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Porque A Arte Somos Nós

Munida de um espírito de iniciativa incomum, Carolina Serranito é uma artista multifacetada portuguesa que se dedica à pintura, à curadoria e ao cinema. Licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, em 2019, o seu gosto pela tutoria levou-a a dar aulas privadas de desenho e pintura, onde simultaneamente imagina e ensina. Trabalhou também com crianças em animações de verão entre 2017 e 2018, pela Junta de Freguesia de Carnide.

Com um forte sentido solidário, foi desde cedo que respondeu à causa do voluntariado, tendo começado por colaborar com o evento Open House Lisboa, em 2014. O seu percurso já a levou a auxiliar em diversos Festivais de Cinema, tais como o Monstra, em 2017, o Queer Porto, também em 2017, a Festa do Cinema Italiano, em 2018, entre outros.

A experiência que adquiriu, a par com o seu gosto pelas imagens em movimento, fizeram-na criar e dirigir o seu próprio Festival de Cinema, em 2019, intitulado “Triste para Sempre”. O festival, que já conta com duas edições muito bem-sucedidas, está agora em fase de preparação para a terceira edição, com tudo a apontar que irá decorrer em maio de 2021.

Foi com o intuito de conhecermos mais sobre a Carolina Serranito, a sua paixão pela pintura e pelo cinema, assim como a logística da criação e desenvolvimento de um festival de cinema, que OBarrete entrevistou a artista.

Durante a pintura do auto-retrato, pelo fotógrafo Tomás Mateus

O que é que te move a levantar da cama de manhã?

R: Isso é muito pessoal! (risos) Eu sigo muito a corrente de pensamento de que tu tens nas tuas mãos a possibilidade inteira de mudar o teu dia, a tua rotina. Se queres algo, está nas tuas mãos fazer por que aconteça. Então os projetos que crio são uma forma de me fazer levantar da cama com objetivos: saber que tenho de fazer isto, naquele horário. De certa forma este espírito dá-me motivação para ir à procura de mais, de comunicar as minhas ideias e ter um dia que seja interessante.

Quando é que descobriste a paixão pela pintura e pelo cinema?

R: Foram descobertas bastante diferentes. Tenho uma paixão pela pintura desde sempre. Não me lembro de haver uma altura em que preferisse ir brincar às escondidas do que ficar a desenhar. Mesmo no infantário, quando muita gente preferia sair, ficava com mais duas amigas a desenhar, fazer bonecas, pintar, o que fosse. Depois quando tinha cerca de 12 anos abriu um atelier de pintura no meu prédio e participei em aulas de desenho e pintura, durante seis anos. Lá estabeleci uma ligação muito forte com uma professora, percebi o ambiente de atelier e então a paixão pela pintura não parou de crescer.

Em relação ao cinema, acho que toda a gente gosta de cinema, mas entrou na minha vida de uma forma mais dramática na faculdade, quando comecei a ver cinema mais indie, cinema europeu, cinema mais intelectual. Um cinema muito específico. Fiquei especialmente enamorada pelo cinema espanhol. Com esta descoberta, percebi que há algo de especial no cinema que não há em mais arte nenhuma. Talvez só o consiga comparar à literatura.

Ter a oportunidade de entrar numa personagem, seja num filme ou num livro, e quando este termina, sentimos aquela necessidade de nos despedirmos dessa personagem mesmo quando não queremos. É algo muito especial. Quando estava a estudar no Porto (ao abrigo do programa Almeida Garret) tive uma cadeira muito interessante de teoria do cinema, mas nunca estudei a disciplina do cinema, foi sempre algo que fiz por fora.

“The Rooms”

Quais são os pintores e cineastas que mais admiras? E porquê?

R: As preferências nessas áreas são por fases. Na pintura tive uma fase muito forte de abstracionismo e arte conceptual. Gosto muito de artistas como o Mark Rothko e o japonês On Kawara, que é muito conceptual. Assim como também gosto de um casal que faz instalações, eles chamam-se Ilya Kabakov e Emilia Kabakov. No campo do cinema, sem dúvida que o meu preferido é o Pedro Almodóvar.

