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Porque A Arte Somos Nós

Sendo uma frase mais familiar no contexto de outra altura do ano, sempre fui adepto do estado de espírito: “O Halloween é quando o Homem quer”. Partilhar e sentir histórias de horror e terror alenta-me a alma e ajuda-me a combater os demónios do dia-a-dia. Em última instância, estas narrativas medonhas e aterradoras colocam à nossa frente um espelho onde refletimos receios, preocupações, traumas. As melhores têm inclusive propriedades terapêuticas, ajudando a lidar com essas mesmas problemáticas através dos poderes da empatia e da perspetiva.

É por estas e por outras que faço questão de acompanhar o cinema de terror mês após mês e vos convido a fazer o mesmo, porque vale a pena. A lista que vos trago, sem qualquer sequência qualitativa, constitui assim uma série de recomendações de grande qualidade de filmes de terror que podem muito bem ter-vos passado despercebidos ao longo da última década.

Além do género em comum, as películas apresentam um forte cunho psicológico, assim como uma carga dramática considerável. Desde entidades malignas às perturbações da mente humana, passando pelos subgéneros dos mortos-vivos e dos vampiros, há conteúdo para todos os gostos. Mais do que horrífica, a lista que se segue é assombrosa.

“A Girl Walks Home Alone at Night”

“Uma Rapariga Regressa de Noite Sozinha a Casa” (“A Girl Walks Home Alone at Night”), Ana Lily Amirpour (2014) – Drama, Horror

Dos confins imaginativos do cérebro da autora Ana Lily Amirpour emerge uma das histórias vampirescas mais distintas e inovadoras dos últimos tempos. Se Bram Stoker fosse vivo, ficaria decerto orgulhoso. Filmado em maravilhosos tons de preto e branco e com uma banda sonora preponderante, a narrativa desenvolve-se numa cidade fantasma no Irão, onde uma vampira solitária persegue os cidadãos mais degenerados. É, contudo, uma história de amor no seu núcleo. Por vezes agridoce, noutros instantes visceral, fica a promessa de que nunca viram igual.

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“February”

“February”, Oz Perkins (2015) – Horror, Thriller

Este é para os amantes de quebra-cabeças. Não que o filme realizado por Oz Perkins seja indecifrável, muito pelo contrário. No entanto, o caráter esotérico e não-linear da narrativa adensa a experiência de uma forma bastante subtil. A história diz respeito a duas raparigas que frequentam uma escola católica e foram deixadas para trás nas férias de inverno. Entre os problemas, suspeita-se que as freiras da escola idolatrem o Diabo. Com ênfase em atmosfera, simbolismo e no que está implícito, o filme lança calmamente o seu feitiço.

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“The Eyes of My Mother”

“Os Olhos da Minha Mãe” (“The Eyes of My Mother”), Nicolas Pesce (2016) – Drama, Horror

Apropriadamente mórbido e macabro, a estreia do cineasta Nicolas Pesce é muito bem capaz de deixar cicatrizes emocionais. Em menos de 80 minutos vemos o desdobrar de Francisca, uma jovem que vive num espaço idílico até que a tragédia cai sobre ela como um relâmpago impiedoso. Em estado de choque e progressivamente isolada, a protagonista começa a desenvolver curiosidades negras. Filmado a preto e branco para efeitos benéficos, este não é um filme para fracos de estômago, mas revela-se altamente compensatório para quem estiver com uma disposição mais corajosa.

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“Berlin Syndrome”

“Berlin Syndrome”, Cate Shortland (2017) – Horror, Mistério

A brincadeira com o Síndrome de Estocolmo denuncia descaradamente o enredo. Cedo percebemos que apesar da graça, há muito pouco de recreativo no filme da cineasta Cate Shortland, que vê um romance de circunstância transformar-se no expoente máximo dos relacionamentos obsessivos. Naquele que é um dos melhores papéis da atriz Teresa Palmer, a personagem enfrenta o pesadelo de qualquer turista numa narrativa absolutamente horripilante. Em Berlim, o suspense dá lugar à tensão, que por sua vez se transforma em angústia corrosiva. A questão que ninguém quer colocar é a seguinte: E se fosse contigo?

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“Les affamés”

“Os Famintos” (“Les affamés”), Robin Aubert (2017) – Drama, Horror

Num subgénero saturado por fórmulas, a escrita e realização de Robin Aubert são uma lufada de ar fresco. Neste filme, os mortos-vivos aparentam ter comportamentos culturais, não são uma mera ameaça constante com uma metáfora enfiada lá no meio. A estética que promove é mais típica de um filme de arte. Há uma atenção extra para com a fotografia e ambiência. A qualidade sinistra e quieta da imagem provoca uma atmosfera insegura, ameaçadora, palpável. Sim, é definitivamente lento, mas também é indubitavelmente belo. Afinem a audição e dediquem a vossa atenção, o design sonoro assim o merece.

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Happy Halloween!

Bernardo Freire

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