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Podemos tratar “If Beale Street Could Talk” (2018) – em português, “Se Esta Rua Falasse” – como uma obra-prima. Os adjetivos ficarão sempre particularmente curtos quando nos expressamos positivamente sobre uma história de amor que tem, no fundo, praticamente tudo o que é necessário para ser meritória e inolvidável. Nas entrelinhas da emoção, encontra o clímax da humanidade, o apanágio da ficção, tornando tudo possível. Conta a história inspiradora de um casal afro-americano de uma Harlem repleta de preconceito e julgamento, que é o tema que suporta a narrativa que serve de adaptação ao romance homónimo de James Baldwin.

Barry Jenkins, o realizador e argumentista, transforma a narrativa em pura magia: uma poesia do princípio ao fim, um mar de possibilidades, onde o amor reina, e bem, de uma forma tão pura e inocente que se torna tão assertivo e atrativo. O célebre realizador de “Moonlight” (2016), o vencedor dos Óscares de há três anos, transforma a simplicidade num paraíso de paixão, ternura, encontro de almas e de paixões. A palavra de ordem deste filme, que conta a história de Tish Rivers (Kiki Layne) e Alonzo “Fonny” Hunt (Stephan James). De realçar a performance de Regina King, dando pele a Sharon Rivers, a mãe de Tish, que lhe valeu o Óscar de Melhor Atriz Secundária.

O realizador Barry Jenkins durante as filmagens

Fonny é preso injustamente por violação e deixa Tish grávida do seu filho. Durante todo o processo de julgamento, uma das questões de realce é a forma como esta relação não desmoronou, pelo contrário, manteve-se forte nos alicerces e intacta nos detalhes. “Eu só sei que te amo“, dizia Tish a Fonny nos momentos de maior aperto. O filme explora muito o contexto das famílias negras numa sociedade de opressão, onde não lhes era dado nada de bandeja, muito pelo contrário; onde o teu nascimento carrega contigo a certeza de que, ou lutas contra tudo e contra todos, ou estás condenado a uma vida medíocre.

Um filme com uma crítica social muito forte, onde os diálogos longos – já típicos sob a batuta de Barry Jenkins – são o suporte de uma obra sem rodeios nem truques. Explora a dor de uma família que se vê vítima de um erro judicial propiciado pelo preconceito racial, e que tem de ir à luta para conseguir sobreviver numa Nova Iorque (anos 70) onde o amor se reinventa no meio do tanto desastre.

“Se Esta Rua Falasse” mostra uma relação sentimentalmente brilhante na sua essência, prendendo o coração do espectador do início ao fim com a sua genialidade afetiva. Um hino a um cinema sem fireworks, que vive do sentimento, que mostra como se faz da beleza a palavra de ordem de uma ficção progressivamente real e apaixonada ao olhos da plateia. Mas a verdadeira beleza desta produção está precisamente na simplicidade com que aborda certas questões, sem “proteger” qualquer preconceito e sendo, portanto, audaz na maneira como transporta para o ecrã uma mensagem que tem no subtexto o seu maior alicerce.

Tish Rivers (Kiki Layne) e Alonzo “Fonny” Hunt (Stephan James)

A banda sonora cria toda uma melodia estonteante, com um enquadramento perfeito com a sua índole carismática e bela, que junta à sua cinematografia invejável e encantadora, uma história com um princípio, meio e fim bastante coesos. “Se Esta Rua Falasse” começa por dar ao espectador o início de uma sinfonia apaixonante: “This novel deals with the impossibility and the possibility, the absolute necessity to give expression to this legacy. It is left to the reader to discern a meaning in the beating of the drums“.

Um dos poucos problemas deste filme estará, fundamentalmente, na escassez de diversidade de géneros e de ritmos, imortalizando uma narrativa com a gradação certa, mas sem nunca nos surpreender fortemente com twists ou mistérios que, enquanto complemento cinematográfico, ficam sempre bem.

Vale a pena sonhar com a (im)possibilidade das coisas só ao alcance dos mestres na arte de sentir. Se esta rua falasse, teria à asfixia racista e ao horror da injustiça a prevalência do amor como mote universal.

Tiago Ferreira

Rating: 3.5 out of 4.

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