O que eu mais me atrai são os movimentos realistas, o contacto direto que tens com as pessoas que são retratadas nas obras. Fantasia também é interessante, mas não é um género com o qual me identifico tanto. Gosto de histórias reais, empatizar com uma multiplicidade de vidas que existem além da tua. O cinema tem essa capacidade de te mostrar alguém que tu poderias ter sido ou algo que tens de semelhante com alguém. Acho isso muito, muito interessante.

É possível viver da pintura em Portugal? O país tem consideração pelos seus pintores?

R: Há pessoas em Portugal que vivem enquanto pintoras, enquanto artistas. Mas ser artista não é pintar um quarto, vendê-lo e está feito. A comunidade artista produz, vende e expõe para ela própria. Não estamos à espera que apareçam engenheiros, médicos ou informáticos porque sabemos que não são essas pessoas que vão, provavelmente, querer comprar uma pintura. É uma comunidade muito fechada sobre ela própria.

Precisas das pessoas que têm dinheiro, precisas de quem produz, precisas de quem tem as galerias. Então é possível viver neste meio, só que é necessário entrar na bolha, e entrar nela é muito difícil. Quase toda a gente que é artista tem a par um trabalhinho num bar, num centro comercial… O que não é vergonha nenhuma! Toda a gente começa assim, precisamos de nos sustentar.

Portugal podia apostar numa educação mais forte nesse sentido. Temos EV até ao 9.º ano, onde aprendemos as cores primárias, usar o compasso, fazer uma esquadria. Mas na verdade isso não interessa para nada. Seria muito mais interessante se fosse mais teórico, se tivesse mais História da Arte ou Teoria da Pintura. Porque os miúdos até ao 9.º ano não acham piada terem de levar um exercício para casa em que têm de usar lápis de cor, compasso, fazer algo geométrico e pintá-lo.

Interessava mais estudar e compreender um artista para depois fazerem um exercício mais criativo a partir daí. Desenvolver um sentido crítico, crescer em termos informativos. Falta também educação sobre comércio da arte ou sobre a importância da estética e do visual.

No entanto, Portugal parece começar a ter mais consideração pelos seus artistas porque tem feito alterações relevantes na lei. Por exemplo, há 10 anos, se fosse vendida uma pintura por 500€, não havia forma de faturar esse dinheiro. Ou era através de recibos verdes, ou não havia forma de registar o dinheiro legalmente. A pintura tinha obrigatoriamente de ser vendida numa galeria, o intermediário. Só que nem toda a gente consegue expor em galerias, para não falar de que as galerias retêm 50% do valor do quadro vendido. Ou seja, se é vendido por 500€, 250€ são para a galeria, e se descontares o valor desce ainda mais. Ficava-se sem nada.

Atualmente, através de uma legislação recente, os artistas podem trabalhar como freelancers e a profissão é reconhecida quando, por exemplo, nos apresentamos a um emprego. Em Artes, nas profissões, encontrávamos Arquitetura, Design e Gestão de Imagem, com esta atualização somos reconhecidos de forma independente e conseguimos fazer os nossos descontos.

Desenho de Cenário

Qual foi a génese do festival de cinema Triste para Sempre e como é dirigir um evento com esta exigência logística?

R: A ideia do Festival surgiu a par com um amigo, o António Simão. Conhecemo-nos a fazer voluntariado em vários Festivais de Cinema. Começámos pelo FESTin, depois caminhámos para a Monstra, entre outros. As experiências foram tão interessantes e divertidas. O cinema está a deixar de ser um hábito casual, como ir ao café. Ir ao cinema já é algo muito específico – eu quero ir ao cinema porque quero ir ver aquele filme em primeira mão, não o quero ver em casa. Nestes Festivais vês pessoas fanáticas, vês pessoas felicíssimas por irem ver aqueles filmes específicos. E ao acolhê-las estás a fazer parte dessa magia, é uma responsabilidade que traz uma enorme satisfação.

Lembro-me que na Monstra o lindíssimo filme “A Minha Vida de Courgette“, de título original “Ma vie de Courgette” (2016), estava a competir com um filme da Disney e, naturalmente, ganhou o filme da Disney porque alcançou um público muito maior, teve muito mais dinheiro por trás da sua produção, etc. E sempre que este assunto surgia em conversa as pessoas ficavam revoltadas porque achavam que o filme “A Minha Vida de Courgette” (2016) era superior e devia ter ganho. E isto é muito giro, ver estas picardias e o interesse genuíno pelas competições e pelos ciclos dos filmes.

