a sombra, e surpreendeu-se mais uma vez ao ver que ela não se encontrava lá. “Assim como na primeira vez.” Respirou fundo. Tales não poderia saber o que havia acontecido com ela.

— Estou bem. — tentou responder de forma segura, mas sem sucesso. Se Tales já havia descoberto sua identidade, era facto que ele podia perceber que não estava nada bem.

— Você ficou chateada por causa de meu pai? — falava de forma doce e calma, por mais que por dentro estivesse muito nervoso. — Se for por causa disso…

— Não foi por causa de seu pai. — Afirmou com confiança. Percebeu que Tales relaxou sua postura. — Fique tranquilo, reis como ele não me amedrontam mais.

— Poderia me dizer o que aconteceu então?

O príncipe a observava atentamente, o que a deixou um pouco nervosa. “Como vou explicar algo que não tinha explicação?” No entanto, havia outro assunto que a incomodava ainda mais. Parecia que onde o príncipe ia, todos paravam para observá-lo. Não poderia contar nada, ainda mais na frente de todo mundo. Isso sem falar no rei Herculano, que observava tudo atentamente em sua área privativa. E, percebendo o quão desconfortável Cíntia estava, Tales teve uma ideia ainda mais interessante. Algo que tiraria os dois do holofote.

— Vem comigo! — ele pegou gentilmente a mão da guerreira, o que fez com que ela ficasse quente e ruborizada.

— Aonde está me levando? — perguntou sem entender nada.

— Vamos para uma pequena aventura, baronesa. — Soltou um sorriso de quem iria aprontar alguma coisa. De início, a general ficou surpresa, mas, depois, resolveu entrar na brincadeira. Afinal, Bella ainda não havia terminado o seu pedido. Deixou que Tales a guiasse na multidão. Pois, como guerreira, ela não dispensava uma boa aventura. Mas, antes de partir, deu uma última olhada no canto escuro, onde ficava a sombra. Como já havia deduzido, ela não estava mais lá. Deixou, por fim, que um frio percorresse sua espinha, para, em seguida, entorpecer-se com a adrenalina em seu sangue.

Bárbara Kristina

Bárbara Kristina

Bárbara Kristina Generoso Cotta Lopes é natural de Governador Valadares, mas cresceu em Itabirito, local que ama e considera como sua cidade. Cercada por livros desde pequena, já havia se manifestado artisticamente no teatro e no balé, contudo, com a chegada de desafios, novos caminhos foram descobertos, o que fez com que entrasse de vez no mundo da literatura. Aos quinze anos começou a escrever, e aos dezoito publicou seu primeiro livro, “Os Sentimentos das Sombras”, o que a deixou apaixonada por essa área. Agora com vinte anos, possui dois livros publicados, além de grandes expectativas para o futuro.

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