OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Desprovido tanto de desejos quanto de razões para viver (seriam equivalentes os dois termos?, era uma questão difícil, não tinha uma opinião formada a respeito), eu mantinha o desespero num nível aceitável, pode-se viver em estado de desespero, aliás a maioria das pessoas vive assim, mas de vez em quando se perguntam se não podem se deixar levar por um sopro de esperança, enfim, formulam a pergunta antes de responderem negativamente. E, no entanto, persistem, é um espetáculo comovente

– Trecho do livro “Serotonina”

O ensaísta, poeta e escritor francês Michel Houellebecq não tem papas na língua, ou, melhor dizendo, não doura a pílula no ofício da escrita. Com enredos misóginos, racistas e de uma desesperança atroz, nada complacente com a efemeridade da vida, descreve a estupidez de um modo europeu de viver que perdeu completamente o sentido de ser. Está bom! O autor poderá defender-se alegando que ele é uma pessoa, os seus personagens são outros e a isso evoco a sentença proferida pelo dramaturgo e escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900): “Entre a vida e a obra de arte, a verdade deve ser atribuída a esta última“. Não sei se foram exatamente estas as palavras, mas o sentido é exatamente esse.

Oscar Wilde

Em “Serotonina” (Alfaguara, 237 p.), Michel Houellebecq narra a estúpida e insignificante vida de Florent-Claude Labrouste, que tem 46 anos e um emprego bem remunerado no Ministério da Agricultura francês. Tem um relacionamento com uma japonesa, Yuzu, até que descobre que ela é uma vadia que transa até com cachorros, em obscuros vídeos que acidentalmente vem cair nas suas retinas. Já deprimido e recorrendo ao antidepressivo Captorix, daí o título do livro aludir ao remédio, toma a decisão de simplesmente deixar de existir.

Há pouco, havia perdido a mãe e o pai que praticaram suicídio a partir do momento em que o último foi diagnosticado com um cancro terminal. Tem uma boa conta bancária, decide sumir sem deixar rastros e vai morar para um hotel num dos bairros distantes de Paris. Como não tem amigos, fica ali, numa rotina exasperante, fugindo de si mesmo e considerando a sua vida como um todo uma bosta (desculpem-me possíveis leitores mais sensíveis do OBarrete, mas não consigo encontrar termo mais adequado para retratar essa vida estranha).

Como cabeça vazia é oficina do diabo, Labrouste vai tentar ressignificar a sua relação com Camille, uma namorada do passado. Entre comprimidos e solidão, vai montando uma estratégia de aproximação. Na sua maluquice, chega a aventar assassinar o garotinho dela de quatro anos, com um tiro de rifle à distância, para que a posteriori pudesse reaproximar-se da ex-namorada; pensa que aparecendo depois de um tempo ela iria reatar e desejar um outro filho.

Mas é na visita a um amigo de faculdade (ou o que mais perto poderia se denominar “amigo”) que ele se dirige a uma área rural, sendo que o outrora roqueiro e fumador de maconha Aymeric d´Harcourt-Olonde se transformou num dono de uma fazenda que aluga bangalôs para turistas. Um outro hóspede é o alemão ornitólogo que tem perfil de pedófilo e que recebe a visita de uma menina na bicicleta.

Michel Houellebecq

O nosso desiludido passa a espionar, do mesmo modo que toma conhecimento de uma manifestação dos produtores rurais contra a polícia francesa e, para azar dos azares, o seu anfitrião comete suicídio, somando-se a alguns mortos no conflito. Estão observando? A Europa não é lá esse “mar de rosas”. Pungente a dor de Labrouste ao perceber que as vacas da fazenda estavam sem alimento e que não foram ordenhadas. Vai-se embora.

O reencontro frustrado com Camille (que não chega a acontecer) o leva à mais absurda solidão. Agora nada mais faz sentido, nem sabia ao certo o porquê de querer esperançar alguma ligação, pois as vicissitudes humanas são simples e do mesmo modo que a serotonina aplaca as dores existenciais, o sexo por si só é preferível a maiores divagações que vão além de paus e bocetas, no entendimento límpido e cristalino do personagem.

Essa vida vazia e fútil caminha para o fim. O suicídio oferece-se como a solução de todos os seus problemas, mas, antes disso, preocupa-se com a conta bancária que está polpuda e, mesquinho, coloca como missão não deixar nada para o Estado, já que não tinha herdeiros. Repugna-lhe a ideia de que parte do seu dinheiro vá para uma instituição romena.

Ao fim ao cabo, lemos uma narrativa fluída e desencanada, com ótimas tiradas de humor mesmo nas sombras da mais profunda melancolia. O livro poderia ter sido mais elaborado, na sua tessitura e, em algumas partes, falta-lhe continuidade. O problema de gostarmos de um autor é que sempre esperamos mais. Da mesma forma que amei “Plataforma“, outro título seu, e que me dei como missão ler “Partículas Elementares“, “O Mapa e o Território” e “Submissão“, voltei a partes deste “Serotonina” para esta resenha e para sugerir a todos este autor que aborda tão bem as mazelas humanas.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3 out of 4.

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