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Porque A Arte Somos Nós

Quando em 1876 o senhor Graham Bell patenteou aquilo a que viria-mos a chamar de telefone, não imaginava nos seus melhores devaneios que iríamos ter a possibilidade de passear com um no bolso e estabelecer uma ligação instantânea de qualquer parte do planeta. Ainda antes de “Blade Runner“, também no decorrer da missão “Apollo”, que viria a ter o seu momento alto com a alunagem em Julho de 1969, aos cientistas da NASA lhes passava pela cabeça que o mesmo telefone que transportamos no bolso hoje em dia, tivesse maior capacidade que o conjunto de computadores que foram utilizados nos foguetões espaciais. Agora, como então, não nos passa pela cabeça o que irá ser deste planeta daqui a 100 ou 200 anos…

Na obra cinematográfica de 1982, “Blade Runner: Perigo Iminente“, Ridley Scott trouxe-nos uma visão que por aqueles tempos muitos consideraram distópica e demasiado distorcida do que seria a humanidade num futuro mais ou menos próximo. Num tom noir do principio ao fim, o realizador mostra-nos como seria a Los Angeles de 2019 com a raça humana a viver debaixo de uma copula negra e chuva permanente, em que o domínio é exercido por uma corporação que cria humanóides chamados de Replicans.

Harrison Ford em “Blade Runner: Perigo Iminente” (1982)

Estes existem para servir os humanos nas tarefas pesadas e sujas, no entanto, após uma revolta dos Replicans na Terra, estes são enviados para os outros planetas explorados pela Terra para fazer os ditos trabalhos pesados e sujos, cabendo aos Blade Runners eliminar os Replicans que ameaçassem o bom funcionamento do sistema, na Terra. É partindo desta premissa que o realizador cria uma relação amorosa entre o extreminador e a Replican, desafiando as regras e a imaginação de cada um. Até que ponto o desenvolvimento de seres artificialmente concebidos atinge um grau de proximidade tal dos humanos, que lhes permite ter sentimentos e desenvolver relações “humanas”?

Este é um tema por demais atual, na perspetiva de que hoje já não questionamos se será possível, mas sim, quando é que tal vai ser prática comum. O desenvolvimento da inteligência artificial (IA), permite-nos ter, com um elevado grau de fiabilidade, a certeza de que estamos a avançar a passos largos para a implementação de seres mistos humano/máquina, tendo como suporte a IA. É mesmo possível arriscar, com base em estudos académicos, que podemos estar a avançar para uma nova espécie, o que, para nós humanos crentes na nossa superioridade, não é fácil de aceitar!

No desenvolvimento da narrativa do filme, é possível perceber o grau de desenvolvimento destes humanóides, ao ponto de conseguirem deixar na dúvida qualquer humano relativamente à sua concepção. Para além desta temática central na obra, Ridley Scott procurou imaginar a existência humana naquele contexto, sendo percetível a degradação e a decadência da mesma, bem espelhada nos cenários ao nível do solo, onde a vida é difícil e imunda. Ponto forte neste contexto é também a cada vez mais inócua relação entre humanos. Cada um vive isolado do próximo.

Toda esta temática tem continuidade no filme de 2017, “Blade Runner 2049“, realizado por Denis Villeneuve, onde o cineasta procura “arrumar” algumas das ideias do primeiro filme, seguindo uma linha cronológica que situa a acção passados 30 anos do primeiro filme.

O principio é o mesmo, a criação de seres artificialmente “perfeitos”, mais desenvolvidos que os anteriores, mas com a limitação de não se auto reproduzirem, o grande mistério da criação assente na relação de Deckard com Rachael, supostamente humanóide e infértil, e que leva K, um Blade Runner Replicant modelo Nexus-9, a descobrir a existência de uma filha fruto da relação entre ambos. O enigma desfeito, a Replicant que teve capacidade de fertilizar um ser no seu ventre e que tem que ser protegido a todo custo para bem da raça humana.

“Blade Runner 2049” (2017)

Para além desta temática central também neste segundo filme, Villeneuve aperfeiçoa os cenários e os contextos, sendo possível por essa época ter uma relação com um ser virtual como se de uma mulher verdadeira se tratasse, ao ponto de K se apaixonar por Joy, o modelo virtual. É também possível utilizar viaturas que voam e que descolam verticalmente, muito prático e o sonho de qualquer condutor dos dias de hoje.

Outra cena interessante deste filme decorre durante o encontro entre Deckard e K nas instalações de uma sala de espetáculos, e em que é possível assistir, por exemplo, a um concerto de Elvis Presley em projeção holográfica. Hoje tal feito já é possível, embora ainda com custos elevados, o que é uma pena!

Em suma, estes dois filmes trazem-nos uma perspetiva do futuro que, na minha opinião, não está tão distante de acontecer como possa parecer. Como já referi, o desenvolvimento de seres máquina está muito avançado e a IA tomou conta do nosso dia-a-dia. Não é hoje possível dissociar a nossa existência dos algoritmos que nos regem a cada passo que damos. É, definitivamente, uma questão de ética, mas mesmo essa irá ser superada por imperativo do desenvolvimento cientifico e tecnológico que se aproxima.

Acredito que essa nova geração não terá capacidade de procriar, mas terá capacidade de se reproduzir à medida das quantidades que forem necessárias. O ser humano tal como o conhecemos hoje, avança a grande velocidade para a auto-destruição, garantindo no entanto um sucessor, Replican se quiserem, ou outra coisa qualquer, pouco importa!

Jorge Gameiro

Trailer de “Blade Runner: Perigo Iminente” (1982)

Trailer de “Blade Runner 2049” (2017)

2 thoughts on “Blade Runner – Da distopia à realidade

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