Acabava por acontecer algo interessante. Podes ter uma animação portuguesa sobre a família a passar num Festival sobre filmes portugueses, num Festival de animação e no Triste para Sempre, por estar relacionado com as saudades que tens da tua família. Os filmes têm assim uma corrida muito própria deles que é interessante de acompanhar. Se não consegues ver um filme num Festival, podes ir atrás dele noutro. Então eu e o António queríamos entrar nesta esfera, não tanto como voluntários mas como parte da comunidade, e não conseguíamos. Até que decidimos entrar paralelamente, fazer o nosso próprio Festival com as nossas ideias, tendo em conta que já tínhamos alguma experiência neste género de eventos.

Então a ideia do Triste para Sempre resultou de uma procura sempre cómica, amigável. Pensávamos em fazer um Festival sobre a comunidade LGBT, mas já existia, outro sobre comboios, mas também já existia! E por aí em diante! Um dia, em conversa, estavam a comentar sobre a tristeza e o António disse !Deviamos era de fazer um Festival sobre isto!“, e depois do riso, pensaram: “Um Festival de filmes tristes, para chorar, se calhar até tem potencial!“. Somos as pessoas certas para isto! (risos).

Há três bases essenciais para organizar um Festival: Filmes, local e público. Depois de arranjar isto, é necessário fazer os preparativos logísticos para interligar estes três componentes. É desafiante, dá imenso trabalho e é necessário investir muitas horas, mas é extremamente gratificante.

Self portrait in my room with a cursed necklace

Quais são as aspirações que tens para o teu Festival de Cinema? Existe algum objetivo final?

R: O objetivo é que o Festival seja anual. Em 2020 tivemos um programa muito interessante de warm-up e depois é que realizámos o Festival. Em 2021 estamos a contar repetir o formato, mas queremos fazer o Festival de uma maneira mais adulta. Ter uma sala de cinema, apoios como a Câmara Municipal e empresas que façam sentido ter do nosso lado. Com isto ficamos maiores e esse é sem dúvida um objetivo.

Quanto à aspiração máxima, aquilo que eu e o António desejamos mais é concretizar o Festival onde ele começou, que foi no cinema São Jorge, que é o cinema mais bonito e grandioso de Lisboa. Foi onde nós nos conhecemos. Por outro lado, gostava também que o Festival tomasse um rumo mais itinerante, ou seja, ter uma edição em Lisboa, no mês seguinte ir parar ao Porto, depois Coimbra. Levar o Festival “a passear” um bocadinho.

Qual é a tua definição de felicidade?

R: Perguntar isso a uma pessoa que faz um Festival sobre a tristeza é bastante irónico! (risos). Acho que é importante ser-se espontâneo, ainda que para mim não seja assim tão fácil. Gosto muito de ter planos, de ter uma escala de objetivos, e sempre que concluo um é como se tivesse a passar um nível. Para mim o mérito é fundamental, sentir que tive mérito ao completar algo traz-me imensa satisfação e felicidade. Depois existe também o mérito compartilhado, aquele que alcanças em conjunto com pessoas das quais gostas e te trazem uma sensação de compreensão e coletividade que é muito calorosa.

O que é que podemos esperar de Carolina Serranito daqui em diante?

R: Eu pensei que me ia desligar das artes visuais e afastar-me durante uns tempos depois da faculdade. Só que a quarentena e a conversa com muitos artistas de certa modo voltaram a motivar-me a pintar. Entretanto também surgiu o projeto da Residência Independente e voltaram desafios como “tens três dias para fazer uma pintura”. Em parceria com uma amiga, lançámos o desafio online à comunidade e houve muita adesão. E a energia que surgiu daí fez-me pensar que talvez não tenha de me afastar das artes visuais. Isto é aquilo que eu sei fazer melhor.

É o assunto sobre o qual sei mais e se a partir da auto-motivação e sendo autodidata tenho conseguido fazer tanto, porque não continuar? Então agora estou focada em produção cultural e curadoria. Espero que o meu nome apareça aliado a algumas exposições e eventos. É esse o plano!

Carolina Serranito foi uma das convidadas no 18.º episódio da sexta temporada do programa “É a vida Alvim”, no Canal Q

Contactos disponíveis

E-mail: srrntcarolina@gmail.com

Behance: www.behance.net/serranit

IG: @srrnt

Bernardo Freire

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