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O filme conta a história do desaparecimento de Eudoria Holmes (Helena Bonham Carter), mãe de Enola Holmes (Millie Bobby Brown). Esse desaparecimento, totalmente premeditado, espoleta um quebra-cabeças que conduzirá, se decifrado, Enola à sua mãe. “Enola Holmes” (2020), distribuído pela Netflix, é realizado por Harry Bradbeer e escrito por Jack Thorne, baseando-se na obra literária “The Case of the Missing Marquess: An Enola Holmes Mystery” (2006), de Nancy Springer.

A narrativa é apresentada de uma forma bastante leve e até peculiar: Enola vive sozinha com a sua mãe; os seus irmãos, Sherlock (Henry Cavill) e Mycroft (Sam Claflin) já tinham saído de casa e, portanto, toda a atenção de Eudoria estava virada para a sua filha. Ela fez questão de lhe ensinar desde cedo um pouco de tudo, desde domínio cognitivo a motor, sempre puxou muito por ela intelectualmente, ao ponto do jogo de palavras em que costumavam investir o seu tempo se tornar um símbolo bastante requisitado ao longo do filme. Desta feita, inteligência é o nome do meio de Enola, usufruindo um pouco do legado genético já deixado por Sherlock.

Acontece que, de um momento para o outro, a mãe de Enola desaparece e o filme é, na sua essência, a busca incessante desta pela sua mãe. Para lá chegar, tem que desenvolver imensos “puzzles” deixados pela progenitora para conseguir dar um novo rumo à sua vida.

Assim, uma das críticas que deve ser feita ao argumento é a falta de clareza com que Eudoria abandona a sua filha, clamando que se trata de uma força maior, quando o que transparece é um objetivo profundo, um pouco ao estilo Disney, em que nos é dito que a ação individual incessante mudará o mundo per si, mensagem essa que acaba por cair um pouco no exagero, de tantas vezes que é enaltecida.

Henry Cavill (Sherlock), Sam Claflin (Mycroft Holmes) e Millie Bobby Brown (Enola)

No entanto, e é aqui que o filme tem seguramente o seu maior alicerce, temos na relação de Eudoria e Enola o apanágio mais brilhante da narrativa. A força da ligação que as une, ao ponto de muitas vezes a filha ser capaz de antecipar os pensamentos da sua mãe na construção dos enigmas que esta ia deixando, além de todo o espírito de sacrifício que Enola carrega em si para conseguir encontrar a sua mãe.

Por outro lado, a relação improvável que Enola estabelece com um lorde fugitivo, Tewkesbury (Louis Partridge), é carregada de sentimentalismo e é bastante convincente na sua índole, uma vez que esta chega até a desviar-se um pouco do seu objectivo principal para garantir que o lorde não corria risco de vida.

A ação faz-se de uma forma muito pouco assertiva, na minha modesta opinião, quase como se aceitássemos que estamos inseridos num contexto irrealista – e não necessariamente irreal –, onde as coisas acabam por acontecer se continuares a lutar, retomando aquela mensagem um pouco fantasiosa que incessantemente é passada em certos filmes de animação. Algo com o qual não tive qualquer problema enquanto transposição da mensagem através de imagens e acontecimentos. O problema real foi, precisamente, quando a verbalização dessa ideia havia já ultrapassado o aceitável.

Mas “Enola Holmes”, e apesar de tudo isto, é um filme com alguns méritos, uma vez que proporciona uma experiência envolvente, ritmada, atrativa e até certo ponto cativante. A referência inevitável à personagem de Sherlock penso ser bem conseguida, sobretudo porque se afasta do protagonismo da ação – e bem.

Louis Partridge (Tewkesbury) e Millie Bobby Brown (Enola)

A cinematografia do filme coube, e bem, a Giles Nuttgens, capaz de captar momentos bastante marcantes e emotivos numa profunda simbiose com o que as personagens carregam (sentimentalmente) consigo, algo que não podemos dissociar da banda sonora bastante credível e satisfatória de Daniel Pemberton. Como não podia deixar de ser, há que transmitir palavras de congratulação à performance da protagonista, a actriz Millie Bobby Brown, que demonstra uma leveza incrível num papel que lhe parece assentar que nem uma luva.

O argumento deste filme parece alinhado q.b. com a realização de Harry Bradbeer, capaz de imortalizar momentos de conexão e de subtexto tremendos, contextualizando bem a personagem principal e os restantes na dose necessária. A acrescentar o toque interessante dos “diálogos” que Enola estabelece com o público, algo que naturalmente transporta, ou tenta transportar, o espectador para a intriga e para a viagem em que estamos, inevitável e ficcionalmente, inseridos.

“Enola Holmes” merece crédito, passa uma boa mensagem, mas sem nunca ser mais do que um filme que entretém, que faz pensar irracionalmente, mas que não chega verdadeiramente a fazer refletir/questionar aquilo que somos. Ainda assim, tem os seus méritos, sobretudo pela vertente emocional que transporta, mais até do que o seu aspeto intelectual ou cognitivo. Um filme que promete mudar o mundo, mas o verdadeiro, o nosso, o do espectador, permanece na sua profundidade, intacto.

Tiago Ferreira

Rating: 2.5 out of 4.

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